Blog do revBaggio
Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

Archive for the 'Teologia' Category

A Bíblia e eu

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Comprei minha primeira Bíblia há 28 anos. Apesar de ter nascido num lar com influências cristãs, tinha acabado de experimentar a fé de modo real e significativo. Por isso, decidi assumir meu compromisso com Deus e com a Sua Palavra. Aquele livro volumoso de capa preta pesava como um tijolo todas as vezes que eu passava diante dos meus amigos a caminho da igreja. A Bíblia era para mim muito mais do que uma coleção de textos religiosos antigos. Era a Palavra de Deus. Com esta crença minha vida foi sendo transformada à medida que eu me dedicava a sua leitura e estudo.

Hoje me perguntam se ainda creio assim. Minha resposta é: Sim! Considero a Bíblia como Palavra de Deus. Isto significa que eu acredito que a Bíblia seja um livro soprado por Deus (theopneustos). O que não significa que a Bíblia seja um livro que caiu do céu. Em vez disso, ela é uma coleção de livros escritos por seres humanos plenos em suas faculdades mentais, num longo processo de composição dirigido pelo próprio Deus. Sendo assim, a Bíblia é palavra de Deus através das palavras dos homens.

Minha razão para crer assim não é antiintelectual. Ao contrário, é fruto de muita reflexão e estudo sobre a natureza das Escrituras e o papel que as mesmas desempenharam na vida de Jesus, dos primeiros cristãos e na história da Igreja nos últimos dois milênios.

Rejeito uma visão liberal em relação à Bíblia. Tal visão é fruto de influências do deísmo e racionalismo Iluminista. Incapaz de conceber intervenções sobrenaturais de Deus, surgiu a necessidade de desconstruir as narrativas bíblicas em que há relatos sobrenaturais reduzindo-as a meras fábulas e mitos. A maioria dessas desconstruções são baseadas em muitas teorias e poucas evidências. Por incrível que pareça, as propostas liberais relacionadas à Bíblia são ultrapassadas. Todavia continuam cativando novos estudantes de teologia fascinados por “idéias novas” e aqueles que preferem uma explicação natural para as narrativas bíblicas por não terem fé suficiente para crer em um Deus capaz de fazer milagres.

Rejeito o enfoque liberal da Bíblia porque o mesmo é herético. Como disse Roger Olson em seu livro “História das Controvérsias na Teologia Cristã” (p. 133-134):

O enfoque liberal da Bíblia é herético por negar ou solapar completamente a autoridade inigualável da Escritura. O problema não é os pensadores liberais tentarem fazer justiça à qualidade humana da Escritura, mas seu modelo de inspiração da Escritura não consegue fazer justiça à qualidade divina da Bíblia. Nas mãos deles a Bíblia se torna um romance histórico ou uma poderosa obra de ficção que molda comportamentos e moralidades ao criar um mundo habitável. Para muitos pensadores liberais, a verdade objetiva da Bíblia correspondente à realidade é irrelevante. O que realmente importa é seu poder de transformar a vida das pessoas para melhor. O foco não está na autoria da Escritura – divina ou humana – mas na autoria exercida pela Escritura sobre os leitores e nas respostas deles.
No entanto, surge naturalmente a pergunta: Se Deus não é de modo especial, ou sobrenatural, o autor maior da Escritura, por que crer que ela é inigualável ou especial? Por que outro livro não poderia ter um efeito de transformação espiritual e pessoal igualmente eficaz?

Rejeito uma visão liberal da Bíblia não porque sou um cristão ingênuo que desconhece a Alta Crítica, a Teoria Documental e outras calçadas no racionalismo anti-sobrenaturalista. Estou bem consciente de tais teorias, após tê-las estudado diversas vezes nos últimos 20 e poucos anos e não ter encontrado nelas nada de novo, somente uma repetição de velhas fórmulas e pressupostos construídos um em cima de outro sob a aparência de ciência da religião.

