Archive for the 'Teologia' Category
2009
N.T. Wright e o cisma pela ordenação de gays
N. T. Wright, o Bispo Anglicano de Durham, Inglaterra, é também considerado uma das maiores autoridades em Novo Testamento da atualidade. Tom Wright é autor de dezenas de livros (em um deles ele debate com o liberal John Dominic Crossan sobre a realidade da ressurreição), mas parece que seus escritos ainda são pouco conhecidos por aqui. A Editora Ultimato publicou dois de seus livros nos últimos dois anos (Simplismente Cristão e O Mal e a Justiça de Deus), tem um no prelo (Surpreendido pela Esperança) prometido ainda para este ano e espero que continue publicando outros textos de N.T. Wright. Eu já li vários de seus livros, ouvi algumas aulas e palestras proferidas por ele e, cada vez mais, tenho apreciado a clareza e simplicidade de suas colocações.
Por esta razão, ao ver o seu nome associado a um assunto que tem levantado tanta discórdia e discussão em nossos dias, fiquei tremendamente curioso em ler o que ele tem a dizer sobre o assunto. O artigo escrito por Tom Wright foi publicado no The Times em 15 de julho passado e diz respeito a ruptura que a ordenação de ministros que sejam homessexuais praticantes está causando na Igreja Anglicana (mais precisamente entre a Igreja Episcopal Anglicana dos EUA e os anglicanos no resto do mundo).
A posição de N.T. Wright não poderia ser mais clara quanto a este assunto:
Nossos supostamente genes egoístas desejam uma variedade de possibilidades sexuais. Mas os mestres Judeus, Cristãos e Muçulmanos tem sempre insistido que um casamento por toda a vida entre homem e mulher é o contexto apropriado para o relacionamento sexual. Isto não é (como frequentemente se tem sugerido) uma regra arbitrária, de tonalidades dualistas e com a intenção de se castrar a alegria. É um reflexo estrutural profundo da crença em um Deus criador que entrou em uma aliança tanto com sua criação como com seu povo (que leva adiante seus propósitos para esta criação).
O Paganismo antigo e moderno tem sempre visto esta ética e esta crença como sendo ridículas e inacreditável. Mas o testemunho bíblico não está nem um pouco confinada, como um líder estridente sugeriu ontem no The Times, a uns poucos versos de São Paulo. A denúncia severa de Jesus da imoralidade sexual certamente levava consigo, para os seus ouvintes, uma rejeição implícita clara de todo comportamento sexual fora da monogamia heterosexual. Isto não é uma questão de “resposta privada às Escrituras”, mas o ensino uniforme de toda a Bíblia, de Jesus e de toda a tradição cristã.
O apelo à justiça como uma forma de cortar o nó ético em favor de incluir homossexuais ativos no ministério cristão simplesmente clama pela pergunta. Ninguém tem um direito de ser ordenado: é sempre um dom da pura e imerecida graça. O apelo também deturpa seriamente a própria noção de justiça, não apenas na tradição cristã de Agostinho, Aquinas e outros, mas nas discussões filosóficas mais amplas desde Aristóteles a John Rawls. Justiça nunca significa “tratar a todos do mesmo modo”, mas “tratar as pessoas de maneira correta”, o que envolve fazer distinções entre diferentes pessoas e situações. Justiça nunca significou “o direito de dar expressão ativa a qualquer e todo desejo sexual.”
Devemos insistir, também, na distinção entre inclinação e desejo de um lado e a atividade de outro – uma distinção regularmente obscurecida por referências a “clero homossexual” e assim por diante. Todos nós temos de todos os tipos de inclinações e desejos profundamente enraízados. A questão é, o que devemos fazer com eles? Uma das orações no Livro Comum roga a Deus para que possamos “amar o que Tu ordenaste e desejar o que Tu prometeste.” Isto é sempre difícil, para todos nós. É mais fácil pedir a Deus para ordenar aquilo que nós já amamos e prometer aquilo que nós já desejamos. Mas muito menos como o desafio do Evangelho.
