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A Bíblia e o casamento do mesmo sexo

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Seis reivindicações comuns, mas equivocadas
por Darrel L. Bock

Tenho ouvido muito na esfera pública sobre progressão (ver nota 1). Nessas conversas, a Palavra de Deus é usada para argumentar que a igreja precisa mudar a sua opinião sobre o casamento homossexual, embora a Bíblia parece ser uniformemente contrária a isso. Tal ideia não vem só de colunistas de jornais, como Steve Sopro no Dallas Morning News, mas também de comentaristas evangélicos que afirmam que a Bíblia os leva nessa direção. Compreendo este desejo de amar bem, tirado do grande mandamento (Mateus 22:39), e também vejo que fazer tais perguntas pode não ser um desejo de se rebelar, traçar um novo caminho ou estar em conformidade com a cultura, mas tão somente como expressão de sinceridade.

Perguntas sinceras merecem respostas sinceras. Esse artigo é projetado para envolver aqueles que dizem que o impulso real da Bíblia é adentrar com alegria em nosso admirável mundo novo com os braços e corações abertos. Discutirei várias reivindicações que argumentam que a Bíblia ou não aborda claramente a nossa situação contemporânea específica, ou que ela é aberta e inconsistente o bastante para permitir um espaço a uma categoria anteriormente rejeitada.

Reivindicação 1: Jesus não falou sobre o casamento do mesmo sexo, então ele é pelo menos neutro, se não for aberto a ele. O que Jesus não condena, não devemos condenar.

Este é um argumento do silêncio, mas o silêncio não acontece em um vácuo. Jesus trata sobre o casamento e o define em Mateus 19:4-6 e Marcos 10:6-9 utilizando tanto Gênesis 1:26-27 como Gênesis 2:24 para analisá-lo. Aqui Jesus define e confirma o casamento como entre um homem e uma mulher, um reflexo do fato de que Deus nos fez macho e fêmea para juntos cuidarmos da criação. Com esta definição, o casamento homossexual é excluído. Se Jesus desejava estender o direito de casamento para além desta definição, aqui estava a sua oportunidade de fazê-lo. Mas ele não fez isso.

Jesus nunca discutiu o casamento do mesmo sexo, porque a maneira como ele definiu o casamento já o excluía. Ele não foi tão silencioso sobre o tema como alguns afirmam.

[J.R. Daniel Kirk em Jesus Have I Loved, But Paul?, Baker Academic, 2011, diz que o “silêncio" de Jesus sobre o assunto deve-se principalmente ao fato de que Jesus ministrou primariamente num contexto judaico onde, para o judeu, a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo inquestionavelmente era vista como pecado,  "uma perversão da ordem criada por Deus". De fato, se Jesus quisesse ter mudado tal visão, a melhor maneira não teria sido o silêncio. Kirk comenta: "Muito do que sabemos sobre Jesus e seus ensinamentos, sabemos porque suas ações e palavras o colocaram em conflito com seus contemporâneos. Ele comeu com as pessoas erradas, permitiu que pessoas erradas o tocassem, estendeu e/ou quebrou regras sobre o sábado por curar e permitir que seus discípulos colhessem espigas no sábado. Quando Jesus discordou das interpretações tradicionais da lei, ele provocativamente fez coisas que indicavam isso e diretamente ensinava de modo a chamar atenção para isso - e são tais desvios que movem o conflito que encontramos nos evangelhos e que ultimamente levaram Jesus a ser pendurado numa cruz. O silêncio de Jesus sobre o tema da homossexualidade é poderoso, porque se ele tivesse se oposto à lei judaica nesse assunto, nós certamente saberíamos disso.”
De uma maneira mais ampla, Kevin DeYoung em What the Bible Really Teaches About Homosexuality, CrossWay, 2015, aponta também para o fato de que a Bíblia fala relativamente muito pouco sobre a homossexualidade porque era um pecado sobre o qual "praticamente não havia controversas entre os judeus. Não há evidências de que nem o judaísmo antigo nem o cristianismo primitivo toleravam qualquer expressão de atividade homossexual".]

Reivindicação 2: O Velho Testamento (VT) permite todos os tipos de casamentos “proibidos”, incluindo a poligamia e o que hoje seria qualificado como incesto. Se aqueles eram permitidos, certamente relações monógamas do mesmo sexo devem ser permitidas.

Aqui é onde uma olhada na progressão [das Escrituras] nos ajuda. Se observarmos o que a Bíblia realmente ensina, vemos que (1) esses casamentos passados são consistentemente retratados como resultando em caos social e não são tanto uma prescrição, mas sim uma descrição (ver nota 2); e que (2) a progressão das Escrituras no Novo Testamento (NT) reduz o âmbito das opções para o padrão de uma união monogâmica entre um homem e uma mulher em que o leito matrimonial deve ser honrado, mas a infidelidade sexual (porneia) – em todas as suas manifestações – deve ser evitada (Hebreus 13:4). Além disso, os presbíteros devem servir de exemplo para mostrar à comunidade o que significa ser o marido de uma só mulher (1 Timóteo. 3:2, 12).

Então, abrir uma nova categoria para o casamento na verdade vai contra a progressão das Escrituras sobre o casamento.

Reivindicação 3: A proibição do reconhecimento do casamento homossexual é como a cegueira passada da Igreja sobre a escravidão, os direitos das mulheres e um universo geocêntrico – onde o que era “claramente” ensinado nas Escrituras é agora visto como equivocado.

É justo salientar que alguns pontos de vista que costumavam ser considerados claros nas Escrituras, na verdade acabaram não sendo tão claros e até mesmo errados. Humildade hermenêutica para com todos não é uma coisa ruim. Mas é uma faca de dois gumes. Enquanto que com a criação/escravidão/mulheres é possível apontar passagens onde havia contra-tensões com aquelas que pareciam claras (por exemplo, na forma como Paulo pede que Filemon trate a Onésimo, ou como Maria sentou-se como discípula de Jesus, ou como é dito que o Espírito habita nas mulheres), nenhum texto no VT ou NT é sequer neutro sobre as questões do mesmo sexo. Cada texto que menciona o tema, o faz de forma negativa.

Então, aqui também a progressão nos ajuda, pois com passagens que dizem respeito a relacionamentos do mesmo sexo não existe progressão. A leitura é consistente. Isso deve contar para alguma coisa.

[Segundo J.R. Daniel Kirk em Jesus Have I Loved, But Paul?, Baker Academic, 2011: "Outra diferença importante entre a homossexualidade e questões como a escravidão e as mulheres em posição de liderança no Novo Testamento é que a descrição da homossexualidade no NT se levanta como um voz que clama em oposição a cultura circundante. Nesses outros casos, ao contrário, as Escrituras parecem refletir os costumes culturais mais amplos, talvez irrefletidamente. A aceitação mais ampla da homossexualidade em nosso próprio tempo, por si só, não nos coloca em uma posição fundamentalmente diferente daquela do mundo mediterrâneo antigo no qual as restrições bíblicas contra a homossexualidade foram escritas. As igrejas que estão mudando para abraçar a homossexualidade frequentemente parecem indispostas a articular qualquer ética sexual que se oponha à cultura prevalecente. Mas a figura neo-testamentária de unidade e fidelidade heterossexual por toda a vida sempre se destacou como um contramovimento aos ventos dominantes de sua época.”]

Reivindicação 4: Não seguimos todos os tipos de leis do Velho Testamento hoje (como as leis sobre ter relações sexuais enquanto uma mulher está menstruada, ou comer certos tipos de alimentos), então por que devemos aceitar o que o VT diz sobre relacionamentos do mesmo sexo?

Já definimos a trajetória para esta resposta quando observamos que todos os textos bíblicos sobre a homossexualidade, tanto no VT como no NT, são negativos. No entanto, uma outra observação precisa ser feita. Algumas leis do VT lidam com a questão da impureza [cerimonial] ligada ao templo e culto, que não são categorias de pecado, mas de adequação ligadas a adoração. Estas não são leis morais, mas restrições que serviam para distinguir Israel das nações politeístas vizinhas que eram moralmente frouxas e sacrificavam certos tipos de animais (e, em alguns casos, crianças) como parte de sua adoração. Esta alegação não mostra sensibilidade para tais distinções bíblicas. Em alguns casos, acaba comparando maçãs com laranjas, uma vez que questões de impureza [cerimonial] foram deixadas de lado no NT, quando os gentios vieram para o rebanho (Atos 10:9-29; Efésios 2:11-22; Colossenses 2:13-15).

Não lemos a Bíblia como um texto plano. Ela progride, ao longo de determinadas trajetórias, de modo que com a chegada da promessa, certas partes da lei são deixadas de lado (Galátas 3; Hebreus 8-10).

