Archive for the 'Missional' Category
2010
A Cura
Se por estarmos em Cristo
nós temos alguma motivação,
alguma exortação de amor,
alguma comunhão no Espírito,
alguma profunda afeição e compaixão,
completem a minha alegria,
tendo o mesmo modo de pensar,
o mesmo amor,
um só espírito
e
uma
só
atitude.
Nada façam por ambição egoísta
ou por vaidade,
mas
humildemente
considerem os outros
superiores a si mesmos.
Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.
Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus,
que, embora sendo Deus não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;
mas esvaziou-se a si mesmo,
vindo a ser servo
tornando-se semelhante aos homens.
E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo
e foi obediente
até a morte,
e morte de cruz!
Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome,
para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho,
nos céus,
na terra
e debaixo da terra,
e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,
para a glória de Deus Pai.
Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram,
não apenas na minha presença, porém muito mais agora na minha ausência,
ponham em ação a salvação de vocês com
temor
e
tremor,
pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar,
de acordo com a boa vontade dele.
Façam tudo sem queixas nem discussões,
para que venham a tornar-se
puros
e
irrepreensíveis,
filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada,
na qual vocês brilham como estrelas no universo,
retendo firmemente a palavra da vida.
(Carta de São Paulo aos Filipenses, 62 A.D.)
2010
A Ferida
Tendemos a não viver a realidade
porém em sonho, em ideologias e ilusões,
em teorias, projetos,
coisas que trazem sucesso e fama.
As barreiras que cercam nossos corações
são profundas e fortes,
protegendo-nos da dor.
Vivemos no passado
ou no futuro
ou num sonho.
Nossos corações e mentes podem se afastar gradualmente de nossa própria carne e emoções,
do “agora” da realidade.
Nós nos colocamos no centro de tudo,
não nutridos por outras pessoas,
nem pela canção dos pássaros,
nem pelo grito de amor que brota
do coração das crianças,
mas por nós mesmos,
insaciavelmente em busca de singularidade e valor
ou caindo nos poços de depressão e revolta,
escorregando para o “amanhã” ou o “ontem”,
agarrando-nos nas garras do passado.
Isto não significa que não haja ética
e ações moralmente boas ou más.
Podemos escolher fazer o bem e facilitar a vida.
Contudo, toda a fragmentação dentro de nós
solidifica nossas motivações.
Conforme buscamos glória e fama,
querendo provar nossa bondade e valor,
somos todos necessitados de profunda cura interior.
(Jean Vanier em Jesus, o dom do amor – Paulinas, 1998)
2010
Levante Sua Voz…
“Abre tua boca em favor do mudo, em favor do direito de todos os desamparados.” Prov 31.8
A ESTRANHA TEORIA DO HOMICÍDIO SEM MORTE
Marcia Suzuki
Conselheira de ATINI – VOZ PELA VIDA
www.atini.org
Alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista. A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos. Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas “interdição” de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha 2, 5 ou 10 anos de idade.
Deixe-me explicar melhor. Em qualquer sociedade, a criança precisa passar por certos rituais de socialização. Em muitos lugares do Brazil, a criança é considerada pagã se não passar pelo batismo católico. Ela precisa passar por esse ritual religioso para ser promovida a “gente” e ter acesso à vida eterna. Mais tarde, ela terá que passar por outro ritual, que comemora o fato dela ter sobrevivido ao período mais vulnerável, que é o primeiro ano de vida. A festa de um aninho é um ritual muito importante na socialização da criança. Alguns anos mais tarde ela vai frequentar a escola e vai passar pelo difícil processo de alfabetização. A primeira festinha de formatura, a da classe de alfabetização, é uma celebração da construção dessa pessoinha na sociedade. Nestas sociedades, só a pessoa alfabetizada pode ter esperança de vir a ser funcional. E assim vai. Ela vai passar por um longo processo de “pessoalização”, até se tornar uma pessoa plena em sua sociedade.
Esse processo de socialização é normal e acontece em qualquer sociedade humana. As sociedades diferem apenas na definição dos estágios e na forma como a passagem de um estágio para outro é ritualizada.