A questão não é apenas para os Episcopais, Anglicanos e Luteranos norte-americanos (que acabaram de fazer seu concílio em Minneapolis para tratar deste mesmo tema). Este assunto tem o potencial de se tornar num grande divisor para a Cristandade neste século. E como temos visto aqui no Brasil, à medida em que, de um lado, se apela para o Congresso buscando defender “seus direitos”, de outro, na comunidade cristã, começam a surgir expressões que nem sempre refletem o pensamento do Bispo de Durham sobre como a pureza sexual é apresentada nas Escrituras (não apenas em alguns versos isolados, mas em toda a Bíblia, de Gênesis a Apocalipse). Mesmo no seio da comunidade cristã, tem se tornado cada vez mais comum rotular qualquer pessoa que afirme o ensino bíblico da monogamia heterosexual como sendo fundamentalista, moralista, legalista, etc.
Isso me faz lembrar de duas músicas. A primeira é um côro pentecostal que ouvia em minha infância: “Os dias são de trevas, sem poder o crente cai…” A outra se tornou hino de uma geração quando Bob Dylan anunciou as palavras de Jesus ao cantar The times-they are a-changin’ (os tempos estão mudando). Resta saber onde estão os que afirmarão o restante do verso: “mas minhas palavras não passarão”?
2009
Graça
Graça assume a culpa
Cobre a vergonha
Remove a mancha
Poderia ser seu nome
Graça, é o nome para uma menina
Também é um pensamento que mudou o mundo
E quando ela anda na rua
Você pode ouvir a melodia
A Graça encontra bondade em tudo
Graça tem um jeito de andar
Não como uma modelo nem como um bêbado
Ela tem tempo para falar
Ela viaja para fora do karma
Ela viaja para fora do karma
Quando ela vai trabalhar
Você pode ouvir a melodia
A Graça encontra beleza em tudo
Graça carrega um mundo em seus quadris
Não há taça de champanhe para seus lábios
Não há giros ou pulos entre os dedos
Ela carrega uma pérola em perfeitas condições
O que antes era dor
O que antes era atrito
O que deixava uma marca
Não fere mais
Porque a Graça cria a beleza
A partir das coisas feias
A Graça cria a beleza a partir das coisas feias
(Tradução livre da música Grace do U2)
2009
Jesus IS love

“Então, Ele se levantou e olhou para mim como as estações do ano olhariam para o campo, e sorriu. Ele tornou a dizer:
- Todos os homens te amam por si próprios. Eu te amo por ti mesma.
E assim Ele se foi.”
Maria Madalena em Jesus o Filho do Homem de Kahlil Gibran (1938)
2009
O Celeste Porvir
Nos últimos 20 anos tenho percebido uma tendência no evangelicalismo brasileiro no sentido de minimizar (ou até mesmo eliminar por completo) a mensagem da Volta de Cristo e da esperança da Igreja no mundo porvir. Os carismáticos e neo-pentecostais, com sua ênfase na prosperidade, saúde e uma vida em que a fé garante imunidade contra qualquer tipo de sofrimento, promovem o céu na terra e, evidentemente, conduzem as pessoas a ficarem bem confortáveis com a vida aqui mesmo, sem a necessidade de se pensar no além. Por outro lado, me parece que cada vez mais evangélicos mais tradicionais também estão deixando de lado a crença no Advento da Segunda Vinda, desta vez com a mensagem da missão integral (e eu apoio totalmente a missão integral), como se a Igreja fosse responsável por produzir o céu na terra através da ação social – e fica só nisso, eliminamos a pobreza, estabelecemos a paz por meio do politicamente correto, preservamos o planeta e todos ficam felizes para sempre aqui mesmo na terra.
Creio que tanto a postura escapista apontada por Antonio Gouvêa em seu trabalho usado como título desta postagem e que discorre sobre a inserção do protestantismo no Brasil – postura na qual eu cresci nas décadas de 1970-80 – como a posição de descaso atual (Quando foi a última vez que você ouviu um sermão sobre a Segunda Vinda? Falar sobre a Segunda Vinda em alguns círculos é correr o risco de ser taxado de retrógrado.) são erros que a Igreja comprometida com a mensagem de Jesus deve evitar. Foi pensando nisso que li o texto de A. W. Tozer com o título de O Mundo Vindouro, do qual transcrevo abaixo alguns parágrafos. Tozer escreveu isso há mais de 50 anos, mas suas palavras soam como se tivessem sido escritas hoje.
