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Lendo o livro Insurrection de Peter Rollins, escritor irlandês que está ficando conhecido pelo seu desconstrucionismo da fé cristã, lembrei-me de uma música do Steve Taylor intitulada Harder to Believe Than Not To.

Segundo Steve Taylor, esta música, gravada de modo bem simples em Londres com uma pequena orquestra, toma emprestado seu título de uma linha encontrada nas cartas de Flannery O’Connor, uma escritora de ficção aclamada pela crítica e originária do Sul dos EUA. Os amigos de O’Connor no círculo literário de Nova Iorque tinham muita dificuldade em acreditar que uma escritora de seu calibre pudesse ser algo tão comum e fora de moda como uma seguidora de Jesus. Ela respode em sua carta à crítica de que a função primária do Cristianismo é ser uma muleta para os fracos de espírito e diz  que seus críticos simplesmente não entendem o custo envolvido no Cristianismo, que “é muito mais difícil acreditar do que não acreditar.”

Steve Taylor diz que aquelas palavras ficaram gravadas em sua memória e a canção foi escrita do ponto de vista que o custo envolvido no Cristianismo – o ideal de tomar a sua cruz diariamente e seguir Jesus – torna-o difícil de acreditar, porque o Cristianismo demanda coisas de nós que não desejamos dar naturalmente. Nas palavras do dramaturgo Dennis Potter, “Não existe, afinal, o que se chama de uma fé simples.”

Quando Rollins diz em seu livro que ter fé, acreditar, é natural do ser humano simplesmente pelo fato de que todos desejamos crer em algo que nos traga conforto, consolo, esperança, penso que, ainda que ele esteja correto, não é disto que se trata o Cristianismo. Como disse C.S. Lewis, “Se você está à procura de uma religião que o deixe confortável, definitivamente eu não lhe aconselharia o cristianismo.”

Na realidade, a fé necessária para seguir Jesus não é nem um pouco natural.

É Mais Difícil Acreditar Do Que Não

Nada é mais frio do que os ventos de mudança
Onde o frio congela o sonhador até que só reste uma sombra
Entre as ruínas se encontra sua alma torturada
Estava perdida lá
Ou foi sua vontade que se rendeu?
Tremendo com dúvidas que foram negligenciadas
Então você lança fora o manto que deveria ter consertado
Você não sabe agora porque são poucos os escolhidos?
É mais difícil acreditar do que não
Mais difícil acreditar do que não

Foi uma confiança que o manteve firme
Quando você sabia que acreditava, mas não sabia o porquê
Ninguém imagina chegar a este ponto
Mas é tão difícil quando as pessoas não querem escutar
Tremendo com dúvidas que foram negligenciadas
Então você lança fora o manto que deveria ter consertado
Você não sabe agora porque são poucos os escolhidos?
É mais difícil acreditar do que não

Alguns ficam paralizados até sucumbirem
Outros fazem o que sentem, mas seus sensos estão congelados
Uns são pisados pela multidão devota
Ainda assim eles seguem se arrastando

Você é robusto o bastante para mover-se adiante?
São acenos de aprovação ou a verdade que você deseja?
E se eles a chamam de muleta, então siga com a cabeça erguida
Seus acusadores sempre tiveram medo de mostrar a face
Eles tremem com dúvidas que foram negligenciadas
Eles lançam fora o manto que deveriam ter consertado
Você já sabe agora porque poucos são os escolhidos
É mais difícil acreditar do que não

Eu acredito


Há alguns anos quando eu estava preparando uma série de reflexões sobre as Parábolas do Reino, me deparei com o livro Mosaico de Deus do pastor e teólogo alemão Helmut Thielicke (foto acima). O único texto que eu havia lido anteriormente de Thielicke tinha sido Recomendações a Jovens Teólogos e Pastores, um texto curtíssimo de 69 páginas, mas que causou um profundo impacto em minha vida quando o li em 1991. O trecho abaixo é do comentário de Thielicke sobre a parábola do semeador.