[O teólogo Richard B. Hays em The Moral Vision of the New Testament (1996), diz: “O Velho Testamento contém muitas proibições e mandamentos que, desde o primeiro século, geralmente têm sido deixados de lado ou considerados como obsoletos pela igreja – notavelmente, regras concernentes à circuncisão e práticas alimentares… No entanto, não há uma distinção sistemática entre lei ritual e lei moral. A mesma sessão do código de santidade também contém, por exemplo, a proibição do incesto (Levítico 18.6-18). Essa é uma lei de purificação ou uma lei moral? Levítico não faz distinção. Em cada caso, cabe à igreja a tarefa de discernir se as normas tradicionais de Israel permanecem para a nova comunidade dos discípulos de Jesus.” Em Atos 15, no primeiro concílio da Igreja, algumas dessas questões foram debatidas pelos apóstolos. A conclusão que chegaram foi: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Abster-se de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual [porneia]. Vocês farão bem em evitar essas coisas. Que tudo lhes vá bem.” (Atos 15:28, 29)].

Reivindicação 5: O casamento do mesmo sexo não prejudica ninguém, por isso é moralmente aceitável e as pessoas devem ter o direito de escolher o que fazer.

Este não é um argumento bíblico, mas sim lógico [filosófico]. Muitas vezes a resposta da Igreja tem sido de que o desenho humano revela a homossexualidade inapropriada por causa da gravidez. Um casal do mesmo sexo não pode gerar um filho. Mas o que isso diz sobre solteiros ou casais que não desejam ou não podem ter filhos? Essa refutação é justa. O casamento não é apenas para gerar filhos, nem é o sexo apenas para a procriação. O livro de Cantares de Salomão eleva o amor no casamento como tendo seu próprio mérito, assim como muitos salmos e provérbios.

Mas aqui está um outro lugar onde distinções na questão de gênero vêm à tona. Em Gênesis 1 e 2, a criação de Deus do masculino e feminino como um par complementário – ambos feitos à imagem de Deus – é visto como parte do plano de Deus. Essa imagem envolve tanto masculino como feminino. O casamento descreve sua cooperação mútua em uma diversidade projetada para cuidar da criação de Deus. Isto é visto como o pináculo da criação, uma vez que é o contexto em que Deus nos chama para gerirmos bem o mundo [criado]. Parte desse projeto criacional é o florescer de futuras pessoas, onde o respeito para cada sexo é decorrente e apreciado.

Faço agora sinceramente uma pergunta difícil: como o respeito por ambos os sexos é aprimorado, afirmado e modelados no casamento entre o mesmo sexo? Ele sequer tem o potencial para demonstrá-lo. Em um sentido um tanto irônico, dado o nosso desejo de ser politicamente corretos, o casamento homossexual é discriminatório, porque apenas um dos gêneros conta no relacionamento.

No entanto, as pessoas têm o direito de escolher com quem vivem e são moralmente responsáveis perante Deus por suas escolhas. No final, ele nos julgará – heterossexuais ou homossexuais – por como temos vivido nestas áreas, independentemente de nossas leis nacionais. O apelo da igreja [contra o reconhecimento do casamento do mesmo sexo] não foi motivado pelo ódio ou medo, mas à partir de uma crença genuína de que a forma como escolhemos viver na mais básica das relações afeta nossa sociedade para o bem ou para o mal. Assim, devemos escolher com sabedoria, tanto individualmente quanto como povo. Para aqueles que confiam na Bíblia, isso significa andar na linha com o design e os padrões que Deus diz que são melhores para o amor e o florescimento [humano].

[Richard B. Hays em The Moral Vision of the New Testament (1996), comentando sobre a passagem de Romanos 1, diz que Paulo 'destaca o relacionamento homossexual porque ele o considera uma imagem particularmente gráfica do modo como a humanidade caída distorce a ordem criada por Deus. O Criador fez homem e mulher, um para o outro, para que juntos sejam frutíferos e se multipliquem. Quando seres humanos ‘trocam' esses papéis da criação pelo relacionamento homossexual, eles incorporam a condição espiritual daqueles que ‘trocaram a verdade de Deus pela mentira’.” Hays também comenta sobre a posição cada vez mais mencionada por parte daqueles que defendem a prática homossexual como sendo aceitável perante Deus de que, nessa passagem, ‘Paulo condena somente atos homossexuais cometidos de maneira promíscua por pessoas heterossexuais - porque elas ‘trocaram o coito natural pelo não natural’. O julgamento negativo de Paulo, conforme tal argumento, não se aplica a pessoas com uma orientação homossexual ‘natural’.”Segundo Hays, "Essa interpretação, no entanto, é insustentável. A ‘troca' não é uma questão de decisão individual; pelo contrário, ela é a caracterização feita por Paulo da condição caída do mundo pagão. De qualquer modo, nem Paulo nem ninguém mais na antiguidade tinham um conceito de ‘orientação sexual’. Introduzir esse conceito na passagem (sugerindo que Paulo desaprova somente aqueles que agem de modo contrário à sua orientação sexual individual) é cair num anacronismo. O fato é que Paulo trata toda atividade homossexual como evidência prima facie da confusão trágica da humanidade e sua alienação do Deus Criador."]

Reivindicação 6: O mundo antigo não entendia o amor genuíno entre pessoas do mesmo sexo, por isso esta é uma nova categoria a se considerar.

Aparentemente, nem Jesus nem Paulo nem mesmo Deus – o Pai que inspirou as Escrituras – reconheceram esta categoria potencial. Mas essa afirmação ignora o quão generalizadas as relações do mesmo sexo eram no mundo antigo. Nem todas elas eram abusivas ou exercícios de poder social cru. Este é um exemplo clássico de “esnobismo cronológico”, que C.S. Lewis descreveu como “a aceitação acrítica do ambiente intelectual comum à nossa época e a suposição de que tudo aquilo que ficou desatualizado é por isso mesmo desprezível” (Surpreendido pela Alegria, Mundo Cristão, p. 213), e sobre o qual seu amigo Owen Barfield explicou como a crença de que, intelectualmente, a humanidade “definhou durante incontáveis gerações nos erros mais infantis em todos os tipos de assuntos cruciais, até que foi resgatada por algumas máximas científicas simples do século passado” (History In English Words, p. 154).

Tal afirmação subestima drasticamente as opções apresentadas pela vida antiga, e ignora o fato de que a cultura antiga de modo bastante uniforme rejeitou a idéia de casamento do mesmo sexo. Este ponto é importante para compreender a inclusão de Paulo das tais relações na categoria de porneia (Mateus 15:19). A infidelidade em vista não é apenas contra a outra pessoa, mas contra o desígnio divino de complementariedade do homem e da mulher [criados] à imagem de Deus.

Algo sagrado e profundo

Prestar atenção séria à progressão das Escrituras não abre a porta para afirmar o casamento do mesmo sexo – ainda que o mesmo pretenda ser monógamo e amável. Na verdade, faz o contrário.

A revelação divina nos dá todos os indícios de que há algo de sagrado no fato da imagem de Deus ser masculina e feminina, e algo profundo sobre o casamento entre um homem e uma mulher (Efésios 5:32) – algo que torna o casamento único dentre todas as relações humanas.

***

Darrel L. Bock é professor sênior de pesquisa do Novo Testamento e diretor executivo para o engajamento cultural no Seminário Teológico de Dallas. Ele é autor e editor mais de 30 livros.

Notas:
1. No original, Bock usa o termo trajectories, que no contexto da hermenêutica, significa qual a direção que as Escrituras apontam, não apenas dentro de suas páginas, mas além delas.
2. Robert Alter, professor de hebraico e literatura comparativa da Universidade da California apresenta isso em seu livro A Arte da Narrativa Bíblica, Companhia das Letras, 2007.

Publicado originalmente no site TGC-The Gospel Coalition em 27/07/2015.
Tradução, notas e adendos em colchetes [ ] por Sandro Baggio.

Teologia da Missão Integral em Debate

PeopleWalking

Nesta postagem, farei uma compilação das declarações, cartas, textos e reações ao recente debate sobre a Teologia da Missão Integral. O debate pode não ter acontecido ao vivo, mas acabou acontecendo de algum modo, no Face Book e outros canais. Meu interesse ao reunir as informações é que estudiosos (atuais e futuros) do tema em questão, encontrem facilmente essas informações e continuem com a conversação (ou debate) saudável que promova crescimento.

Este não é um tema estranho para mim. Em fevereiro de 2008, fiz neste blog, uma postagem intitulada De Ganhar Almas Para Missão Integral, onde narro de modo simples sobre como mudei minha visão missionária do conceito de “ganhar almas” para uma missão integral. CREIO e DEFENDO uma missão integral: todo Evangelho ao homem todo em todo mundo. Cumprir com essa missão tem sido meu anseio e esforço comunitário durante todos esses anos junto com a igreja onde sirvo. Todavia, quando se fala de Teologia da Missão Integral, é importante lembrar que trata-se de uma teologia ainda em sua primeira infância, portanto parece-me ingênuo acatar totalmente ou rejeitar prontamente uma teologia que carece ainda de muito estudo, discussão, questionamentos, discordâncias, avaliação. etc., para que possa amadurecer.

As discussões na rede começaram mesmo antes do programa Academia em Debate, dirigido pelo Dr. Augustus Nicodemus Lopes, ter sido disponibilizado ao público. Aparentemente, já havia no ar uma certa tensão em torno do tema da teologia da Missão Integral. Logo que o programa, com o termo “debate” no título foi ao ar, começaram as diversas reações. Seria praticamente impossível reproduzir tudo que foi postado e comentado entre os dias 20 e 23 de Maio no FB e Twitter, mas confiando que esse debate é enriquecedor para o amadurecimento dessa forma de pensar teologicamente, vale a pena continuar refletindo sobre os principais textos que surgiram nessa discussão.