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Tem-se citado como defeito do cristianismo, que ele se preocupa mais com o mundo vindouro do que com o mundo que agora existe, e algumas almas tímidas se agitam procurando defender a fé cristã contra essa acusação, como a galinha defende os seus pintinhos das garras do gavião.
Tanto o ataque como a defesa são desperdiçados. Ninguém que sabe o que o Novo Testamento tem em vista, se aborrecerá com a acusação de que o cristianismo pertence a outro mundo. É claro que é assim, e é precisamente nisto que reside o seu poder.
Na última metade de século, o cristianismo foi abalado pelas críticas de certos filósofos sociais. Estes cavalheiros presumiram a bondade básica do presente sistema mundial. Com uns poucos melhoramentos aqui e ali, uma sociedade próspera, saudável e pacífica poderia ser estabelecida aqui mesmo, nesta terra, e fazê-lo, dizem eles, é todo o dever do homem.
Estes homens foram suficientemente observadores para ver que sua concepção de um mundo permanentemente pacífico era contrária aos ensinos do Novo Testamento; assim, muito naturalmente, muitos líderes cristãos influentes não foram bastante astutos para notar a contradição entre os ipse dixit de Cristo e as doutrinas dos sonhadores sociais e, aflitos com as acusações lançadas contra eles pelos pensadores do mundo unificado, abandonaram a sua posição cristã e correram atrás dos filósofos sociais, gritando: “Eu também, eu também”, num frenético esforço para provar que o mundo tinha entendido mal o cristianismo do princípio ao fim. É claro que, ao fazer isso, eles renunciaram a tudo que é único na fé cristã e adotaram um cristianismo enfraquecido, que é pouco mais do que um fantasma da fé uma vez por todas entregue aos santos.
Que ninguém peça desculpas pela vigorosa ênfase que o cristinismo dá à doutrina do mundo vindouro. É justamente aí que está a sua imensa superioridade às demais coisas dentro de toda a esfera do pensamento e da experiência dos homens. Quando Cristo ressurgiu da morte e ascendeu ao céu, estabeleceu para sempre três fatos, a saber, que este mundo está condenado à dissolução final, que o espírito humano subsiste além do túmulo e que existe realmente um mundo por vir.
A igreja está sendo constantemente tentada a aceitar este mundo como o seu lar, e às vezes ela dá ouvidos às adulações daqueles que desejam seduzi-la para os seus próprios fins. Mas, se for sábia, considerará que se acha no vale, entre as altaneiras montanhas da eternidade passada e eternidade futura. O passado se foi para sempre, e o presente vai passando veloz como a sombra no relógio de sol de Acaz. Mesmo que a terra continuasse a existir por um milhão de anos, nenhum de nós poderia estar aqui para desfrutá-la. Faremos bem em pensar no prolongado amanhã.
Todos nos dirigimos rumo ao mundo vindouro. Como é indescritivelmente maravilhoso saber que nós cristãos temos um de nossa espécie que foi na frente preparar um lugar para nós! Esse lugar será num mundo ordenado divinamente, acima e além da morte e da separação, onde não há nada que possa causar dano ou medo.