Pois é. Esses antropólogos e missionários estão defendendo a teoria de que, para algumas sociedades, o “ser ainda em construção” poderá ser morto e o fato não deve ser percebido como morte. Repetindo – caso a “coisa” venha a ser assassinada nesse período, o processo não envolverá morte. Não é possível se matar uma coisa que não é gente. Para estes estudiosos, enterrar viva uma criança que ainda não esteja completamente socializada não envolveria morte.
Esse relativismo é racista por não se aplicar universalmente. Estes estudiosos não aplicam esta equação às crianças deles. Ou seja, aquelas nascidas nas grandes cidades, mas que não foram plenamente socializadas (como crianças de rua, bastardas ou deficientes mentais). Essa equação racista só se aplicaria àquelas crianças nascidas na floresta, filhas de pais e mães indígenas. Racismo revestido com um verniz de correção política e tolerância cultural.
Foto: Niawi, menino indígena do Amazonas enterrado vivo aos 5 anos por não conseguir andar. Mãe e pai não queriam sacrificá-lo e se suicidaram antes.
Tristemente, o maior defensor desta hipótese é um líder católico, um missionário. Segundo ele “O infanticídio, para nós, é crime se houver morte. O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos índios, já que essa não mata um ser humano, mas sim, interdita a constituição do ser humano”, afirma.”(1)
Uma antropóloga da UNB, concorda. “Uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa. Ela passará por um longo processo de pessoalização para que adquira um nome e, assim, o status de ‘pessoa’. Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é. Infanticídio, então, nunca”.”(2)
Mais triste ainda é que esta antropóloga alega ser consultora da UNICEF, tendo sido escolhida para elaborar um relatório sobre a questão do infanticídio nas comunidades indígenas brasileiras.(3) Como é que a UNICEF, que tem a tarefa defender os direitos universais das crianças, e que reconhece a vulnerabilidade das crianças indígenas(4), escolheria uma antropóloga com esse perfil para fazer o relatório? Acredito que eles não saibam que sua consultora defende o direito de algumas sociedades humanas de “interditar” crianças ainda não plenamente socializadas.(5)
O papel da UNICEF deveria ser o de ouvir o grito de socorro dos inúmeros pais e mães indígenas dissidentes, grito este já fartamente documentado pelas próprias organizações indígenas e ONG’s indigenistas.(6)
A UNICEF deveria ouvir a voz de homens como Tabata Kuikuro, o cacique indígena xinguano que preferiu abandonar a vida na tribo do que permitir a morte de seus filhos. Segurando seus gêmeos sobreviventes no colo, em um lugar seguro longe da aldeia, ele comenta emocionado:
“Olha prá eles, eles são gente, não são bicho, são meus filhos.
Como é que eu poderia deixar matar?”(7)
Para esses indígenas, criança é criança e morte é morte. Simples assim.
NOTAS
(1) http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=347765
(2) idem
(3) Marianna Holanda fez essa declaração em palestra que ministrou em novembro de 2009 no auditório da UNIDESC , em Brasília.
(4) Segundo relatório da UNICEF, as crianças indígenas são hoje as crianças mais vulneráveis do planeta. “Indigenous children are among the most vulnerable and marginalized groups in the world and global action is urgently needed to protect their survival and their rights, says a new report from UNICEF Innocenti Research Centre in Florence.”
(5) Em algumas sociedades, crianças não socializadas seriam gêmeos, filhos de mãe solteira, de viúvas ou de relações incestuosas, crianças com deficiência física ou mental grave ou moderada, etc. A dita “interdição” do processo pode ocorrer em várias idades, tendo sido registrada com crianças de até 10 anos de idade, entre os Mayoruna, no Amazonas. Marianna defende essa “interdição” em dissertação intitulada “Quem são os humanos dos direitos?” Estudo contesta criminalização do infanticídio indígena.
(6) www.quebrandoosilencio.blog.br www.atini.org
www.movimentoindigenaafavordavida.blogspot.com
http://vimeo.com/1406660 carta aberta contra o infanticídio indígena.