Primeiro, segue abaixo a edição 37 do programa Academia em Debate que, como diz o texto no site, trata-se de um “programa de entrevistas da Chancelaria da Universidade, que aborda temas acadêmicos relacionando-os à teologia reformada de acordo com à confessionalidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie.” Para quem não viu ao programa, sugiro assistir antes de continuar a leitura.

Reagindo ao programa, Jorge Barro, fundador e diretor da FTSA, uma faculdade que há mais de 20 anos divulga e ensina teologia pelo viés da Missão Integral, e atual presidente continental da Fraternidade Teológica, postou o seguinte:

“Gente, parece que está virando moda atacar a Missão Integral no Brasil. Assisti ao vídeo do programa “Academia em Debate”, o número 37, da TV Mackenzie, liderado por Augustus Nicodemus Lopes entrevistando Jonas Moreira Madureira e Filipe Costa Fontes, sobre Teologia de Missão Integral.
Ficou claro que tanto o Jonas como o Filipe pouco conhecem da Teologia Latino Americana e que em vários momentos um olhava para o outro demonstrando suas inseguranças. O Filipe chamou a FTL de “Fraternidades Teológicas Latino Americanas” (no plural). Demonstraram, os 3, que ainda estão no marco da discussão iniciada pelos norte-americanos (especialmente batistas do sul) sobre a prioridade do “pregar” em relação ao “demonstrar” o evangelho. Filipe inclusive cita Marcos 16:15 afirmando a prioridade de “pregar” o evangelho. O Filipe se espantaria se perguntasse ao próprio evangelista Marcos o que ele entende por evangelho e certamente perceberia que tal coisa não existe em Marcos.
Mas nem quero me ater aos detalhes do que eles falaram, pois isso seria infrutífero. Apenas citei esse exemplo acima para que alguém não tenha a tentação de dizer que estou sendo genérico.
O que quero comentar, brevemente, é a atitude (motivação?) de tal programa, o número 37.
Durante a entrevista Nicodemus fez a seguinte pergunta (que a meu ver, foi uma afirmação): “Por que as críticas a teologia de missão integral às vezes são recebidas até com rancor e ressentimento por parte dos evangélicos?”.
As pessoas maduras discutem ideias; as imaturas discutem pessoas. Como teria sido adequado e ético que nessa entrevista tivesse sido convidada alguma pessoa envolvida com o movimento da missão integral. Ao contrário, foram convidados dois professores do Andrew Jamper. Por que? Convide 3 professores contra as propostas de educação de Paulo Freire para “debater” sobre suas ideias. Isso se chama diálogo?
Note nessa foto que posto aqui, da proposta do próprio programa, duas coisas interessantes:
1. O nome do programa: “Academia em Debate”. Debate entre iguais é estéril e não estimula a imaginação e nem oportuniza o outro expor suas posições. Essa é uma das riquezas da Fraternidade Teológica Latino Americana, que estimula a sentar a mesa pessoas que discordam determinados assuntos, mas que concordam que Jesus é o Senhor e que as Escrituras são fonte de vida. Uma vez que a FTL foi mencionada nessa entrevista, aproveito para mostrar quais são suas finalidades:
- Promover a reflexão em torno do Evangelho e seu significado para o ser humano e a sociedade na América Latina. Com esta finalidade estimula o desenvolvimento de um pensamento evangélico atento aos desafios da vida no continente latino-americano. Para tal reflexão se aceita o caráter normativo da Bíblia como a palavra escrita de Deus, ouvindo, sob a direção do Espírito Santo, a mensagem bíblica em relação às ambiguidades da situação concreta.
- Constituir uma plataforma de diálogo entre pensadores que confessam a Jesus Cristo como Salvador e Senhor e que estejam dispostos a refletir à luz da Bíblia, a fim de comunicar o Evangelho em meio às culturas latino-americanas.
- Contribuir para a vida e missão das Igrejas Evangélicas no Brasil e na América Latina, sem pretender falar em nome delas e nem assumir a posição de seu porta-voz no Brasil (www.ftl.org.br).
2. “Comentários estão desabilitados para este vídeo”. Ou seja: falam o que pensam e não dão o direito de serem interpelados – é um NÃO ao diálogo. É isso? Tem certeza Nicodemus que são os teólogos da missão integral que recebem críticas com rancor e ressentimento?
Eu afirmo por mim, como também pela maioria dos irmãos e irmãs que se esforçam para que o evangelho de Jesus Cristo seja pregado e manifestado em palavras e ações, como Jesus (Lucas 14:19 – “Jesus de Nazaré… um profeta, poderoso em palavras e em obras diante de Deus e de todo o povo”) de modo integral, que:
- não sou marxista
- não sou contra a igreja
- prego o evangelho
- amo meu Senhor Jesus
- amo ensinar o povo de Deus para cumprir a missão de Deus no mundo
- não sou teólogo por causa da teologia, mas por causa da missão de Deus
- me esforço para ser encontrado fiel a Palavra de Deus
Fiquei me perguntando várias vezes: “Eles mencionam os teólogos da missão integral. De quem estão falando? Quem são essas pessoas? Quem eles têm em mente? Por que não dão nomes? Por que falam de modo genérico?”
Se vocês Augustus Nicodemus, Jonas Madureira e Filipe Fontes quiserem encontrar alguns destes teólogos/as e aproveitar para dialogar com eles/as, estão convidados para participar do Congresso Internacional de Missão Integral que será realizado pela Faculdade Teológica Sul Americana e Missão SIM, de 8 a 10 de agosto de 2014, aqui na cidade de Londrina (www.missaointegral.com.br).
Bênçãos para vocês três irmãos!
Jorge Barro, frater minor”

O pastor Ariovaldo Ramos também postou em seu perfil no Face Book, uma Carta Aberta respondendo ao Programa da seguinte forma:

Carta aberta ao programa “Academia em Debate”, do Centro Presbiteriano Andrew Jumper, de Pós-graduação, na Tv Mackenzie (digital experimental) apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus Gomes Lopes, na sua edição n° 37.
Raramente me presto a tecer considerações sobre as tentativas de análise à chamada Teologia da Missão Integral, feitas em território nacional, porque, na maioria das vezes, tais intentos são pautados pela ignorância, pela má fé, pela desonestidade intelectual, pela ausência de rigor acadêmico e pelo mero preconceito.
Desta feita, entretanto, por se tratar de interlocutor que merece audição, posto uma carta aberta ao programa “Academia em Debate”, do Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper, apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus, que priva do respeito de todos os seus pares, entre os quais me incluo.
O programa convidou dois pastores e filósofos: Rev. Jonas Madureira e Rev. Filipe Fontes para tecerem comentários à TMI. Apesar de entender que os comentadores foram, possivelmente, traídos pela tempo escasso que lhes foi concedido, por força do limite natural ao veículo da comunicação; gostaria de tecer algumas impressões sobre o conteúdo das exposições.
Celebro a intenção do programa, porém, os comentários não manifestaram análise técnica, uma vez que as afirmações não foram sustentadas por referencial teórico, não deixando aos espectadores outra opção, senão, a de crerem na veracidade das falas, pela suposição de estarem diante de autoridades competentes, embora não tenha sido apresentada nenhuma credencial dos mesmos como estudiosos do tema em questão, o que não tolda a qualidade dos mesmos nas áreas em que tenham se especializado.
As colocações dos convidados não elucidaram o tema, suas críticas, de fato, por falta de rigor, mais pareceram meros ataques, e soaram como opiniões pessoais, acabando por correr o risco de ter prestado um desserviço ao debate teológico, sempre tão necessário, principalmente, neste momento da Igreja brasileira, tão vilipendiada por causa de maus exemplos, principalmente, midiáticos, e acossada por tantos ventos doutrinários.
À guisa de contribuição, como simpático ao conteúdo veiculado pelos teólogos proponentes dessa reflexão teológica, a TMI, dos quais destaco, por antigüidade, Renê Padilla, Pedro Arana e Samuel Escobar, faço as seguintes e próprias menções sobre as ênfases da TMI:
1- A TMI nasce das reflexões, principalmente, dos teólogos citados, nas décadas de 50 e de 60, e que foram apresentadas nos CLADEs, Congressos Latino-Americanos de Evangelização, realizados em Bogotá – Colômbia (1969), Huampani – Peru (1979), Quito – Equador (1992 e 2000), Tais reflexões foram iniciadas e propostas antes do que veio a ser conhecido como Teologia da Libertação (Gustavo Gutierrez, 1971), também latino-americana.
2- O que há de coincidente entre ambas teológicas latino-americanas é o fato de serem teologias da Práxis, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada.
3- A ênfase da reflexão da TMI, sobre a prática da Igreja, voltada para o cotidiano, parte da proposição do Prof Padilla, de que a evangelização não desconsidera o contexto do evangelizando.
4- A proposição de Padilla se sustenta no declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mt 24.14; Lc 4.43), portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial (Dn 2.44), manifesta pela Igreja, porém, só implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí há pecado pessoal e pecado estrutural. E para ambos pecadores a Igreja propõe arrependimento.
5- Só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal, porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus (Mt 5.16).
6- O chamado Pacto de Lausanne é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça; graças ao trabalho de John Stott, reconhecido teólogo Anglicano, já falecido, que promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte, com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana, denominada de TMI, e com as contribuições africanas e asiáticas, cujo resultado foi sintetizado na frase: “O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”.
Onde “o Evangelho todo” é compreendido como o poder de Deus para a Salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade, para dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça. Como se pode verificar na irrupção da chamada modernidade, a era dos direitos humanos, iniludível fruto do cristianismo.
Onde “o homem todo” é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, artístico – que a tudo afeta e por tudo é afetado – portanto, alcançado pelas boas notícias do Reino, quando os sinais da presença do Reino se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.
Onde a proposição “todos os homens” compreende a totalidade das nações humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar, como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mt 25.31-46).
7- A TMI é Ortdoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da “Missio Dei”, uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Deus Trino. Talvez, nessa compreensão, seja melhor intitular a reflexão de “A Teologia Com Missão Integral”.
8- A TCMI faz exegese histórico-gramatical; e sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplica-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao contemporâneo; sua abordagem fática serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que, o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação.
9- O referencial teórico da TCMI é a doutrina da presença (Lc 17.21) e da iminência do
Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o Governo do Ungido pela implantação da sua Justificação e Justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação, e sinalizadora da presença e do princípio do Governo do Ungido, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça.
10- A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas (Mt 11.5).
Sem mais, no anseio de colaborar com o debate teológico, que desejo, um dia, se instaure,
Ariovaldo Ramos