(do livro De Deus e o Homem por A. W. Tozer, Editora Mundo Cristão, 1981, páginas 106-108)
2009
Jesus quer salvar os cristãos
A editora Vida publicou o mais recente livro de Rob Bell, Jesus Quer Salvar os Cristãos. Este é o seu terceiro livro, sendo o primeiro Velvet Elvis (publicado no Brasil como Repintando a Igreja) e o segundo Sex God (que está no prelo pela própria editora Vida). Eu escutei o audiobook logo que o livro foi lançado e li a tradução em português essa semana. Este é, em minha opinião, o melhor livro de Rob Bell até agora (ele o escreveu em parceria com Don Golden, seu companheiro de ministério na igreja Mars Hill). Abaixo estão algumas frases sublinhadas por mim em minha leitura do livro:
Um cristão deveria sentir-se muito nervoso quando bandeira e Bíblia começam a se dar as mãos. Este não é um romance que queremos encorajar. (p. 21)
Os Dez Mandamentos são um novo modo de ser humano, um novo modo de viver e se mover no mundo, em aliança com o Deus que ouve o clamor dos oprimidos e os liberta. (p.40)
Deus não tem nada contra comer, beber e possuir coisas. Mas, quando essas coisas são adquiridas à custa da satisfação das necessidades básicas dos outros, aí sim, os discursos apaixonados dos profetas entram em ação. (p. 53)
Nossas lágrimas são sagradas. Regam o solo em torno dos nossos pés para que coisas novas possam brotar. (p. 61)
…é tão perigoso quando uma igreja se torna conhecida como contemporânea, descolada e moderna. O novo homem não é um modismo. (p 179)
Bom é participar de uma igreja que se reuniu e olhar à sua volta, pensando: “O que esse grupo de pessoas pode ter em comum?”. (p. 180)
A autoridade que a igreja exerce na cultura não procede do quanto está certa ou é legal ou barulhenta, nem do quanto está convencida de sua superioridade doutrinária. (p. 184)
Um ponto positivo é que este é o livro de Rob Bell que mais interage com as Escrituras, e isso é bom numa época que a Bíblia tem perdido centralidade nos diálogos emergentes. A interpretação que Bell faz da narrativa bíblica fica um pouco a desejar, no entanto, e, apesar de logo de início ele ter apresentado o livro como “um livro sobre um livro”, deixar Abraão de fora do plano de Deus para abençoar as nações é algo totalmente incompreensível para mim. Este não é um livro de panorama bíblico, muito embora, para quem não está familiarizado com a narrativa bíblica, servirá como uma introdução.
Seguindo a tendência pós-moderna de se esquivar do escândalo da cruz, ela não é vista em Jesus Quer Salvar Cristãos do ponto de vista da redenção por meio da morte substitutiva de Cristo, mas como demonstração de paz por meio do auto-sacrifício e não-violência (seria isso uma influência da teologia liberal de Crossan, dentre outros?).
Eu recomendo a leitura de Jesus Quer Salvar os Cristãos como um panorama sobre o coração de Deus com relação ao pobre e oprimido. Para quem quiser se aprofundar nesse tema recomendo a leitura de Cristãos Ricos Em Tempos de Fome de Ron Sider (Sinodal, 1984) e O Poder da Justiça de John Perkins (Editora Missão, 1990). Você vai ter que garimpar para encontrar estes livros, mas valerá a pena…
2009
Repensando a Oração
“If there are millions down on their knees, among the many can You still hear me?”
(se há milhões ajoelhados, dentre tantos ainda podes me ouvir?)
- Michael W. Smith
Recentemente eu estava falando com alguém sobre um texto que ambos lemos. O autor do texto dizia que se você orar pedindo a Deus para abrir as portas de emprego para você ou alguém que você conheça, sua oração é ilícita. Lembro-me que minha primeira sensação ao ler o texto foi sentir-me imaturo, culpado, inexperiente… pagão. Naquele mesmo dia um amigo próximo que estava desempregado havia me pedido orações e eu tinha orado justamente por isso, inclusive usando as mesmas palavras da “oração ilícita” daquele texto. Então fiquei pensando sobre isso e cheguei à conclusão de que, por mais que a intenção do autor tenha sido boa ao denunciar as relações de barganha com Deus e os clichês vazios da religiosidade popular, seu texto está equivocado neste ponto específico da oração.
Se eu estivesse desempregado e meu melhor amigo pudesse me ajudar a encontrar um emprego, indicando uma vaga para mim na empresa onde ele trabalha, será que eu seria sincero em meu relacionamento se não falasse a ele sobre minha necessidade de emprego? Será que ele ficaria feliz em saber que eu estava passando necessidade e não tinha contado nada a ele? Seria esse um relacionamento próximo, de amigos de verdade? Ou será que minha hesitação em contar minhas necessidades para ele poderia ser vista como uma expressão de orgulho de minha parte?