Não existe alegria maior do que encontrar cristãos transformados. E nada dá mais nojo do que cristãos “tocados de leve”, cobertos por milhares de grãos de sementes, mas sem profundidade nem raízes. A primeira tempestade os derruba por terra. Fracassam na primeira catástrofe que aparecer, porque sua intelectualidade estéril e seu sentimentalismo superficial não lhes conferem a mínima resistência. Acabam perdendo aquilo que julgavam possuir.
Desta matéria prima são feitos os anticristos. A maioria deles foram assim, cristãos sem consistência: a semente apenas os tocou de leve. Quem só entrega parte do seu coração a Jesus é mais miserável do que uma pessoa cem por cento mundana: além de perder a “paz” do mundo, não consegue a “paz que excede todo entendimento”, pois já perdeu a ingenuidade. Por isto vive num constante conflito interior. É perfeitamente compreensível que um dia, num acesso de raiva, ela bata a porta diante daquele que há pouco, com serenidade, batia nela, pedindo entrada. O anticristo é sempre um semicristão enlouquecido. Isto você pode anotar!

(Mosaico de Deus, Helmut Thielicke, Encontrão Editora, 1997, p. 65)


Derrida sugeriu que o mundo todo é um texto. Como um texto, é sujeito a interpretação e interpretação traz à tona a função de nossos horizontes de percepção e nossas pressuposições. Estes horizontes ou pressuposições são informados por nossas crenças fundamentais sobre o mundo assim como por nossas experiências passadas e encontros com o mundo. Isto não é realidade sem interpretação, não são puros fatos passivamente dispostos lá para serem simples e puramente vistos. Pelo contrário, sempre vemos o mundo já através das lentes de uma moldura interpretativa governada por crenças fundamentais. Poderíamos dizer que sempre vemos o mundo por meio de uma cosmovisão. E parte da reivindicação de Derrida, muito semelhante a reivindicação de apologetas pressuposicionalistas como Schaeffer e Van Til, é que este é o caso para todo mundo. Todos nós – quer naturalistas, ateístas, budistas ou cristãos – vemos o mundo através das malhas de uma moldura interpretativa – e em última instância, esta moldura interpretativa é de natureza religiosa, ainda que não esteja aliada com qualquer religião intitucional.

Este insight deve ajudar-nos a apreciar duas coisas: Primeiro, se um dos insights críticos do pós-modernismo é que todos chegam a sua experiência do mundo com um conjunto de pressuposições fundamentais, então os cristãos não deveriam ficar com medo de expôr suas pressuposições especificamente cristãs sobre a mesa e permitir que suas explicações sejam testadas no mercado de idéias . De certo modo, Derrida trouxe a cultura mais ampla a apreciar o que pensadores cristãos como Abraham Kuyper, Herman Dooyerweerd, Cornelius Van Til e Francis Schaeffer tem dito por um bom tempo: que nossa pressuposições religiosas fundamentais governam nossa compreensão do mundo. Segundo, e mais contrutivamente, isso deve nos pressionar a perguntar-nos a nós mesmos se o texto bíblico é o que verdadeiramente governa nossa visão do mundo. Se o mundo todo é um texto para ser interpretado, então para a igreja a narrativa das Escrituras é o que deve governar nossa própria percepção do mundo. Devemos ver o mundo através da Palavra. Neste sentido, então, a reivindicação de Derrida poderia ser ressoante com a reivindicação dos Reformadores de sola scriptura, o que simplesmente enfatiza a prioridade da revelação especial de Deus para nosso entendimento do mundo e nossa jornada nele. Não há nada fora do Texto, poderíamos dizer. E dizer que não há nada fora do Texto, então, é enfatizar que não há sequer um centímetro quadrado de nossa experiência do mundo que não deva ser governado pela revelação de Deus nas Escrituras. Dizer que não há nada fora do Texto é dizer que não há nenhum aspecto da criação para o qual a revelação de Deus não fale. Mas nós realmente permitimos que o Texto governe nossa visão do mundo? Ou ficamos mais cativos das histórias e textos de uma cultura consumista? Nossa cosmovisão é moldada pelas narrativas da cultura hip-hop mais do que pelas histórias da relação de aliança de Deus com seu povo? Um dos desafios do discipulado cristão é fazer do texto das Escrituras o Texto fora do qual nada se sustenta. Como a música When You Look at the World do U2 diz, isto nem sempre é fácil; às vezes, eu “não posso ver o que Você vê, quando olho para o mundo.” Mas a santificação do Espírito tem o alvo de capacitar-nos para ver o mundo através destas lentes.

- James K. A. Smith em Who’s Afraid of Postmodernism, 2006: Baker Academic,  p. 55-56