Finalmente, rejeito uma visão liberal da Bíblia porque considero tal visão incoerente com qualquer projeto de seguir Jesus que não passe do seguimento de um mero rabino judaico com alucinações messiânicas, que nunca fez nenhum milagre, foi vítima do Império Romano e cuja ressurreição é apenas uma forma de expressar que ele continua vivo na mente de seus seguidores. Quando se abre espaço para descartar trechos da Bíblia como se fossem meros mitos, abre-se espaço para que toda a Bíblia seja, pouco a pouco, descartada e perca qualquer autoridade de fé e prática. Se eu não acredito na travessia do Mar Vermelho, por que acreditaria na concepção imaculada de Cristo, em seus milagres, em sua ressurreição? Como alguém já disse: “Uma vez que permitamos que o verme corroa a raiz, não devemos ficar surpresos se os galhos, as folhas e os frutos, pouco a pouco, apodrecerem.”

John Stott disse:

Que sentido faz chamar Jesus de “Mestre” e “Senhor” para depois discordar dele? Sua visão das Escrituras deve tornar-se a nossa visão. (…) Toda a evidência disponível confirma que Jesus Cristo consentiu em sua mente e submeteu-se em sua vida à autoridade do AT… [Portanto] submissão às Escrituras é para nós, um sinal de nossa submissão à Cristo.

Norman Geisler concorda com isso ao dizer:

Como os estudiosos cristãos liberais alegam ser seguidores de Cristo, é inconsistente, da sua parte, rejeitar o que o próprio Cristo ensinou a respeito da Bíblia. Como existem firmes evidências, mais abundantes do que as que existem para outros livros da antiguidade, de que os documentos do Novo Testamento são historicamente confiáveis, um exame minucioso dos Evangelhos revela que Jesus ensinou que a Bíblia é a Palavra de Deus divinamente inspirada e portadora de autoridade. Então, como os liberais podem se considerar seguidores dos ensinos de Jesus, se negam um dos ensinos essenciais de Jesus, a saber, que a Bíblia é a Palavra de Deus? (Norman Geisler, Teologia Sistemática, p. 335)

Por estas razões e muitas outras é que rejeito uma visão liberal da Bíblia. Minha escolha por uma visão das Escrituras que honre seu caráter divino sobrenatural é uma escolha baseada na coerência intelectual com a fé que abracei, mais do que uma escolha de fé em si.

Sem medo de dizer que sei e que não sei

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Acho sua falta de fé… preocupante.
- Darth Vader

Certa vez um repórter perguntou a Karl Barth se ele poderia sintetizar sua imensa obra Church Dogmatics. O grande teólogo pensou e respondeu com uma canção infantil: “Jesus me ama, isso eu sei, pois a Bíblia diz assim.”

Ao ouvir isso, o Novo Tipo de Cristão talvez respondesse: “Jesus me ama? Eu não sei, não. A Bíblia diz isso? Hummm, acho que isso carece de interpretação, crítica textual, etc e tal.”

Duvidar está em alta. Parece que estamos vivendo a Era da Dúvida e Incertezas.  Não se trata de lutar com a dúvida como aquele pai do menino endemoninhado de Marcos 9.24. Não se trata de reconhecer os mistérios de Deus como o fizeram tantos cristãos através dos séculos, desde São Paulo em seu belo hino de adoração em Romanos 11.33,  Pseudo-Dionísio Aeropagita em sua obra De divinis nominibus, ou mais recentemente Rudolf Otto com seu conceito do numinoso (Mysterium tremendum et fascinans).

Não, o que temos hoje é a celebração da dúvida!

O padroeiro da Igreja deste Novo Tipo de Cristianismo seria São Tomé. Ainda que o Novo Tipo de Cristão se apresente como seguidor de Jesus, ele não deseja ser crente. Prefere ficar em cima do muro para não ofender aqueles que sucumbiram nas filosofias pós-modernas que ridicularizam a crença em absolutos e exaltam o relativismo.