Estas são algumas das perguntas que vieram à minha mente ao refletir sobre aquele texto da “oração ilícita” por emprego. O tipo de relacionamento com Deus proposto no texto torna-se completamente superficial (por mais que a intenção do autor tenha sido exatamente o contrário) ao não envolver todas as áreas da minha vida – inclusive minhas necessidades pessoais.
Não pretendo de maneira alguma fazer aqui um tratado sobre oração (há muitos bons textos por aí) e nem acusar o autor do texto de heresia (não se trata de uma heresia, apenas de um equivoco ou “escorregão”). Esta reflexão é uma resposta a mim mesmo e, talvez, àqueles que como eu possam ter se sentido culpados por orar por coisas tão insignificantes como… emprego.
Reconheço que oração é verdadeiramente um mistério. Afinal, por que orar se Deus já sabe tudo a nosso respeito? Para mim, a oração só faz sentido no contexto de relacionamento. Me parece que foi isso que Jesus quis ensinar aos seus discípulos quando disse-lhes que eles deveriam iniciar suas orações com a certeza de que estariam se dirigindo a alguém que é Abba (Papai). Ou seja, pressupõe-se um relacionamento entre aquele que ora e Deus (que além de ser Pai, é também Santo e Soberano Rei). Orar é se relacionar com Deus que habita nas alturas (Pai nosso que estás nos céus!), mas que também habita no coração do contrito e quebrantado. Orar é expressar fé não somente em que Deus existe (o Deísmo crê assim também), mas que Ele recompensa aqueles que o buscam (Ele se comunica, responde e intervêm).
Com certeza há milhões de desempregados ao redor do mundo. Mas este fato de maneira alguma torna minha oração por emprego ilícita. Ao contrário, quando oro por emprego estou reconhecendo minha dependência de Deus para que eu possa encontrar um emprego e sustentar minha família. E creio que Deus recompensa minha fé, embora nem sempre eu receba o emprego que estou desejando ou no momento em que espero recebê-lo.
É verdade que não devemos ser como crianças mimadas e buscar a Deus somente por nossas necessidades físicas e materiais, todavia não há nada de ilícito em orar por elas. A oração modelo do Pai Nosso nos ensina a buscar o Reino em primeiro lugar, mas demonstra que Deus também se interessa em ouvir-nos sobre a nossa necessidade de subsistência diária (dá-nos hoje o nosso pão de cada dia) e também sobre nossa necessidade de proteção (livra-nos do mal). Seguindo o raciocínio daqueles cuja fé é interpretada à luz das calamidades (e não o contrário como eu acredito que deveria ser), nem sequer deveríamos orar pelo pão de cada dia, visto que bilhões de pessoas ao redor do mundo passam fome. Será que Jesus estava equivocado quando ensinou seus discípulos a orar assim? Talvez ele não soubesse que um dia haveria bilhões de famintos… Mas ainda que isso fosse verdade (não creio que seja), haviam muitos contemporâneos de Jesus famintos. Por quê, então, orar por pão numa época em que muitos passam fome? Por que orar por emprego numa época de desemprego crescente? Por que orar por cura quando há tantos doentes morrendo? Por que, simplesmente, orar?
Creio que a resposta só pode ser encontrada por aqueles que entendem que oração é relacionamento com Deus. Um Deus que é Pai e que tem prazer em ouvir Seus filhos – muito embora Ele já saiba de todas as suas necessidades.
Você precisa de emprego, provisão, sabedoria, cura, etc.? O conselho das Escrituras é: Não fique ansioso; mas em tudo, pela oração e súplica [de olhos abertos ou fechados, em voz alta ou em silêncio], e com ação de graças, apresente seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o seu coração e a sua mente em Cristo Jesus.
2009
C.S. Lewis sobre o sexo
O texto abaixo sobre o cristão e o sexo foi escrito por C. S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples (Editora Martins Fontes). É um pouco longo para um blog, mas vale a pena ser lido caso você ainda não tenha lido o livro.