(7) Trecho de depoimento do documentário “Quebrando o Silêncio”, dirigido pela jornalista indígena Sandra Terena. O documentário está disponível no link www.quebrandoosilencio.blog.br
2010
A violência do amor

Há alguns anos, uma amiga emprestou-me um livrete chamado The Violence of Love. Era uma coleção de pensamentos do Arcebispo Oscar Romero. Fiquei impressionado com seus pensamentos e procurei conhecer sua história. Esta mesma amiga menciou um filme sobre sua vida, com Raul Julia no papel de Romero. Além de assitir o filme, comprei alguns livros, dentre eles o diário dos dois últimos anos de sua vida e outra coletânea de pensamentos seus que tornou-se um de meus livros favoritos. Oscar Romero é um martír pelo qual passei a nutrir grande admiração.
Hoje faz 30 anos que Oscar Romero foi assassinado enquanto celebrava a missa numa pequena capela em El Salvador. Abaixo estão alguns de seus pensamentos extraídos do livro The Church Is All Of You.
“Como cristãos formados no evangelho,
vocês têm o direito de se organizar,
para tomar decisões concretas baseadas no evangelho.
Mas tenham muito cuidado para não trair
aquelas convicções evangélicas, cristãs, sobrenaturais
na companhia daqueles que buscam outras libertações
que podem ser meramente econômicas, temporárias, políticas.
Mesmo trabalhando pela libertação
junto com outros que possuem outras ideologias,
os cristãos devem apegar-se à sua libertação original.”
(19 de Junho, 1977)
“Não coloquemos nossa confiança
nos movimento libertadores terrenos.
Sim, eles são providenciais,
mas somente se não se esquecerem
de que toda força libertadora no mundo
vem de Cristo.”
(24 de Junho, 1979)
“Eu somente quero ser o construtor de uma grande afirmação,
a afirmação de Deus,
que nos ama
e que deseja nos salvar.”
(25 de Fevereiro, 1979)
“Na medida em que somos igreja,
isto é, verdadeiros cristãos,
encarnando o evangelho,
nesta medida seremos os cidadãos oportunos,
(…) necessários neste momento.
Se nos retrairmos desta inspiração da Palavra de Deus,
podemos ser pragmáticos,
oportunistas políticos,
mas não seremos cristãos
que moldam a história.”
(11 de Novembro, 1979)
“Eu repito o que disse a vocês uma vez quando temíamos ficar sem uma estação de rádio:
O melhor microfone de Deus é Cristo,
e o melhor microfone de Cristo é a igreja,
e a igreja são todos vocês.
Que cada um de vocês,
em seu próprio trabalho, em sua própria vocação (…) cada um em seu próprio lugar viva a fé intensamente
e sinta que em seu ambiente
você é um verdadeiro microfone de Deus nosso Senhor.”
(27 de Janeiro, 1980)
“A violência que pregamos não é a violência da espada,
a violência do ódio.
É a violência do amor,
da irmandade,
a violência que deseja transformar armas
em foices para o trabalho.”
(27 de Novembro, 1977)
2010
Dia de São Patrício
Hoje comemora-se na Irlanda e em outras partes do mundo, o dia de São Patrício. Não venho de uma tradição que venera os santos e não acredito que devemos dirigir-lhes nossas orações. Mas em 2003 quando eu estava no Havaí, me deparei com o livro The Celtic Way of Evangelism de George Hunter III na biblioteca onde estava hospedado e encontrei referências cativantes à vida de São Patrício. Foi minha introdução a vida deste santo que viveu nos século V. Aos 16 anos Patrício foi levado como escravo para Irlanda onde permaneceu durante 6 anos. Depois de ter escapado, ele perseguiu a vida monástica e mais tarde retornou para Irlanda como missionário. Nos últimos anos li a biografia Saint Patrick of Ireland de Philip Freeman, Como os Irlandeses Salvaram a Civilização de Thomas Cahill e Confessio, o único texto atribuído a Patrício. Todos estes textos aumentaram meu apreço por este homem de Deus e meu interesse pelo Cristianismo Celta. Abaixo está um trecho de uma oração atribuída a ele para a qual eu digo: Amém!
Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim,
Cristo em mim, Cristo embaixo de mim, Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao me deitar,
Cristo ao me sentar,
Cristo ao me levantar,
Cristo no coração de todos os que pensarem em mim,
Cristo na boca de todos que falarem em mim,
Cristo em todos os olhos que me virem,
Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.