São Paulo não se encaixaria neste Novo Tipo de Cristianismo. São Paulo estava cheio demais de declarações de fé como “sabemos”,  “tenho certeza” e “estou certo” para ser aceito entre aqueles que nada sabem e não têm certeza de nada. O Evangelho que Paulo pregava “com absoluta convicção” não encontraria espaço no coração do Novo Tipo de Cristão, onde parece haver espaço somente dúvidas e incertezas.

Possivelmente Jesus também não se encaixaria neste novo cristianismo. Afinal de contas a resposta de Jesus para a dúvida de Tomé soa mais como uma repreensão e admoestação do que como um encorajamento para que Tomé continuasse duvidando. Jesus disse: “Tomé, você quer provas, então toma! Coloca aqui a sua mão e veja, cara! Agora, deixa de ser incrédulo! Seja crente!”

Esta é uma das dificuldades que encontro com o Novo Tipo de Cristianismo. Há muita conversa sobre Jesus e sobre viver a vida do Modo de Jesus. Mas Jesus chamou claramente pessoas para serem seus discípulos, isto é, aprendizes. Se alguém é aprendiz de Jesus, então pressupõe-se que esta pessoa esteja aprendendo com Ele. Seria muito estranho que alguém fosse aluno de Medicina e, depois de cinco anos de estudos, dissesse: “Não sei nada, não aprendi nada.” Certamente não se saberá tudo, mas algumas coisas são possíveis de se saber. Do mesmo modo, me parece estranho que alguém esteja trilhando o Caminho de Jesus, seja um aprendiz de Jesus, e não aprenda nada com Jesus.

Posso ser rotulado de moderno, racional, conservador, ultrapassado, fundamentalista, mas não tenho dúvidas sobre o fato de que “Jesus me ama, isso eu sei…” Como é que sei? “Porque a Bíblia diz assim.”

Reconheço não saber muitas coisas, mas tem coisas que posso afirmar com certeza “porque a Bíblia diz.”

E se posso estar certo do amor de Jesus “porque a Bíblia diz”, então posso estar certo de outras verdades também “porque a Bíblia diz.”

Fitafuso e o Cristianismo pagão

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No livro clássico Cartas de um Diabo a seu Aprendiz de C. S. Lewis, o diabo Fitafuso troca correspondências com seu jovem sobrinho Vermebile, dando-lhe instruções sobre como derrubar os cristãos. Fitafuso foi personagem fictício no livro de Lewis, mas seu tipo é real e ele foi apontado por Jesus como sendo o enganador mor.

Há alguns anos um amigo me recomendou a leitura de um livro chamado Cristianismo Pagão que ele havia lido e queria saber a minha opinião sobre o mesmo. Como não gosto de opiniar sobre algo que não li, decidi ler Cristianismo Pagão e também outros dois livros pelo mesmo autor: Reimagining Church (em 2008) e From Eternity to Here (no ano passado). Minha resposta depois de ter lido o primeiro livro foi de espanto sobre como qualquer pessoa familiarizada com o NT podia se deixar levar pelos erros cometidos pelos autores em algumas de suas afirmações. Creio que as intenções dos autores podem até terem sido boas (principalmente vindo de um contexto norte-americano), mas tal como a parábola oriental no prefácio do livro The Monkey and the Fish, de Dave Gibbons, a igreja precisa mais do que de boas intenções.

Esta semana Mark Driscoll publicou um boa crítica sobre Cristianismo Pagão em seu site The Resurgence. Driscoll cita bastante a crítica feita por Ben Witterington em junho e julho de 2008 sobre o mesmo livro. Ambas críticas fornecem amplo material (e referências) para uma avaliação sólida e saudável sobre o Cristianismo Pagão.