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A castidade é a menos popular das virtudes cristãs. Porém, não existe escapatória. A regra cristã é clara: “Ou o casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou a abstinência total.” Isso é tão difícil de aceitar, e tão contrário a nossos instintos, que das duas, uma: ou o cristianismo está errado ou o nosso instinto sexual, tal como é hoje em dia, se encontra deturpado. E claro que, sendo cristão, penso que foi o instinto que se deturpou. (…)
Dizem que o sexo se tornou um problema grave porque não se falava sobre o assunto. Nos últimos vinte anos, não foi isso que aconteceu. Todo o dia se fala sobre o assunto, mas ele continua sendo um problema. Se o silêncio fosse a causa do problema, a conversa seria a solução. Mas não foi. Acho que é exatamente o contrário. Acredito que a raça humana só passou a tratar do tema com discrição porque ele já tinha se tornado um problema. Os modernos sempre dizem que “o sexo não é algo de que devemos nos envergonhar”. Com isso, podem estar querendo dizer duas coisas. Uma delas é que “não há nada de errado no fato de a raça humana se reproduzir de um determinado modo, nem no fato de esse modo gerar prazer”. Se é isso o que têm em mente, estão cobertos de razão. O cristianismo diz a mesma coisa. O problema não está nem na coisa em si, nem no prazer. Os velhos pregadores cristãos diziam que, se o homem não tivesse sofrido a queda, o prazer sexual não seria menor do que é hoje, mas maior. Bem sei que alguns cristãos de mente tacanha dizem por aí que o cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coisas intrinsecamente más. Mas estão errados. O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo — que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus tomou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no Paraíso e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia. O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião; e quase todos os grandes poemas de amor foram compostos por cristãos. Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente. Mas é claro que, quando as pessoas dizem “o sexo não é algo de que devemos nos envergonhar”, elas podem estar querendo dizer que “o estado em que se encontra nosso instinto sexual não é algo de que devemos sentir vergonha”.
Se é isso que querem dizer, penso que estão erradas. Penso que temos todos os motivos do mundo para sentir vergonha. Não há nada de vergonhoso em apreciar o alimento, mas deveríamos nos cobrir de vergonha se metade das pessoas fizesse do alimento o maior interesse de sua vida e passasse os dias a espiar figuras de pratos, com água na boca e estalando os lábios. Não digo que você ou eu sejamos individualmente responsáveis pela situação atual. Nossos ancestrais nos legaram organismos que, sob este aspecto, são pervertidos; e crescemos cercados de propaganda a favor da libertinagem. Existem pessoas que querem manter o nosso instinto sexual em chamas para lucrar com ele; afinal de contas, não há dúvida de que um homem obcecado é um homem com baixa resistência à publicidade. Deus conhece nossa situação; ele não nos julgará como se não tivéssemos dificuldades a superar. O que realmente importa é a sinceridade e a firma vontade de superá-las.
Para sermos curados, temos de querer ser curados. Todo aquele que pede socorro será atendido; porém, para o homem moderno, até mesmo esse desejo sincero é difícil de ter. E fácil pensar que queremos algo quando na verdade não o queremos. Um cristão famoso, de tempos antigos, disse que, quando era jovem, implorava constantemente pela castidade; anos depois, se deu conta de que, quando seus lábios pronunciavam “ó Senhor, fazei-me casto”, seu cotação acrescentava secretamente as palavras: “Mas, por favor, que não seja agora.” Isso também pode acontecer nas preces em que pedimos outras virtudes; mas há três motivos que tornam especialmente difícil desejar — quanto mais alcançar – a perfeita castidade.