 Seguindo as duas reações críticas ao Programa, cada um dos participantes também postou em seus perfis no FB, respostas e esclarecimentos. Primeiro, o Dr. Augustos Nicodemos Lopes, dirigiu sua resposta à Carta Aberta do Ariovaldo Ramos:

Caro Pr. Ariovaldo Ramos,
Muito obrigado por sua resposta irênica, tranquila e respeitosa. Saiba que o respeito e a consideração são mútuos. Permita-me uma ou duas palavras à guisa de interação com sua “Carta Aberta”.
Primeira, com relação ao programa “Academia em Debate”, seu nome e seu formato. Já por mais de cinco anos apresento este programa, que durante este tempo tem tratado de diversos assuntos que considerei relevantes para a academia secular e cristã, como você poderá facilmente verificar por uma pesquisa no YouTube.
O nome “Academia em Debate” significa simplesmente que vamos conversar sobre temas que estão sendo debatidos na academia. O formato do programa sempre foi o de apresentar pontos de vista mediante o sistema de perguntas e respostas a pessoas convidadas, e não promover um programa com dois debatedores de posições opostas. O debate que queremos gerar é este que está acontecendo agora. Você publicou uma resposta pensada, respeitosa e estudada, o que dificilmente aconteceria num confronto de 30 minutos. Agora, os que estão clamando por “debate,” podem ler sua resposta e tirar suas próprias conclusões.
É assim que o debate acadêmico se processa, e não pela “briga de galos” em público, que acaba gerando mais calor do que luz e serve para satisfazer ao desejo de muitos que estão mais interessados na competição dos intelectos do que na consecução da verdade.
Dito isto, passo ao conteúdo de sua “Carta Aberta”. Qualquer pessoa que assistiu ao programa e leu sua carta com atenção verificará a concordância em muitos pontos: a sustentação das Escrituras como a Palavra de Deus, o desejo de obedecer ao Evangelho, a consciência de que cuidar dos pobres e promover a justiça faz parte do Evangelho, entre outros. Os pontos de controvérsia são relacionados ao referencial teórico da TMI e sua relação com a Teologia da Libertação – por sinal, você não tocou na “Carta Aberta” na questão do uso do marxismo, sim ou não, pela TMI, que é uma das críticas mais feitas ao movimento. Eu sei que numa “Carta Aberta” que visa responder rapidamente a uma situação, não houve tempo para dar uma resposta a estas indagações, especialmente àquela da relação da TMI com o marxismo. Quem sabe você escreverá sobre isto mais adiante.
O debate continua, de forma educada e acadêmica. Veja, por exemplo, o que escreveu Filipe Fontes e o Jonas Madureira em atenção à sua respeitosa “Carta Aberta”:
Filipe Fontes: http://goo.gl/D6mOrd
Jonas Madureira: http://goo.gl/cBntGs
Numa nota final, para mim “o Evangelho todo para o homem todo” encontra uma de suas melhores expressões na cosmovisão reformada, refletida nas conhecidas palavras de Abraham Kuyper, primeiro ministro da Holanda e pastor reformado, “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’” Os seguidores desta linha abriram universidades, hospitais, escolas, abrigos e orfanatos, e se engajaram nas artes, ciência e academia – o “homem todo”, muito antes do surgimento da TMI.
Termino. Mais uma vez, obrigado pela resposta tranquila e que atendeu ao objetivo do programa, que é gerar debate acadêmico de bom nível.
Desejo-lhe um dia abençoado.
Em Cristo,
Augustus Nicodemus

Jonas Madureira também postou no FB a seguinte nota de esclarecimento, dirigida a seus críticos, muitos dos quais o acusaram levianamente, de não ter conhecimento do assunto e, portanto, ser uma pessoa desqualificada a tecer quaisquer comentários ou fazer questionamentos sobre a Teologia da Missão Integral. A nota do Jonas deixa claro que, longe de ser desqualificado, ele sabe muito bem do que está falando:

NOTA DE ESCLARECIMENTO SOBRE A MINHA PARTICIPAÇÃO NO PROGRAMA “ACADEMIA EM DEBATE”, EDIÇÃO n° 371.
1. Primeiro esclarecimento. Não foi da noite para o dia que eu comecei a ler sobre a TMI e, por conseguinte, a falar sobre as minhas impressões da TMI. Para efeitos formais, em 2010, tivemos a oportunidade de receber em nossa 7a. edição do Congresso Vida Nova de Teologia, em Águas de Lindóia, a presença do Dr. C. René Padilla, como carro-chefe da conferência (http://www.vidanova.com.br/congressoanterioressobre.asp?codigo=7). Naquela ocasião, tive a incrível oportunidade de apresentar, pela primeira vez, as minhas impressões da TMI para o próprio Dr. Padilla. A propósito, elas foram ditas e respectivamente ouvidas tanto por Dr. Padilla, que, como já foi dito, era um dos nossos palestrantes, como por Ariovaldo Ramos, que estava participando do congresso. O que é interessante é que tudo o que eu disse no programa “Academia em Debate” foi dito na palestra de 2010 (É claro que, na conferência de 2010, tive mais tempo para expor os meus argumentos com mais clareza!). Após a palestra, o Dr. Padilla me procurou e fez as suas ponderações e reações. Inclusive, disse para mim que o livro que eu usei para fundamentar a minha palestra (“Missão Integral: ensaios sobre o Reino e a igreja”) já não mais representava a sua atual perspectiva sobre a missão integral. Lembro-me, também, de ter recebido a crítica do Ariovaldo, que me disse: “Jonas, concordei com a primeira parte da sua palestra, mas a segunda parte revelou uma falta de leitura da bibliografia elementar da TMI! Também não concordei com a justaposição que você estabeleceu entre a TdL e a TMI”. Recordo-me bem que recebi essas críticas numa boa. Falamos de nos encontrar em algum dia para conversarmos sobre o assunto, mas esse dia ainda não chegou. Portanto, o que eu disse no programa “Academia em Debate” não é nenhuma novidade, antes é o que venho dizendo ao longo de cinco anos! O cômico de tudo isso é que a primeira vez que tornei pública as minhas impressões da TMI foi curiosamente na frente do Dr. Padilla e do Ariovaldo Ramos.
2. Segundo esclarecimento. Dr. Augustus Nicodemus, a quem muito admiro, fez-me um convite para falar sobre as minhas impressões sobre a TMI no programa “Academia em Debate”, um programa que ele vem fazendo ao longo de seis anos. O programa já tem um formato reconhecido tanto por aqueles que gostam como por aqueles que não gostam. O que fiz, e não me arrependo de forma alguma, foi aceitar ao convite que vinha, sobretudo, de um amigo. Até hoje nunca recebi um convite do Ariovaldo Ramos ou de qualquer outro teólogo ou instituição vinculada aos ideais da TMI para uma conversa ou até mesmo para um debate. Quero dizer, publicamente, que não me nego a aceitar ao convite para conversar ou debater sobre a TMI com quem quer que seja. Estou completamente aberto ao diálogo e ao debate, plenamente aberto para corrigir e rever, se preciso, as minhas possíveis imprecisões, contanto que seja em um ambiente irênico, de respeito, de cordialidade, de educação, de elegância, de honestidade intelectual e de tolerância. Sinceramente, não vejo problema nenhum em um programa midiático convidar apenas as pessoas que a produção do programa deseja trazer! Afinal, em nosso país, pelo menos por enquanto, ainda vivenciamos a prática da liberdade de expressão!
3. Terceiro esclarecimento. Apenas lamento a reação beligerante e intolerante de alguns defensores da TMI, inclusive alguns que me conhecem. É incrível, mas a beligerância, a rudeza e a falta de educação que mais tenho criticado em alguns reformados e evangélicos conservadores, eu pude ver também do lado dos evangélicos progressistas e defensores da TMI. Realmente, ainda não aprendemos a conversar… Foi enorme a quantidade de mensagens virulentas, indelicadas, grosseiras, que questionaram a minha dignidade como homem, marido, pastor e professor. É muito triste viver em um contexto que se diz cristão, mas cujo vínculo do amor é só um mero discurso que se desfaz como uma fumaça ao vento. Nessas horas, louvo a Deus pela bênção que ele me deu de ter vivido, pensado e estudado nos departamentos de filosofia da PUC-SP e da USP. Com pensadores ateus, agnósticos e católicos consegui travar inúmeros debates sem esse coitadismo, personalismo e pessoalismo tão presente entre os “intelectuais evangélicos”. Assim, me recuso veementemente a responder interações que sejam baixas e pequenas. Em contrapartida, terei um enorme prazer em interagir com as críticas que chegarem seguindo o padrão da decência. Em nenhum momento a minha intenção foi ofender ou ser desrespeitoso com os integrantes da TMI. Apenas critiquei ideias, pois acredito que ideias influenciam, sim, a Práxis. Se alguém se sentiu ofendido, peço perdão. De forma alguma desejei tirar a paz de seu coração.
“acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (Efésios 3.14)