2010
Steiger Brasil
Neste sábado, as 17h, no Projeto 242, acontecerá o encontro do Steiger Brasil 2010. Maiores informações aqui.
2010
O que é a Igreja? (2)
Seguindo a postagem sobre O que é a Igreja?, coloco mais uma definição de igreja apresentada pelo missiólogo Alan Hirsh. Segundo Hirsh, a igreja é:
1. Uma comunidade aliançada: a igreja é formada por pessoas, não por pessoas que estão apenas juntas, mas por aqueles unidos por meio de uma aliança distinta. Há um comprometimento com relação um ao outro formado por essa aliança.
2. Centrada em Jesus: Ele é a nova aliança com Deus e sendo assim, Ele é o verdadeiro epicentro de uma fé cristã autêntica. Uma ecclesia não é apenas uma comunidade de Deus – há muitas comunidades religiosas assim por aí. Somos definidos por nossa relação com a Segunda Pessoa da Trindade, o Mediador, Jesus Cristo. Uma comunidade aliançada centrada em Jesus participa na salvação que Ele traz. Recebemos a graça de Deus por meio dEle. Porém, mais é requerido para verdadeiramente constituir uma igreja.
Um verdadeiro encontro com Deus em Jesus deve resultar em…
3. Adoração, definida como o ofertar de nossas vidas a Deus por meio de Jesus.
4. Discipulado, definido como seguir Jesus e tornar-se cada vez mais como Ele (à Sua semelhança).
5. Missão, definida como extensão da missão (os propósitos redentores) de Deus através das atividades de Seu povo.
(Alan Hirsh, The Forgotten Ways, BrazosPress, 2006, p. 40-41)
2010
Missio Dei > Opus Dei
A missio Dei se manifesta na opus Dei.
Jesus disse: “Meu Pai trabalha e eu trabalho também… grande é a seara e os trabalhadores são poucos.”
É hora de arregaçar as mangas e unir-se aos propósitos de Deus no mundo.
É hora de unir-se à missão de Deus fazendo a obra de Deus.
Vem conosco!
Este mês no P242.
Arte: Tom
2010
Haiti nosso de cada dia

Há pouco mais de uma semana os olhos do mundo se voltaram para o Haiti, uma pequena ilha caribenha atingida por um terremoto devastador. Estima-se que 200 mil pessoas possam ter morrido, apesar de que o número exato de mortes demorará para ser computado.
Em meio a tragédia e sofrimento sem medida, temos assistido uma emergência de solidariedade imensa, vinda de todas as partes do mundo, para socorrer os soterrados, os feridos e mais de 1 milhão de desabrigados sedentos e famintos na Capital Porto Príncipe. Histórias emocionantes de resgate surgem a cada dia, como a de Anna Zizi, uma senhora de 70 anos, ou a de um bebê recêm-nascido de 23 dias, ambos resgatados com vida uma semana após o terremoto.
Tenho visto um grande número de cristãos respondendo nesta hora com paixão e urgência, o que é sem dúvida alguma animador. A maioria das respostas que vejo, no entanto, é de blogueiros e twiteros chamando pessoas para fazer doações (muitas vezes impensadas e que correm o risco de nunca alcançarem seu destino), denunciando as declarações tolas de Pat Robertson ou aproveitando o momento para falar mal de alguma pessoa, governo ou instituição.
Ainda assim, não conheço ninguém pessoalmente se manifestando no sentido de ir ao Haiti ajudar nas equipes de resgate (a maior necessidade logo após um terremoto), atender os feridos ou trabalhar na reconstrução que se seguirá nos próximos meses e anos. Estes são passos que exigem muito mais engajamento pessoal.
Entendo que nem todo mundo tenha condições de ir a Porto Príncipe. Mas não consigo deixar de pensar também nas tragédias negligenciadas no dia-a-dia, muitas delas bem próximas de cada um de nós. Fico pensando quantos blogueiros e twiteros que manifestam tanta paixão agora pelo Haiti, vivem suas vidas com a mesma paixão, entrega e abnegação no dia-a-dia? Quantos estão engajados em atividades missionais rotineiramente, de tal maneira que suas postagens sejam carregadas não somente de emoção politicamente correta, mas de autoridade de vida seguindo o Caminho de Jesus?