Em primeiro lugar, nossa natureza pervertida, os demônios que nos tentam e a propaganda a favor da luxúria associam-se para nos fazer sentir que os desejos aos quais resistimos são tão “naturais”, “saudáveis” e razoáveis que essa resistência é quase uma perversidade e uma anomalia. Cartaz após cartaz, filme após filme, romance após romance associam a idéia da libertinagem sexual com as idéias de saúde, normalidade, juventude, franqueza e bom humor. Essa associação é uma mentira. Como toda mentira poderosa, é baseada numa verdade – a verdade reconhecida acima de que o sexo (à parte os excessos e as obsessões que cresceram ao seu redor) é em si “normal”, “saudável” etc. A mentira consiste em sugerir que qualquer ato sexual que você se sinta tentado a desempenhar a qualquer momento seja também saudável e normal. Isso é estapafúrdio sob qualquer ponto de vista concebível, mesmo sem levar em conta o cristianismo. A submissão a todos os nossos desejos obviamente leva à impotência, à doença, à inveja, à mentira, à dissimulação, a tudo, enfim, que é contrário à saúde, ao bom humor e à franqueza. Para qualquer tipo de felicidade, mesmo neste mundo, é necessário comedimento. Logo, a afirmação de que qualquer desejo é saudável e razoável só porque é forte não significa coisa alguma. Todo homem são e civilizado deve ter um conjunto de princípios pelos quais rejeita alguns desejos e admite outros. Um homem se baseia em princípios cristãos, outro se baseia em princípios de higiene, e outro, ainda, em princípios sociológicos. O verdadeiro conflito não é o do cristianismo contra a “natureza”, mas dos princípios cristãos contra outros princípios de controle da “natureza”. A “natureza” (no sentido de um desejo natural) terá de ser controlada de um jeito ou de outro, a não ser que queiramos arruinar nossa vida. E bem verdade que os princípios cristãos são mais rígidos que os outros; no entanto, acreditamos que, para obedecer-lhes, você poderá contar com uma ajuda que não terá para obedecer aos outros.
Em segundo lugar, muitas pessoas se sentem desencorajadas de tentar seriamente seguir a castidade cristã porque a consideram impossível (mesmo antes de tentar). (…) Podemos ter certeza de que a castidade perfeita — como a caridade perfeita — não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a necessária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levante-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo. Por mais importante que seja a castidade (ou a coragem, a veracidade ou qualquer outra virtude), esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprendemos, por um lado, que não podemos confiar em nós mesmos nem em nossos melhores momentos; e, por outro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única atitude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.
Em terceiro lugar, as pessoas muitas vezes não entendem o que a psicologia quer dizer com “repressão”. Ela nos ensinou que o sexo “reprimido” é perigoso. Nesse caso, porém, “reprimido” é um termo técnico: não significa “suprimido” no sentido de “negado” ou “proibido”. Um desejo ou pensamento reprimido é o que foi jogado para o fundo do subconsciente (em geral na infância) e só pode surgir na mente de forma disfarçada ou irreconhecível. Ao paciente, a sexualidade reprimida não parece nem mesmo ter relação com a sexualidade. Quando um adolescente ou um adulto se empenha em resistir a um desejo consciente, não está lidando com a repressão nem corre o risco de a estar criando. Pelo contrário, os que tentam seriamente ser castos têm mais consciência de sua sexualidade e logo passam a conhecê-la melhor que qualquer outra pessoa. Acabam conhecendo seus desejos como Wellington conhecia Napoleão ou Sherlock Holmes conhecia Moriarty; como um apanhador de ratos conhece ratos ou como um encanador conhece um cano com vazamento. A virtude – mesmo o esforço para alcançá-la — traz a luz; a libertinagem traz apenas brumas.
Para encerrar, apesar de eu ter falado bastante a respeito de sexo, quero deixar tão claro quanto possível que o centro da moralidade cristã não está aí. Se alguém pensa que os cristãos consideram a falta de castidade o vício supremo, essa pessoa está redondamente enganada. Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso porque existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. E por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem mais perto do inferno que uma prostituta. É claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.