O Filipe Costa também postou em seu FB, algumas considerações que, segundo ele, gostaria de ter feito durante a entrevista:

Ultimas palavras, por enquanto…
Tenho optado por não entrar em debates pela internet. Além da falta de tempo que assola a todos nós, me sinto incomodado pelo fato de que debates teológico-acadêmicos se transformam muito rapidamente em troca de acusações neste veículo. Lamentavelmente, já tenho visto isto acontecer neste debate também, embora não generalizadamente. A carta aberta escrita pelo Pr. Ariovaldo Ramos – a quem agradeço pela maneira tão gentil e fraterna com que escreveu – apresenta, por exemplo, um tom bem diferente.
Este post não é, definitivamente, uma mudança de postura. Não pretendo desenvolver um debate virtual. Não porque não seria agradável participar de uma conversa gentil, mas porque o tempo e esforço exigido, e as brigas que provoco sem querer me cansam em demasia para as atividades ministeriais. Se eu continuar entendendo ser relevante, publicarei sobre o assunto no futuro em algum lugar – é assim que concebo o debate acadêmico. Este post tem apenas o objetivo de fazer considerações que gostaria de ter feito no programa, mas que não pude fazer pela exiguidade de tempo e pelas limitações do veículo. Possivelmente serão minhas últimas no momento.
1) Há um esforço por relacionar a ideia de “Missão Integral” com uma teologia ortodoxa. Mas, na prática teólogos de várias tendências diferentes se apropriaram e fazem uso dela no Brasil atualmente; desde teólogos que defendem a inspiração, inerrância e infalibilidade da Bíblia, até aqueles que duvidam da possibilidade de qualquer conhecimento objetivo de Deus, reputando-o como autobiográfico, o que é próprio do liberalismo clássico. Por isso, creio que definir MI é hoje uma tarefa bastante difícil.
2) Esta apropriação por parte de tendências teológicas tão diferentes somente é possível pela falta de comprometimento radical da MI com uma tradição teológica de pensamento. Guilherme de Carvalho, no artigo intitulado A missão integral na encruzilhada: Reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne, na obra Fé cristã e cultura contemporânea, publicada em 2009 pela Ultimato, já denunciou esse problema. Ao que parece, a MI parece ser uma postura prática que tem recebido conteúdo teológico a posteriori. Ou seja, ao invés de caminhar da teologia para a prática, promove um movimento inverso.
3) Embora carregue o adjetivo integral, a MI tem se mostrado pragmaticamente reducionista. Até mesmo alguns de seus proponentes no Brasil reconhecem isso, ao mesmo tempo em que procuram defender que esse reducionismo seria uma espécie de desvio. Para mim ele parece ser consequência natural de seu método dialético (apontado por Ricardo Gondim em sua tese de doutoramento publicada em 2010 pela Fonte editorial, com o título: Missão Integral: Em busca de uma identidade evangélica), sobretudo da escolha do materialismo histórico como parceira de diálogo.
4) Se a MI nasce marxista, eu não estou totalmente à vontade para afirmar. Se a MI é toda marxista, também não. Mas que há traços de marxismo em seu desenvolvimento e que o que temos recebido mais recentemente no Brasil e tem se tornado mais popular está marcado por tal influência, creio ser facilmente perceptível. Como eu afirmei no programa, vejo 4 relações entre as duas coisas:
a) Semelhança histórica: A MI surgiu no período de profundo florescimento do pensamento esquerdista na América Latina e foi desenvolvida no seio de movimentos e organizações que forjaram também perspectivas teológicas claramente comprometidas com um ideário materialista histórico, como a Teologia da Libertação. Por exemplo: FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) e ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina).
b) Semelhança metodológica: Constantemente se ouve, atrelado à MI o discurso da necessidade de uma teologia regional, brasileira, tupiniquim, à parte da tradição teológica europeia-norte americana que recebemos. Esse discurso antitradicionalista de rompimento com a tradição é muito semelhante ao do próprio Marx, que nas Teses contra Feuerbach, incluídas depois na Ideologia Alemã, afirma que os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; enquanto o que importa é transformá-lo.
c) Semelhança terminológica: Proponentes da MI no Brasil costumam aplicar ao Novo Testamento, de maneira mais direta ao ministério de Cristo, termos academicamente cristalizados como marxistas, como alienação, revolução, ideologia, subversão, dentre outros.
d) Semelhança de ênfase conceitual: Não é incomum também encontrarmos em textos e falas dos proponentes mais conhecidos da MI no Brasil atualmente, uma ênfase nos impactos econômicos da obra de Cristo e de seu reino. Em algumas ocasiões a ideia de que o Reino produz transformações de cunho econômico é quase que uma constante exclusiva.
5) Embora eu não negue momentos de verdade no marxismo, ele é fundamentalmente antagônico ao cristianismo, enquanto cosmovisão. Primeiramente, por que é materialista. Isto é, ignora qualquer dimensão transcendente. Segundo, por que sendo materialista, reduz a dinâmica da vida humana às suas relações socioeconômicas, localizando nesse nível: criação, queda, e redenção. Correndo o risco de imprecisões: enquanto o cristianismo localiza a origem do homem em Deus, o marxismo a localiza na produção. Enquanto o cristianismo localiza a queda na quebra da relação do homem com Deus, o marxismo a localiza na opressão de um modelo econômico. Enquanto o cristianismo localiza a redenção na reconciliação com Deus por meio de Cristo, o marxismo a concebe como a instauração revolucionária de um modelo econômico. Qualquer tentativa de síntese do cristianismo com uma perspectiva tão religiosamente comprometida, dificilmente passa ilesa. É aqui que, na minha opinião, nasce o reducionismo.
6) Criticar um determinado paradigma não significa ignorar eventuais problemas que ele tenha levantado, nem mesmo eventuais contribuições que ele tenha a oferecer. Creio que a MI levanta um problema real: precisamos de uma concepção de missão que tenha um impacto mais abrangente. Creio também que a MI tem uma contribuição efetiva: chamar nossa atenção para a necessidade de considerar dentro dessa concepção de missão o papel social da igreja e a preocupação com o pobre – isto é legítimo. Mas, pela razão apresentada acima, não creio que ela poderá nos fornecer uma concepção efetivamente integral, pelo menos nos caminhos trilhados mais recentemente no Brasil.
7) Creio que nós, cristãos tradicionais, devemos ser não apenas reativos, mas também propositivos. Sendo assim, defendo que precisamos pensar numa alternativa para essa questão da missão da igreja e seu impacto cultural. Primeiramente, precisamos de uma perspectiva evangélica, ou seja, que considere a centralidade do evangelho na missão da igreja. Em segundo lugar, precisamos fazer isso dentro de um escopo teológico mais amplo. Precisamos da tradição! Por fim, precisamos de criatividade. Creio que não daremos respostas satisfatórias simplesmente reproduzindo modelos. Nossa realidade é muito específica, e requer que façamos um exercício criativo de aplicação dos princípios do evangelho e de uma tradição de pensamento. Minha sugestão é de que bons insights podem ser encontrados no neocalvinismo holandês – movimento liderado por Abraham Kuyper no fim do século XIX. Creio que ele conjuga bem tradição e aplicação criativa e pode ser muito útil enquanto inspiração pra nós.
8) Dentre as perguntas que recebi ontem, alguém mais prático me perguntou: você acha que uma igreja deve abrir uma creche? Segue a resposta:
Para mim, nenhuma igreja (comunidade local) deve sentir-se tão culpada por não ter aberto uma, quanto por não preparar bem seus membros no poder do Evangelho para viver a vida cristã de modo impactante em todas as esferas da vida. E nenhuma igreja deve sentir-se satisfeita simplesmente por ter uma, se esta não estiver a serviço de sua tarefa primeira: a de proclamação do evangelho de Cristo. Uma igreja deve fazer mais do que abrir uma creche. Ela deve fazer assistência social evidenciando por que faz e transformando o modo de fazer. Deve mais que abrir uma escola. Deve usar sua escola como meio de submeter a educação ao senhorio de Cristo. Deve mais que ter um grupo de teatro. Deve transformar o modo como a arte é feita e experimentada no lugar onde ela está inserida.
A todos os leitores, meu grande abraço.