É trágico o que aconteceu no Haiti. Não tenho a intenção de minimizar a tragédia nem tampouco desencorajar os esforços humanitários neste momento de dor. O que gostaria, sinceramente, é que todos aqueles tocados agora, pudessem enxergar o Haiti nosso de cada dia e se envolver nele com a mesma intensidade quando as notícias deste terremoto se dissiparem como a névoa. Isso sim seria revolucionário…
2010
Pregar ou não pregar?
“Pregue o Evangelho o tempo todo. Se necessário use palavras.”
A frase acima é comumente atribuída a São Francisco de Assis e usada como um pretexto para o seguinte:
“Não é mais necessário pregar, basta viver o Evangelho e as pessoas entenderão quem é Jesus.”
Primeiramente, quero dizer que gosto de São Francisco. Tenho suas obras completas (Escritos e biografias de São Francisco de Assis, Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano), das quais li 1/3 aproximadamente, e sua vida muito me inspira. Um dos meus hinos favoritos é baseado em um cântico escrito por Francisco.
Em segundo lugar, apesar de ser reconhecidamente bem franciscana em seu espírito, tudo indica que a frase acima não é de São Franciso de Assis. Os mais eminentes estudiosos franciscanos pesquisaram todos os seus escritos e as biografias escritas até 200 anos após sua morte e não encontraram nelas tal frase. O mais próximo que chegaram foi a uma instrução que Francisco deu em sua Regra Não-Bulada dizendo que ninguém deveria pregar a menos que tivesse recebido permissão de seu ministro para fazê-lo. E acrescentou: “No entanto, todos os irmãos podem pregar pelas obras.” (RegNB 17.1 e 3)
Entretanto, uma vez que a frase é atribuída a São Francisco e usada para apoiar a atitude de cristãos pós-modernos de não pregar (visto que pregar é antiquado, ofensivo e politicamente incorreto), por que não olhar para a vida de São Francisco e ver se o modo como ele viveu sustenta essa teoria?
A biografia de São Francisco revela que ele foi um fervoroso missionário, viajou centenas de quilômetros para pregar (isso mesmo!) o Evangelho aos italianos, desejou muito alcançar os sarracenos (muçulmanos) chegando a enfrentar um naufrágio (na primeira tentativa de ir até a Síria) e enfermidade (quando se encontrava à caminho do Marrocos). Francisco era um pregador ao ar livre, falando nas feiras públicas, das escadarias das igrejas e das muretas nos pátios dos castelos. O livro St Francis of Assisi and the Conversion of Muslims por Frank Rega, narra o esforço de Francisco para converter Melek el-Khamil, sultão do Egito, durante a Quinta Cruzada (1219). Francisco esperava convertê-lo “não com armas, mas sim com palavras” diz o monge John Michael Talbot em seu livro Lições de São Francisco. Talbot cita Chesterton: “Francisco seguia esta máxima simples: É preferível criar cristãos a destruir muçulmanos.”
O capítulo 16 de sua Regra Não-Bulada trata dos que quiserem “ir para entre os sarracenos e outros infiéis.” Francisco dá a seguinte instrução: “Os irmãos que partirem [em viagem missionária] poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis: O primeiro modo consiste em abster-se de rixas e disputas… e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor.” (RegNB 16.6-8)
Não há dúvidas de que São Franciso pregava, de que ele acreditava na necessidade de conversão das pessoas e de que usava palavras para comunicar o Evangelho. De fato, São Francisco gostava tanto de pregar, que ele passou a pregar até mesmo para os pássaros e animais (sim, com palavras!) de acordo com algumas das lendas a seu respeito, surgidas após sua morte (a mais famosa delas é o Fioretti escrito no século 14).
Assim sendo, creio que o sentido da frase não é que não devemos usar palavras. É que sempre que necessário, devemos usar palavras. E palavras são necessárias quando se trata de explicar a razão de nosso amor, fé e esperança.
É simplesmente impossível conhecer Jesus sem a pregação. Como argumentou o apóstolo Paulo: “Como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?”