2009
Novo Calvinismo vira notícia
A revista Time na semana passada apontou o novo calvinismo em terceiro lugar na sua matéria de capa sobre as 10 Idéias Mudando o Mundo Agora Mesmo (texto original em inglês aqui e tradução em português aqui). Mark Driscoll, pastor da Mars Hill em Seattle, EUA, escreveu uma pequena postagem (aqui) sobre o que ele considera as principais diferenças entre o velho e o novo calvinismo. Segundo Driscoll, há quatro motivos pelos quais o “novo calvinismo” é tão poderoso:
1. O Velho Calvinismo era fundamental ou liberal e era separado da cultura ou sincretizado com a mesma. O Novo Calvinismo é missional e busca criar e redimir a cultura.
2. O Velho Calvinismo fugiu das cidades. O Novo Calvinismo está invadindo as cidades.
3. O Velho Calvinismo era cessacionista e temeroso da presença e poder do Espírito Santo. O Novo Calvinismo é contemporanista e se alegra na presença e poder do Espírito Santo.
4. O Velho Calvinismo temia e suspeitava de outros cristão e por isso queimou pontes [de relacionamento]. O Novo Calvinismo ama a todos os cristãos e constrói pontes entre eles.
2009
A Cabana 3
De todas as postagens que fiz, A Cabana é a mais comentada até agora. Isso deve ser um reflexo do sucesso deste livro que continua em primeiro lugar na lista dos mais vendidos da Veja após 27 semanas e continua comovendo muitas pessoas com sua leitura envolvente e perturbando outras por suas “licenças” teológicas. O Caio Fábio escreveu um breve comentário que de muitas maneiras expressa o que sinto também em relação ao livro e expressei na minha primeira postagem (no sentido das palavras colocadas na boca de Deus). O Deivinson do blog Recados do Céu postou uma crítica com 13 “heresias” que ele encontrou no livro. Alguém comentou que A Cabana é um grande livro assim como a Bíblia. Eu discordo dessa afirmação. O livro A Cabana só tem o poder de consolar, confortar, despertar fé e confiança nos seus leitores porque seu autor está tentando expressar através dele verdades bíblicas. Mas A Cabana é apenas um livro, enquanto a Bíblia é o livro dos livros. Uma coisa que é importante notar é que, todas as vezes que o autor de A Cabana acerta em seu texto, ele só acerta porque está refletindo a revelação da Bíblia sobre Deus. Não há como saber que Deus é bom, que Deus ama a todos, que Deus oferece perdão e graça, que Ele tem o poder de redimir e curar os corações, a não ser pela revelação das Escrituras. Caso contrário, tudo isso seria apenas uma opinião pessoal, uma suposição, talvez mesmo um wishiful thinking. Arrisco dizer que todas as vezes que o autor “foge” das Escrituras, ele expressa somente sua opinião e, em alguns casos, erra. As Escrituras são a única fonte confiável para se conhecer Deus. Fazemos bem, em todos os casos, seja após a leitura de A Cabana, seja após a pregação de um “pseudo-apóstolo” qualquer, conferir o que lemos e ouvimos com o que dizem as Escrituras. Sigamos o exemplo dos crentes de Beréia em Atos 17. Analisando tudo, retendo o que é bom…
2009
Novos Ministros Revisitado (7)
Sobre teologia
“Quem crê na soberania de Deus, crê, forçosamente na contemporaneidade dos dons espirituais. (…)
Eu vejo uns calvinistas por aí: – a soberania de Deus… Eu pergunto: ‘Você crê na contemporaneidade dos dons espirituais?’
- Ah, não! Passou! Deus não age mais assim.
- Interessante! Quem disse?
- Há estudos de teólogos importantes…
Isso se chama de ‘domesticação de Javé’. Javé domesticado pelos teólogos. Os fariseus fizeram assim, os ortodoxos fazem assim, os liberais também; todo mundo domestica Deus um pouquinho; colocam a Deus numa coleira e quase o chamam de totó! Isso é muito sério! Apelidam Deus de todo tipo, limitam-no, restringem-no; somente ao seu assovio espiritual, ele obedece. É um deus domesticado. E isso é igual a Baal, é igual a Júpiter e a qualquer outra divindade que o homem manipula. O Deus das Escrituras é soberano e é livre. É livre! E uma das implicações dessa liberdade de Deus é que ele continua sendo um Deus que intervém; um Deus que age.”
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