Driscoll corretamente aponta que:

O pior aspecto do livro é sua suposição de que a igreja institucional é o grande inimigo da igreja. Institucionalismo não é o inimigo da igreja. O problema mais significativo das igrejas, quer institucionais ou orgânicas, é considerar qualquer coisa menos que Satanás, pecado e morte como o grande inimigo da igreja. Isso resulta na minimização do Evangelho. Jesus não veio para libertar a humanidade das algemas das instituições, mas de Satanás, do pecado e da morte. Este livro [Cristianismo Pagão] foi edificado sobre uma questão secundária de prática e governo na igreja, em vez da questão central da tarefa da igreja, a proclamação do Evangelho. Não há dúvidas de que deve haver críticas sobre como a igreja “é igreja”, mas muito da crítica que Cristianismo Pagão faz da igreja contemporânea é sobre questões secundárias que são passíveis de debate (tanto historicamente como biblicamente) na melhor das hipóteses e totalmente falhas e falsas na pior da hipóteses. Não se engane; a igreja precisa de um revolução e reforma, mas não do tipo que os autores estão convocando. A igreja precisa desesperadamente de uma revolução completa do Evangelho e da centralidade de Deus.

Esta mesma visão quase que paranóica da instituição tem sido anunciada aqui no Brasil também. Trata-se errar o alvo. Há causas mais importantes como apontou Driscoll, em que a Igreja precisa enfocar. Talvez essa fobia da instituição seja até uma estratégia do Fitafuso para desviar a atenção dos seguidores de Cristo dos reais inimigos contra os quais eles deveriam estar lutando.

Falar de Deus

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[Deus]… é a mais carregada de todas as palavras humanas. Nenhuma tem sido tão aviltada, tão dilacerada. Precisamente por isso eu não posso renunciar a ela. Todas as gerações humanas fizeram passar sobre esta palavra o peso de suas angústias; esmagaram-na contra o solo; por isso ela jaz no pó, esmagada pelo peso de todas. As gerações dos homens, com suas divisões religiosas, dilaceraram a palavra: por ela mataram e por ela morreram; ela traz em si as marcas de todos eles, o sangue de todos eles. Onde poderia eu encontrar palavra igual a esta para designar o Altíssimo! Se usasse o mais puro e mais brilhante conceito do mais profundo tesouro dos filósofos, encontraria ali apenas uma imagem descompromissada, mas não a presença daquele a quem me refiro, daquele a quem as gerações dos homens honraram ou rebaixaram com todos os horrores da vida e da morte…
[Por isso] temos que respeitar aqueles que a rejeitam, por se rebelarem contra as injustiças e loucuras que tanto gostam de se apoiar na autorização de ‘Deus’; mas não podemos abandoná-la. É bem compreensível a proposta de muitos, de que durante algum tempo não se fale das ‘últimas coisas’, a fim de redimir as palavras maltratadas! Mas dessa forma elas não serão redimidas. Não podemos lavar a palavra ‘Deus’, nem podemos remendá-la; mas podemos levantá-la do chão, manchada e dilacerada como está, e erguê-la sobre um momento de grande preocupação.

- Martin Buber, citado por Hans Küng em O Princípio de Todas as Coisas, Editora Vozes, 2009.

O que é a Igreja?

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A igreja local é a comunidade de crentes regenerados que confessam Jesus Cristo como Senhor. Em obediência às Escrituras eles se organizam sob liderança qualificada, reunem-se regularmente para pregação e adoração, observam os sacramentos bíblicos do batismo e da Santa Ceia, são unificados pelo Espírito, disciplinados para santidade, e espalhados para cumprir o Grande Mandamento e a Grande Comissão como missionários ao mundo para a glória de Deus e sua alegria.

- Mark Driscoll e Gary Breshears em Vintage Church

Doutrina Vs. Vida?