Por último, a postagem do Guilherme de Carvalho, que escreveu cinco capítulos sobre a missão integral nos livros os livros “Cosmovisão Cristã e Transformação” e “Fé Cristã e Cultura Contemporânea”, ambos da Editora Ultimato:

Algumas pessoas ficaram chateadas porque eu disse em certo lugar que “a hermenêutica da Teologia de Missão Integral” é “furada”. E disseram que quem fala isso não entende de missão integral.
Mas tenho como sustentar meu argumento. Tenho pesquisado e escrito sobre Missão Integral há uns 10 anos. Escrevi críticas que foram aprovadas por Dom Robinson Cavalcanti (se alguém precisar de um imprimatur). Sou um DEFENSOR do conceito de missão integral.
No entanto, no discurso popular da TMI a ideia de empregar “Mediações Sócio-Analíticas” para interpretar e elaborar a teologia e a missão da igreja é amplamente praticada (embora frequentemente de forma tácita, quase inconsciente) de um modo que dissolve aspectos fundamentais da cosmovisão cristã e da fé evangélica, reintepretadas a partir de categorias seculares. Este é, “in a nutshell”, o problema hermenêutico da TMI.
Uma evidência disso é que muitos defensores da TMI que tenho encontrado por aí (não me refiro a líderes que admiro como o Ari ou o Valdir, mas ao “chão de fábrica” da “esquerda gospel”) adquirem sem perceber uma aversão a qualquer confessionalismo ou esforço por coerência teológica, confundindo isso com fundamentalismo “straight on”. Em níveis mais avançados, há os que confundem “teologia cristã” com “ciências da religião” com a maior naturalidade (duas coisas boas, mas que não podem ser confundidas). E é por isso também que a TdL, repudiada pela TMI no discurso oficial, é admirada no “chão de fábrica”, à “boca pequena”.
Escrevi uns 5 capítulos sobre o tema que nunca foram respondidos (nos livros “Cosmovisão Cristã e Transformação” e “Fé Cristã e Cultura Contemporânea”, ambos da Ultimato). Espero que meus críticos parem de reclamar de mim no facebook e leiam o que escrevi antes de escrever suas respostas. Mas não quero conflito gratuito; quero diálogo e ideias vivas. Quero aperfeiçoar minha análise também.
Mas a verdade é que boa parte dos meus críticos nunca leu nada que escrevi nem ouviu nossas palestras em L’Abri. Simplesmente não sabem do que estou falando.

Além das postagens acima, daqueles que considero os principais protagonistas do “debate”, vale a pena ler (e assistir) o que outros também escreveram e falaram sobre o assuntos durante aqueles dias:
- O texto do Igor Miguel, Missão Integral: ponderações à entrevista de Jonas Madureira e Filipe Fontes, publicado ainda no dia 20, antes do assunto ferver nas redes sociais.
- A opinião do Valdir Steuernagel publicada no site da Ultimato sob o título A “Missão Integral” nem é tão integral assim!
- O vídeo abaixo com o bate-papo entre o Marcos Botelho e Calebe Ribeiro intitulado Academia de Policia da Missão Integral em Debate!, comentando sobre o assunto. Digno de nota, é a observação feita pelo Marcos que “quando vai se debater sobre a teologia da prosperidade, ninguém chama um ‘teólogo’ ou alguém da teologia da prosperidade.” (um contraponto àqueles que acusaram o Programa Academia em Debate de falta de seriedade, por não ter trazido um teólogo da Missão Integral para o debate).

- A crítica Qual o principal problema da Teologia da Missão Integral? escrita pelo Gutierres Fernandes Siqueira para o blog Teologia Pentecostal.
- O vídeo da entrevista feita pelo Alex Fajardo com Regina Fernanda Sanches, autora do livro Teologia da Missão Integral: História e Método da Teologia Evangélica Latino-Americana (Editora Reflexão), sobre o método da Missão Integral.

Todas as postagens acima, assim com os textos dos blogs e bate-papos em vídeo, servem para, ao menos, entender essa discussão. A esperança, uma vez dado o pontapé inicial, é que debate continue, lidando com os questionamentos e críticas, e expandindo a discussão de maneira acadêmica e saudável.

Por que Teo-logia?

livros
Comecei a ler livros de teologia logo após minha conversão, na década de 1980. Quando fui para o seminário, clássicos de teologia como o de Louis Berkhof não estavam disponíveis na língua portuguesa. Lembro-me de passar algum tempo na biblioteca, tentando ler os textos daquela obra em espanhol. Ao lado de Berkhof, o livro Palestras em Teologia Sistemática de Henry Clarence Thiessen aumentou meu interesse por estudar. Então, ainda nos anos ’80, veio As Institutas de João Calvino, mesmo que apenas no resumo feito por J. P. Wiles. Depois, ao longo dos anos (e décadas) vieram Dietrich Bonhoeffer, Francis Schaeffer, C.S. Lewis, Paul Tillich, George Ladd, Karl Barth, Hans Küng, Jürgen Moltmann, Wayne Grudem, N.T. Wright, D.A. Carson, Wolfhart Pannenberg, John Piper, Santo Agostinho, Hans Urs Von Balthasar, Miroslav Volf e tantos outros autores – alguns conservadores, outros liberais; a maioria deles protestantes, mas alguns católicos – que tem acompanhado essa paixão que tenho pela teologia e seus intérpretes. Obviamente que o fato de ler e estudar diferentes teólogos não significa que eu concorde com tudo o que eles escreveram ou as conclusões que chegaram acerca de Deus, sua natureza, seus propósitos, sua obra, etc. Meus pés permanecem firmes na tradição protestante-reformada-evangélica, na qual fui formado e que continua fazendo mais sentido e coerência intelectual (McGrath) para mim, na tentativa de interpretar a vida e seus mistérios.

Não é raro ouvir pessoas – algumas delas, líderes espirituais – questionarem o interesse pelo estudo teológico ou criticarem veementemente qualquer tentativa de se fazer teologia. Escolhi duas citações abaixo como lembrete e resposta a tais críticas e questionamentos. Dentre tantas frases que eu poderia ter escolhido, fiz questão de usar um teólogo latino-americano para a primeira citação:

“A reflexão teológica – inteligência da fé – surge espontânea e iniludivelmente naquele que crê, em todos aqueles que acolheram o dom da Palavra de Deus. A teologia é, com efeito, inerente à vida de fé que procura ser autêntica e plena… Em todo crente, mais ainda, em toda comunidade cristã, há pois um esboço de teologia, e esforço de inteligência de fé.”(1)

“Quem quer que pense e fale a respeito de Deus está fazendo teologia. Quem fala e pensa muito a respeito de Deus cria uma estrutura na qual Deus é enquadrado. Essa estrutura é sua teologia. É a lente por meio da qual o indivíduo lê a Bíblia, ouve sermões, ora a Deus, lê livros e reflete a respeito dele. Quando lê algo sobre Deus, lê o pensamento teológico de alguém e usa o que lê para ajustar a própria teologia, quer se dê conta disso, quer não. Portanto, não há fé sem teologia. Não há quem leia a Bíblia sem recorrer – consciente ou inconscientemente – a uma teologia que a interprete… A pergunta é: Como sabemos se nossa teologia, isto é, a visão que temos de Deus, é a correta?” (2)

______
1. Gustavo Gutiérrez em Teologia da Libertação
2. Gerald R. McDermott em Grandes Teólogos: A síntese do pensamento teológico em 21 séculos de igreja

Oração: O que é? Por que? Como?


“A pergunta é: Quanto dessa fé persistente o Filho do Homem vai encontrar na terra quando voltar.”

É impressão minha ou está se tornando comum hoje em dia dizer que não é preciso orar, que oração é tudo que fazemos, o tempo todo? É impressão minha ou a oração está desaparecendo da experiência cristã, principalmente entre os cristãos pensantes ou reflexivos?

Duas décadas atrás, Caio Fábio já sinalizava este fenômeno, chamando esta geração de “uma geração que desaprendeu a orar” em seu livro Oração Para Viver e Morrer. As causas para isto, apontadas por ele na época, eram: a sociedade moderna, a miséria de muitos, a dicotomia orar ou fazer, a teologia liberal e o pentecostalismo sem piedade.

Se ele estava certo (e, em minha opinião, estava), não é nenhuma surpresa que a oração esteja desaparecendo rapidamente da prática cristã atual.

