A graça de Deus sempre foi o argumento teológico mais atacado pelo diabo.
No caso em questão, [os dissimuladores] estavam tentando “transformar em libertinagem a graça de nosso Deus.” (Judas 4)
O argumento que estava sendo desenvolvido era basicamente o seguinte: se a graça é um “favor imerecido”, então, quanto menos mérito se tem, maior é o espaço para a graça de Deus se manifestar. Dessa forma, o pecado passava a ser um aliado da graça de Deus, na medida em que quanto mais se peca mais Deus tem ocasião para mostrar-se gracioso.
Esse é o pretexto do liberalismo comportamental.
Além disso, essa perspectiva de barateamento da graça de Deus passa também pela ideia de que Deus é gracioso e sublime demais para ocupar-se com os banais deslizes humanos. Ou seja, a graça passa a ser vista numa dimensão tão superior que faz com que seu portador Absoluto, Deus, não possa baixar-se desse piso de elevação e generosidade sob pena de diminuir-se. E assim, usa-se a graça de Deus contra o próprio Deus. E mais, faz-se com que Deus seja escravo de sua graça e fique inflexivelmente contido por ela.
Desse modo, mais uma vez a graça de nosso Deus é “transformada em libertinagem”, na medida em que é usada para explicar o alegado desinteresse de Deus pelas “pequenas realidades morais” dos seres humanos. O estranho dessa concepção é que ela atribui às ações do homem uma importância inimaginável em todas as outras áreas de sua vida, menos na área moral. Nesta, os atos humanos são vistos como pequenos demais para interessarem a Deus.
É a graça conveniente. Evocada para justificar o pecado, não o pecador.
- Do livro A Síndrome de Lúcifer por Caio Fábio, 1988