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doctrine-jesus
Freqüentemente ouvimos pessoas dizendo que não é o que alguém crê e, sim, o que faz que tem importância. Trata-se de meia verdade, que, como acontece com as verdades apresentadas pela metade, chega a ser perigosa. É meia verdade porque, do ponto de vista cristão, o pensamento teológico não é nenhum fim em si mesmo. O cristianismo é doutrina que se propõe a ser vivida. Visa a resultar em ações. De forma que, se permanecer sempre como pensamento, torna-se algo até mesmo destituído de verdadeiro cristianismo e, portanto, fútil. Entretanto, acentue-se que se trata de meia verdade, pois, o que quer que o homem faça, tal comportamento estará em íntima correlação com o que pensa e com o que crê ser o valor último da existência. Sempre que o chamado homem prático se encontra diante de situações que lhe forçam a decidir quanto à melhor maneira de proceder, sente ser portador de alguma idéia implícita quanto ao que constitui um alvo a ser alcançado em tal circunstância, ou que valores se lhe impõem como devendo ser assegurados mediante o encontro das soluções cabíveis. Além disso, ele não poderá deixar de revelar algum conceito quanto aos meios mais recomendáveis pelos quais os valores serão alcançados. Tudo isso não passa de teologia, implícita ou explicitamente.

- William E. Hordeen em Teologia Contemporânea, Hagnos.

Teísmo(?) Aberto

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Há 5 anos aconteceu o Tsunami da Ásia, uma catastrofe que tirou a vida de 230 mil pessoas e deixou mais de 1 milhão de desabrigados nos 11 países que sofreram a devastação causada por ondas gigantes.

Inconformados com a tragédia de proporções bíblicas, alguns pastores e teólogos brasileiros começaram a questionar se Deus poderia realmente estar no controle do mundo e, ao mesmo tempo, permitir tanta morte e sofrimento. A onda do Tsunami trouxe consigo uma outra onda para os cristãos brasileiros: o teísmo aberto.

O texto abaixo apesar de breve, dá uma noção sobre o que é o teísmo aberto, sua premissa básica e para onde, em última instância, ele conduz.

Denominei essa postagem de Teísmo seguido de um sinal de interrogação porque quanto mais leio textos daqueles que abraçaram essa visão sobre Deus e o homem, mais parece que estou lendo conceitos bem mais próximos do Deísmo do que do Teísmo propriamente dito.

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Numa série de livros, Clark Pinnock e John Sanders tem promovido uma visão de um Deus finito e limitado em seu poder e conhecimento. Eles afirmam que se o homem tem livre-arbítrio de verdade, então Deus não pode ordenar nem conhecer os eventos que irão acontecer no futuro. O futuro está em aberto, no sentido de ser tanto criação do homem como de Deus. Como Pinnock escreve:

A idéia da responsabilidade moral exige que acreditemos que as ações não são determinadas, nem interna nem externamente. Uma importante implicação desta forte definição de livre-arbítrio é que a realidade permanece, em certa extensão, aberta, e não fechada. Isso significa que uma novidade genuína pode aparecer na história, que não pode ser prevista por ninguém, nem mesmo por Deus. (…) Tal conceito implica em que o futuro realmente está em aberto, e não disponível à exaustiva presciência nem mesmo da parte de Deus. Fica bem claro que a doutrina bíblica do livre-arbítrio humano exige de nós que reconsideremos a perspectiva convencional da onisciência de Deus.

Em outras palavras, o que se infere daí é que quase a totalidade da tradição cristã, incluindo aí o arminianismo clássico, desde o primeiro século até agora, tem afirmado uma noção equivocada quanto à natureza de Deus – mas, felizmente, no fim do século XX, Pinnock, Sanders e outros conseguiram finalmente entender a verdade! Que essa postura é inacreditável fica evidente, ao se observar que a Escritura é clara ao refutar tal ensino.  (…) Um dos fatores que distingue o Deus verdadeiro de Israel dos falsos deuses é precisamente o fato de que Deus conhece o futuro absolutamente e, assim, é capaz de predizer o que acontecerá com certeza (Is 46.10). Os planos de Deus não são frustrados (Sl 33.10-11), porque ele faz tudo segundo o conselho da sua vontade (Ef 1.11).