Uma das razões que ouço pela qual pessoas se recusam a orar é que, segundo elas, a oração se tornou um ritual religioso. E esta é a geração que tem alergia a rituais e total desprezo por religiosidade. Toda a nossa vida deve ser uma oração, dizem eles. É verdade que o apóstolo Paulo falou sobre orar o tempo todo em espírito e certamente muito do que se chama de oração não reflete o ensinamento bíblico. Mas é preciso ser muito ignorante da Bíblia (ou rejeitá-la por completo) para assumir uma postura tão reducionista em relação a oração.

Osmar Ludovido em Meditatio reconhece a tensão e equilíbrio que existe entre a oração privada e pública, entre a vida comum na igreja e a vida interior do cristão. Segundo ele, a ênfase e valorização de apenas um desses aspectos em detrimento do outro conduz, inevitavelmente, ao empobrecimento da vida cristã. Ele diz: “Manter comunhão e orar com a igreja nos ajuda a crescer na fé, na esperança e no amor, mas nada substitui a necessidade irresistível do recolhimento para dialogar com Cristo na intimidade do coração.”

Jesus e a oração
Basta olhar para a vida de Jesus para entender o que é oração e como deve ser uma vida de oração. Jesus orava, muitas vezes sozinho, separado da agitação do cotidiano, outras vezes em público, na presença de seus discípulos e até das multidões que o seguiam.

Quando os discípulos vieram a Jesus e pediram-lhe: “Mestre, ensina-nos a orar”, Jesus não respondeu-lhes dizendo: “Orar? Pra que? Vocês  já estão orando quando estão conversando uns com os outros, quando estão apreciando a natureza, quando estão tirando uma soneca…” Em vez disso, Jesus deu-lhes instruções bem claras sobre como orar. Por meio de sua vida e seus ensinamentos, Jesus nos orienta quanto ao conteúdo de nossas orações, quanto a atitude com que devemos orar e com que frequência orar. Jesus nos manda orar (sim, ele dá uma ordem!). Dizer que está seguindo Jesus e, ao mesmo tempo, não se dedicar a prática da oração é um contrassenso.

Mas o que é oração? Por que orar? Como orar?

Oração é comunicação com Deus
O monge beneditino alemão Anselm Grün diz que a oração é um diálogo entre o homem e Deus. Grün fala da oração como um encontro: com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Gerardus van der Leeuw, teólogo holandês, diz que a oração é essencialmente um diálogo. Ambos parecem estar fazendo eco a Clemente de Alexandria que disse: “orar é manter companhia de Deus.”

Em seu livro sobre oração, Caio Fábio diz que a oração é “o único meio pelo qual se pode genuinamente desenvolver uma sadia visão de Deus, da Igreja, do mundo e da missão do povo de Deus na história. (…) Sem oração, a vivência da fé não passa de reflexão banal ou presunçosa ação. (…) A oração é a forma mais dramática de manifestar o desejo pela presença de Deus na vida. (…) A oração é o mais forte instrumento de afirmação do Ser. Quem ora, fala com o Ser dos seres e com Aquele que é a origem de todos os seres que sabem que existem.”

Se orar é tudo isso, por que não oramos, ou oramos tão pouco?

Talvez porque, como diz James Houston em Orar Com Deus, “se achamos difícil formar relacionamentos duradouros com nossos semelhantes, acharemos muito mais difícil nos relacionarmos em qualquer profundidade com Deus, ao qual não podemos ver.”

Se Deus sabe tudo, por que orar?
A Bíblia apresenta Deus como conhecedor de todas as coisas. A despeito do que especulam certos teólogos modernos, é impossível ler a Bíblia e não perceber Deus como Aquele que sabe tudo, diante de Quem não existe nada encoberto. Anselm Grün reconhece esta tensão entre o conhecimento de Deus e a oração ao dizer: “Deus certamente sabe tudo e não tem necessidade da minha oração, mas eu necessito dela.”

Caio Fábio diz: “Deve-se orar porque mediante sua prática o espírito humano explícita de     maneira verbal o seu desejo de Deus. Pela oração a alma confessa sua     fome da divindade. Pela oração o Ser humano diz a Deus o quanto o Criador e Redentor é objeto da satisfação dos anelos mais profundos da criatura redimida e consciente do seu criador.”

Deus não precisa da minha oração. Sou eu quem precisa dela. A oração me aproxima de Deus, revela minha dependência, minha fome e sede por Sua vontade, seu Reino, sua pessoa. A oração muda principalmente a mim – minha visão de Deus, do próximo, das circunstâncias. Esta foi a resposta dada por C.S. Lewis quando lhe questionaram sobre o por que ele orava em favor de sua esposa com câncer.

Richard Foster, que é famoso pelos seus livros sobre espiritualidade, diz que “a oração é a principal de todas as disciplinas espirituais” pois ela “nos leva ao agir mais profundo e elevado do espírito humano.” Segundo ele, “orar é mudar” e “a oração é a principal via usada por Deus para nos transformar”. Para Anselm Grün, mesmo a intercessão, a oração pelo próximo, transforma em primeiro lugar a mim mesmo. “Vejo o outro com novos olhos, não mais a partir da minha raiva ou da minha desilusão, e sim a partir de Deus.” A oração “torna possível uma nova comunhão.”

Como orar?
Tendo explorado o tema da oração como um encontro com Deus que, mesmo conhecendo tudo a nosso respeito, nos convida a falar com Ele para que sejamos transformados no processo, resta-nos considerar algumas sugestões de como orar, baseado na narrativa de Lucas 18.

Primeiro, proponho que devemos orar como alguém que entende sua total dependência de Deus. Os personagens na narrativa de Lucas 18 são totalmente dependentes de justiça (viúva), perdão (pecador), amor e cuidado (criança) e direção (cego).  A oração é uma forma de confissão de nossa insuficiência, de nossa limitação, de nossa incapacidade de lidar com os dramas e mistérios da vida.

Segundo, proponho que nossa oração deva ser caracterizada pela insistência (perseverança) da viúva, a contrição do pecador, a inocência da criança (sem formalismos) e a fé do cego.

Terceiro, proponho que a oração deve ser acompanha das Escrituras. P. T. Forsyth disse que “o estudo da Bíblia e a oração caminham de mãos dadas. O que recebemos pela mensagem da Bíblia, devolvemos a ele com interesse em oração. A oração é para nós, paradoxalmente, uma dádiva e uma conquista, uma graça e  um dever.” Precisamos recuperar a arte de aprender a orar com os Salmos, o livro de oração usado pelo próprio Senhor Jesus.

Finalmente, concluo com as palavras de Caio Fábio:

“Coincidentemente, os cristãos mais maduros que eu conheço são aqueles que mais oram. De fato, penso que há uma coincidência entre oração e maturidade humana. Ou seja: uma incide sobre a outra. O ser humano se torna mais humano quanto mais ele contemple o Criador.”

(esboço do sermão pregado no Projeto 242 em 01 de Maio de 2011)

A cruz e o eterno agora

O último disco da banda Metallica, lançado em 2008, chama-se Death Magnetic (algo como “morte magnética”). A capa e as artes no interior do encarte, retratam uma sepultura atraindo tudo à sua volta como se fosse um grande ímã. Parece que a banda está tentando nos lembrar a realidade da morte não apenas próxima, mas como algo que está atraindo lentamente a nossa vida. Em sua primeira carta aos cristãos de  Corinto, no capítulo 15, Paulo chama esta realidade de nossa mortalidade e corruptibilidade.

Num ensaio escrito para o livro What God Knows (O que Deus Sabe), entitulado Meeting the Cosmic God in the Existential Now (Encontrando o Deus Cósmico no Agora Existencial), o sociólogo cristão Tony Campolo trata da relação com um Deus que transcende o tempo. Abaixo estão alguns trechos do texto de Campolo:

Ao refletir sobre como o tempo é relativo ao movimento, quero declarar que acredito que Deus é capaz de experimentar o tempo na velocidade da luz. Para Deus, todo o tempo pode ser comprimido no que o teólogo Emil Brunner chamou de “o eterno agora.” Todas as coisas acontecem “agora” com Deus. Com Deus, mil anos são como um dia, e um dia é como mil anos (Salmo 90.4). O próprio nome de Deus implica esta realidade. O nome de Deus é “Eu Sou.” Deus nunca “era”, e Deus nunca “será”. Deus é sempre “agora”.

Jesus não foi apenas um homem que viveu, morreu e ressuscitou historicamente; Ele também é o Deus para quem todas as coisas estão no momento presente. É por isso que ele podia dizer aos fariseus: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8.58). Jesus não estava usando uma gramática pobre quando falou assim. Em vez disso, ele estava declarando sua divindade. Ele estava dizendo que o tempo antes que houvesse um Abraão é tempo presente para ele. Por causa de sua divindade, ele experimenta todos os eventos no tempo e na história, como se estivessem acontecendo para ele no presente.