Sem a pregação as pessoas podem até ter uma idéia de que servimos a Deus, mas ficam sem saber quem/como Ele é. Seria esse Deus a natureza ao nosso redor? Seria uma energia cósmica? Uma força impessoal?
A frase deveria ser vista mais como uma advertência contra a hipocrisia daqueles que pregam, mas não vivem o que pregam, do que uma instrução para que se pare de pregar e ensinar o Evangelho de maneira clara e verbal.
Para o seguidor de Jesus, pregar e ensinar não são opcionais. São uma ordem. Jesus disse: “Vão e preguem o evangelho a todas as pessoas” e “vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os… ensinando-os a obedecer tudo o eu lhes ordenei.”
Se há algo claro nas Escrituras é que obras não salvam. Isso foi denunciado pelos profetas no VT, demonstrado por Jesus e ensinado pelos apóstolos no NT. Boas obras podem ser praticadas em abundância, mas elas não são suficientes para salvação. Qualquer crente fiel ao espírito das Escrituras sabe que não faz obras para ser salvo, mas faz porque foi salvo, faz porque ama Aquele que nos amou primeiro e nos ensinou o amor pelo próximo.
Boas obras feitas em nome de Jesus demonstram amor. Mas as pessoas só saberão que é o amor de Deus que nos constrange se nos dispusermos a falar isso a elas, respondendo a todos os que nos perguntarem a razão de nossa esperança. Caso contrário, elas podem até pensar que foi Kardec, Buda ou Maomé quem nos inspirou a fazer tais obras.
Ao mesmo tempo, creio que devemos nos questionar o que há de errado quando, ao viver nossas vidas em devoção profunda por Deus e demonstração de amor pelo próximo com a prática de boas obras, ninguém nunca nos pergunta a razão de nossa esperança, fé e amor.
Viva o Evangelho o tempo todo. Quando lhe perguntarem a razão, use palavras.
-
-
- August 2010
- July 2010
- June 2010
- May 2010
- April 2010
- March 2010
- February 2010
- January 2010
- December 2009
- November 2009
- October 2009
- September 2009
- August 2009
- July 2009
- June 2009
- May 2009
- April 2009
- March 2009
- February 2009
- January 2009
- December 2008
- November 2008
- October 2008
- September 2008
- August 2008
- July 2008
- June 2008
- April 2008
- March 2008
- February 2008
- January 2008
-
Categories
-
recent posts
-
Recent Comments
- 10 coisas que Deus odeia e você não sabia! | PavaBlog on Deus odeia slogans
- Fabian Lima on Macacos no Zoológico
- Institutas « Lux Lucet in Tenebris on Porque eu amo a Igreja
- Ainda sobre IGREJA I! « on Unir-se à igreja (com “i” minúsculo mesmo) de coração e alma
- Tweets that mention Blog do revBaggio » Blog Archive » C.S. Lewis sobre o sexo -- Topsy.com on C.S. Lewis sobre o sexo
LibraryThing
Tags
A Cabana amor arte Bíblia Bonhoeffer Bono Caio Fábio comunidade Cristianismo Deus disciplina discipulado Emergente espiritualidade fé George Verwer Graça Igreja Jesus justiça Keith Green liberdade livro Música ministério missão missões Missional obediência OM oração P242 Passion pastor Petra Projeto 242 relacionamentos revolução Rob Bell sexo tatuagem Teologia U2 verdade vidaArtistas que você precisa conhecer
Blogs em Português
- Bicho de Rondonia
- Blogosfera Cristã
- Claudio Tiberius
- Daniel Leite Guanaes
- Gustavo (K-fé)
- Hudson Parente
- Israel Belo de Azevedo
- J.
- Lelo
- Luis Fernando
- Nitrogenio
- O Tempora, O Mores!
- Paulo Brabo
- Paulo Costa – Portugal
- PavaBlog
- Praxis Cristã
- Projeto Toque
- Rabiscando as paredes do Sótão
- Thiago Bomfim
- Thiago Mendanha
- Vinnicius Almeida
- Volney Faustini
English Blogroll
Sites
-
Spam Blocked