O problema está no fato de que, ao definir o livre-arbítrio como uma causa totalmente indeterminada, Pinnock criou uma contradição que não existe na Bíblia. (…)  A Bíblia põe a livre agência do ser humano e a providência de Deus lado a lado, sem a menor indicação de que haja contradição entre as duas. Isso porque a liberdade da Criação não implica sua autonomia diante do Criador, como Pinnock afirma. Além disso, já vimos que, ao contrário do que pensa Pinnock, a responsabilidade humana não está vinculada com a noção libertária do livre arbítrio. Isso é um conceito filosófico que é imposto ao texto bíblico, mas que não surge do texto em si.

Os problemas do teísmo aberto são muitos. Roger Nicole, numa resenha que escreveu sobre um dos principais textos deste movimento, The Openness of God, levanta vários problemas e perguntas a respeito do teísmo aberto.

Primeiro, ele nota que o teísmo aberto não é consistente com a existência de profecias detalhadas nas Escrituras. “Como Deus poderia saber que Judas trairia Jesus por 30 moedas de prata, quando o pagamento e aceitação de tal soma  dependiam de decisões imprevisíveis dos principais sacerdotes e de Judas?” De fato, uma profecia, como a crucificação de Jesus, não exige apenas que Deus conheça o que acontecerá no futuro, mas que ele também tenha controle soberano sobre cada decisão livre de todos os agentes que participaram nos eventos, como de Pôncio Pilatos e dos soldados que lançaram sortes sobre a túnica de Jesus. Mas, como Nicole afirma, se Deus nem soubesse com certeza que Adão cairia em pecado, certamente ele não poderia “prever a morte de Cristo antes da fundação do mundo” (1 Pe 1.20; Ap 13.8; 17.8). A visão de Pinnock e Sanders, segundo Nicole, faz com que Simeão tivesse mais conhecimento do que Deus (Lc 2.35).

Roger Nicole também está correto ao indicar a futilidade da oração, se o teísmo aberto fosse verdadeiro. “O que dá direito aos autores [da obra The Openness of God] a aconselharem Deus em suas orações? O que eles sabem que Deus não sabe?” E por que perder tempo pedindo que Deus intervenha para salvar pecadores? Já que Deus não interfere com o livre-arbítrio das pessoas, ele não poderá fazer nada para influenciar a pessoa para se tornar cristã. Sem conhecer o futuro, Deus nem pode saber como as pessoas reagiriam a qualquer influência colocada em seu caminho. Deus estaria completamente desamparado diante da autonomia do pecador.

Concordamos com a avaliação de Nicole. O caminho para aqueles que têm abraçado o teísmo aberto parece ser o completo abandono da fé cristã histórica. Uma por uma, as outras doutrinas centrais da fé cristã serão abandonadas, ou por estes autores, ou por seus discípulos, exatamente como já aconteceu no passado. O caminho para o liberalismo e, depois, para o naturalismo, começa com a doutrina da autonomia do homem. A conclusão dele está correta:

Não é muito difícil prever para onde estas pessoas se moverão, se elas seguirem a lógica de sua própria posição. Eles brevemente abandonarão a doutrina cristã do pecado original, porque ela será vista como incompatível com o livre-arbítrio de todo ser humano que entra neste mundo (conforme Pelágio). O passo lógico seguinte é renunciar a expiação substitutiva penal, como tem freqüentemente acontecido com o liberalismo e até mesmo no arminianismo. Quando a expiação se vai, não há nenhuma grande necessidade de se manter a deidade de Cristo, e, quando isto se vai, geralmente se descarta a doutrina da Trindade. Então, a pessoa estará em pé de igualdade com o socinismo, que é o último passo antes da total negação do cristianismo. Na outra direção, a sedução da teologia do processo, que os presentes autores são ávidos em repelir, indubitavelmente exercerá algum poder sobre suas mentes. Quando alguém lê este livro, tem a impressão de que muitas vezes algumas páginas foram escritas por John Hick.