Quando Jesus foi pendurado na cruz do Calvário cerca de dois mil anos atrás, sendo Deus, ele estava – e está – simultaneamente comigo aqui e agora. Agora mesmo, sou pego em seu eterno agora. Os séculos que me separam do sofrimento de Jesus no Gólgota são comprimidos, como se à velocidade da luz, de modo que do ponto de vista dele, ele está comigo neste exato momento. Isso significa que, agora, no sentido que Deus tem do tempo, enquanto ele está pendurado na cruz, ele é capaz de ter empatia por mim, e por meio de uma espécie de osmose espiritual, absorver em si todo o pecado e escuridão da minha vida.

Na cruz há dois mil anos, ele levou o castigo pelo meu pecado, mas agora mesmo, no seu eterno agora, ele é capaz de me alcançar daquela velha rude cruz. Como um ímã, ele pode tirar de mim todo o mal que faz parte do minha humanidade, como se fosse algumas limalhas de ferro.

Jesus, sendo Deus, pode purificar-nos hoje, porque ele é, nas palavras do teólogo existencialista dinamarquês, Søren Kierkegaard,”o eternamente crucificado.”

Toda vez que eu peco, naquele mesmo instante Jesus geme em agonia no Calvário. Mesmo enquanto peco hoje, ele experimenta a agonia de ingerir o meu pecado em si mesmo no seu eterno agora, pendurado com os braços abertos lá no madeiro. É por isso que diz em Hebreus 6.6 que, quando pecamos, estamos crucificando-o novamente. Em certo sentido, quando pecamos, o crucificamos agora mesmo.

Eu estava em uma faculdade cristã, que é uma das nossas cidadelas de pureza evangélica, conversando com um aluno que estava um pouco preocupado com o fato de que ele era evangélico, mas estava transando com duas garotas. Disse a ele: “Como você concilia tudo isso com ser cristão? “Ele disse:” Bem, eu acredito que Jesus cuidou de tudo isso há muito tempo e bem longe “. Eu disse: “A próxima vez que você estiver cometendo fornicação, espero que você possa ouvir Jesus gritando de dor no fundo. Porque naquele exato momento ele está simultaneamente com você, absorvendo em seu próprio corpo, o pecado que você está cometendo”.

Não é à toa que Paulo diz que não ousemos pecar para que a graça abunde (Romanos 6.1) pois, enquanto pecamos, dois mil anos atrás na cruz, Jesus atravessa o tempo e o espaço, e atrai os pecados em seu próprio corpo perfeito, como se fossem limalhas de ferro e ele um ímã.

Em 1 João 1.9 nos diz o seguinte: se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo. Ele perdoará os nossos pecados e nos purificará. A teologia Reformada baseia o perdão sobre o que ele fez lá atrás, no Calvário. Mas alguma coisa tem que acontecer agora! Você tem que se render na quietude de Cristo na cruz e deixar que ele o purifique. E não venha me dizer que você não precisa ser purificado.

A resposta para o magnetismo da morte é o magnetismo da cruz. A resposta para a sensação de presença e atração da morte, é a certeza da presença atrativa de Jesus. A resposta para a mortalidade e corruptibilidade de nosso corpo é a ressurreição.

A morte é mesmo um inimigo mortal de todos nós. Todavia mesmo a morte não tem a palavra final diante de Jesus, aquele que venceu a morte com sua ressurreição. Como expressou Tony Campolo, sendo Deus, Jesus não é apenas alguém que viveu no passado, mas que vive no eterno agora e que pode ser encontrado por todos o que o buscam hoje. Ele disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá.”

Tsunamis e Deus



por Miroslav Volf

Num jantar em homenagem a um convidado de destaque que deve permanecer anônimo aqui, eu estava sentado ao lado de uma mulher muito inteligente, que trabalha para a CBS. O tsunami tinha acabado de atingir a costa da Sumatra, com toda a sua força destruidora, e nós estávamos falando sobre a magnitude da desolação, a condição das vítimas e a insanidade do evento. Ela sabia que eu era um teólogo, então abordou a questão de Deus, de uma forma nada delicada como poderia ser esperado numa ocasião social.

“Onde estava Deus?”

“Como alguém pode acreditar em um Deus bom diante de tamanho sofrimento?”

E foi então que eu cometi meu erro.

A coisa boa, suponho, é que o erro não foi tão ruim quanto poderia ter sido. Eu poderia ter tentado justificar Deus. Afinal, Deus estava sob ataque e eu era um teólogo, e um teólogo que acha Deus imensamente atraente, mesmo se, por vezes, totalmente desconcertante e muito perturbador. Mas lembrei-me do terremoto que destruiu Lisboa em 1755 e Cândido, de Voltaire, um ataque espirituoso e devastador no otimismo filosófico e teológico escrito, em parte, como resposta. Dois terços de Lisboa foram destruídos e cerca de 30.000 pessoas morreram, a maioria devido a uma onda gigantesca e aos incêndios após o terremoto. Era o Dia de Todos os Santos e “igrejas, com velas acesas, desmoronaram sobre multidões de adoradores.” A maioria dos bordéis foram poupados, como Voltaire prontamente notou.

Desde que li Cândido, não tento defender Deus contra a acusação de impotência ou falta de zelo para com os males terríveis. Eu certamente não poderia tornar plausível para mim mesmo que “o que quer que seja, é certo” ou que “mal parcial, é bem universal.” Não é tanto que eu passei a acreditar que tais argumentos devem estar errados. Talvez eu seja persuadido por eles quando a história tiver concluído seu curso e Deus trouxer a redenção e consumação, e eu for capaz de pensar com a cabeça limpa, a partir de um mundo todo restaurado. Isso é o que Martinho Lutero sugeriu que aconteceria em seu tratado sobre A Escravidão da Vontade. Mas aqui e agora, enredado como estou no mundo que empilha sofrimento sobre sofrimento no curso da história, acho tais argumentos implausíveis, falhos e até mesmo um tanto irritantes. O bem do todo parece terrivelmente abstrato e sem significado ou consolo para um ser humano atormentado pelo sofrimento. “Quando a morte coroa os males do homem que sofre, que belo consolo é ser comido pelos vermes!”, escreveu Voltaire com seu característico sarcasmo.

Eu não cometi o erro de tentar justificar Deus – em 2 minutos ou menos. Mas tentei algo quase tão complexo, ainda que mais plausível. Sugeri à minha parceira que o protesto contra Deus diante do mal pressupõe, na realidade, a existência de Deus. Por que estamos perturbados com a força bruta e cega de tsunamis que extinguem a vida de pessoas, incluindo crianças que foram atraídas, como se por algum plano sinistro, para as praias por peixes expostos porque as águas recuaram um pouco antes da chegada da onda gigante? Se o mundo é tudo que existe, e o mundo com placas tectônicas em movimento é onde vivemos, do que devemos reclamar? Podemos lamentar; perdemos algo terrivelmente querido. Mas não podemos reclamar, e certamente não podemos legitimamente protestar. A expectativa de que o mundo deveria ser um lugar hospitaleiro, sem percalços devastadores, está ligada à crença de que o mundo deveria ser constituído de uma certa maneira. E essa crença (distinta da crença de que o mundo é tudo que há) é, por si própria, ligada à noção de um Criador. E isso nos leva a Deus. É Deus quem torna possível protestar que o mal existe no mundo. E é contra Deus que protestamos. Deus é tanto a base do protesto quanto seu alvo. Quase que paradoxalmente, protestamos com Deus contra Deus. Como posso acreditar em Deus quando tsunamis atingem? Eu protesto, e, portanto, acredito.

Foi um erro, no entanto, tentar fazer esse argumento naquele jantar. Não é que, nesse meio tempo, passei a acreditar que o argumento não seja bom. É um bom argumento, ainda que deixe a pessoa com uma fé que parece em desacordo consigo mesmo, com um Deus que é difícil de abandonar e, no entanto, duro de aceitar. Também não é que a minha interlocutora não tenha sido capaz de seguir o argumento, mesmo em forma tão condensada e oferecido entre a salada e o prato principal. Ela foi inteligente o suficiente para isso. No entanto, eu não deveria ter oferecido, não ali e naquele momento, e não como a primeira coisa a ser dita sobre Deus e tsunamis.

“Como alguém pode acreditar em um Deus bom diante de tamanho sofrimento?”

A resposta para esta questão depende, em parte, da outra pergunta que minha interlocutora me fez naquela noite: “Onde estava Deus?” O meu erro foi que eu tentei responder a primeira pergunta sem responder a segunda. Assim como Deus estava, de alguma forma misteriosa, no Crucificado, Deus estava no meio da carnificina causada pelo tsunami, ouvindo cada suspiro, recolhendo cada lágrima, ressoando o tremor de cada coração aflito. E assim como Deus estava no Ressuscitado, Deus também estava em cada mão auxiliadora, em cada decisão de sacrificar a própria vida para que outros pudessem viver. Deus sofreu e Deus ajudou.

Eu sei que, ao mesmo tempo, Deus também estava sentado em Seu trono celestial. Por que o Onipotente e Amoroso não fez algo sobre o tsunami antes que ele atingisse? Eu não sei. Se eu soubesse, poderia justificar Deus. Mas não posso. É por isso que estou perturbado, ainda, pelo Deus por quem sou tão imensamente atraído e que não me abandonará.

(Extraído de Against the Tide: Love in a Time of Petty Dreams and Persisting Enmities)