Para concluir, precisamos notar que alguns defensores do teísmo aberto têm afirmado que este seria uma recuperação da cosmovisão judaica, afastando a fé cristã das influências da filosofia grega. Mas é necessário perguntar: que cosmovisão judaica? Ao se estudar a literatura judaica antiga, o que fica evidente, por um lado, é o desprezo completo destes pela cultura helênica e, por outro lado, a ênfase na onipotência absoluta de Deus. Basta um pouco de familiaridade com alguns textos de Efraim Urbach, Akiba, Tanchuma bar Abba, Hanima, Joshua ben Hananiah, entre outros, para perceber esta diferença. A idéia básica do antigo judaísmo é que Deus dirige todos os atos dos homens rumo ao fim que ele mesmo estabeleceu. E é nesse ponto que o judaísmo antigo foi mais acentuadamente contrastado com o paganismo. No fim, se descobre que não existe nada novo nas atuais posições dos defensores do teísmo aberto que não tenha sido ensinado no passado por Heráclito, por exemplo, ou, na atualidade, pelos adeptos da teologia do processo.

(Franklin Ferreira e Alan Myatt em Teologia Sistemática, Vida Nova, 2007)

Missão Integral (1)

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Nestes últimos 6 meses tenho lido (e revisto) livros e artigos sobre a chamada “missão integral”. Em meu entendimento, a única missão pela qual vale a pena viver (e, se necessário for, morrer) é a missio Dei. Estou cansado das reflexões e comentários sobre a missão integral que não passam de uma releitura do Evangelho Social ou da Teologia da Libertação, por parte de evangélicos desiludidos com a atuação da Igreja. É preciso mais do ativismo e engajamento social e político para mudar o mundo. O texto abaixo de René Padilla serve como um lembrete disso.

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Sem oração não há missão cristã. Poderá haver proselitismo religioso, obras e ações de caridade, ou tarefas missionárias, mas não há missão cristã.
A missão cristã é primordialmente missio Dei (missão de Deus). Nasce no coração de Deus, atua na história pelo poder do Espírito Santo, e visa a exaltação de Jesus Cristo como Senhor do universo e de cada área da vida humana, para a glória de Deus. Em síntese, missão cristã começa e termina em Deus.
Sob esta perspectiva, todo o trabalho missionário das igrejas somente tem sentido quando se inspira no amor de Deus, se realiza em seu nome e busca sua glória.
(…) O ativismo é ação sem oração… a oração é mais importante que a ação. Especialmente no mundo evangélico, é difícil aceitar que seja assim. Condicionados como estamos pela cultura do lucro, vivemos como aqueles que pensam que a salvação do mundo depende inteiramente do esforço humano. Por isso, frequentemente reduzimos a oração a um rito que dá a nosso ativismo um colorido religioso. Sabemos pouco sobre o que significa a ação em função da oração, a ação em resposta ao chamado de Deus para colaborar na realização de seu propósito para a vida humana em todas as suas dimensões. (…) Como diz Jacques Ellul:
Todo radicalismo adicional, o de conduta, o do estilo de vida e o da oração, só pode resultar da ruptura na priorização da oração. Principalmente porque nossa sociedade tecnológica está totalmente envolvida com a ação, a pessoa que entra em seu quarto para orar é um verdadeiro radical. Todas as outras coisas dependerão disso. Essa atitude na sociedade, que é também um ação sobre esta sociedade, e muito mais do que o envolvimento concreto, ao qual também não renuncia.

(C. René Padilla, O que é Missão Integral, Editora Ultimato, 2009)

Enfrentando o Relativismo

posted by Sandroin Emergente, Missional, TeologiaComments (2)

Na postagem anterior coloquei uma citação de Lesslie Newbigin citada por Tim Keller em seu magnífico livro A Fé na Era de Ceticismo. Depois de ter postado, decidi pegar minha empoeirada cópia do livro de Newbigin e verificar de onde veio a citação original. Abaixo está o parágrafo completo (a pequena diferença na tradução deve-se ao fato de que o anterior foi copiado do livro e este foi traduzido diretamente por mim).

>Não é fácil resistir a onda contemporânea de pensamento e sentimento que parece varrer-nos irresistivelmente na direção de uma aceitação do pluralismo religioso e longe de qualquer afirmação confiante da soberania absoluta de Jesus Cristo. Não é fácil desafiar a estrutura de plausabilidade dominante. É mais fácil se conformar. O domínio impressionante do relativismo na cultura contemporânea torna suspeita qualquer confissão firme de fé. Para a afirmação feita pelos cristãos sobre Jesus, a resposta é: “Sim, mas outros fazem afirmações semelhantes sobre os símbolos de sua fé; por que Jesus e não alguém ou algo mais?” Assim a relutância em acreditar em algo conduz a um estado mental no qual o Zeitgeist se torna a força dominante. A declaração verdadeira de que nenhum de nós pode captar toda a verdade torna-se uma desculpa para desqualificar qualquer afirmação de se ter uma pista válida para pelo menos o início do entendimento. Há uma aparência de humildade no protesto de que a verdade é muito maior do que qualquer um de nós possa captar, mas se isso for usado para invalidar toda afirmação de discernir a verdade, é de fato, uma reivindicação arrogante de um tipo de conhecimento que é superior ao conhecimento que está disponível a seres humanos falíveis. Temos que perguntar: “Como você sabe que a verdade sobre Deus é maior do que o que nos foi revelado em Jesus?” Quando Samartha ou outros nos perguntarem: “Que fundamento você pode mostrar para considerar a Bíblia como autoridade singular, uma vez que outras religiões também tem seus livros sagrados?”, temos que retornar com a pergunta: “Qual é o ponto de vantagem a partir do qual você reivindica a capacidade de relativizar todas as reivindicações absolutas que essas diferentes escrituras fazem?” Que verdade mais elevada você possui que o torna capaz de reconciliar declarações sobre Jesus diametralmente opostas na Bíblia e no Alcorão? Ou você está, de fato, nos aconselhando que é melhor não acreditar em nada?” Quando a resposta for: “Nós queremos unificar a humanidade para que possamos ser salvos de um desastre,” devemos dizer: “Nós também queremos essa unidade e, portanto, buscamos a única verdade pela qual a humanidade pode tornar-se uma.” Esta verdade não é uma doutrina ou cosmovisão, nem mesmo uma experiência religiosa; certamente não é achada por repitições abstratas de substantivos como justiça e amor; ela está no homem Jesus Cristo sobre quem Deus estava reconciliando o mundo. A verdade é pessoal, concreta, histórica.

(The Gospel in a Pluralist Society, pp. 169-170)

Arrogância travestida de humildade

posted by Sandroin Emergente, TeologiaNo Comments

Há uma aparência de humildade na afirmação de que a verdade é muito maior do que a capacidade de qualquer um de nós de apreendê-la, mas quando usada para invalidar todas as reivindicações de conhecer a verdade, ela é, com efeito, uma arrogante reivindicação de um conhecimento superior a (todos os outros)… Precisamos indagar: “Qual é a perspectiva [absoluta] a partir da qual você reivindica ser capaz de relativizar todas as reivindicações absolutas que essas Escrituras distintas fazem?”

- Lesslie Newbigin em The Gospel in a Pluralist Society, citado por Tim Keller em A Fé na Era de Ceticismo, Campus 2009.