Archive for the 'Uncategorized' Category
2008
missional E atrativa

“Estamos na Missio Dei!”
No post anterior eu coloquei um texto do Dan Kimball que traduzi do Out of Ur (um blog da revista ChristianityToday/LeadershipJournal). Eu conheci o Dan Kimball há pouco mais de cinco anos através de um pdf com esboço de um seminário que ele dava para pastores e líderes de ministérios cristãos sobre pós-modernidade e a missão da Igreja. Posteriomente li seus livros The Emerging Church, Emerging Worship e mais recentemente They Like Jesus but Not the Church. Devo dizer que considero o Dan Kimball como uma das vozes mais interessantes sobre a missão da Igreja na pós-modernidade, porque sua reflexão é fruto de sua prática pastoral. Ele não é um teórico, mas sim um verdadeiro practitioner.
Eu concordo com as preocupações do Kimball, pois também temo que em muitos círculos as conversações sobre a missão da igreja no mundo pós-moderno levem muitos cristãos sinceros (mas um tanto imaturos) a perder de vista o próprio Senhor da Igreja. São geralmente os imaturos que tomam posturas radicais e impensadas, não conseguindo enxergar o quadro todo e acabam caindo em pitfalls (lembra daquele jogo?) na jornada cristã.
A questão da natureza e missão da Igreja não pode ser tratada como se fosse um bate-papo sobre meu time de futebol favorito (o meu não está tão bem hoje, mas a cor da esperança é verde…). Estamos tratando da Noiva de Cristo. Derek Webb canta: “You cannot care for me with no regard for Her / If you love me, you will love my Church” (você não pode se importar comigo, sem respeito por Ela / Se você me ama, irá amar minha Igreja).
A questão não é isso OU aquilo, é isso E aquilo. É ser missional E atrativa ao mesmo tempo. É tanto IR quanto convidar a todos para VIR “a fim de que minha casa esteja cheia”. A Igreja só tem razão de existir quando ela é uma comunidade missional, compreendendo sua vocação de enviada para participar da missão de Deus no mundo. Como dizia Elwood no filme Blues Brothers (Irmãos Cara-de-Pau, 1980):
“We’re on a mission from God!”
(estamos numa missão de Deus)
Ao mesmo tempo, a Igreja precisa ser um comunidade onde a Presença do Rei é tão marcante na vida de seus membros que eles se tornem um atrativo para que as pessoas “venham e vejam” quem é Aquele que faz diferença em suas vidas e “provem e vejam que o Senhor é bom”.
A revolução passa por aí!
2008
missional vs. atrativa?

As Preocupações Missionais de Dan Kimball
Igrejas locais pequenas estão chamando bastante a atenção, mas onde estão os frutos?
Eu espero estar errado. Nos últimos anos, tenho observado, escutado e feito perguntas sobre o movimento missional. Tenho uma suspeita de que o modelo missional ainda não provou a si mesmo além do nível teórico. Novamente, espero estar errado.
Todos concordamos com a teoria de ser uma comunidade de Deus que se define e organiza a si mesma em torno do propósito de ser um agente da missão de Deus no mundo. Mas a conversação missional geralmente vai um passo além, descartando o modelo “atrativo” de igreja como ineficaz. Alguns dizem que a criação de programas melhores, da pregação e cultos de adoração para que as pessoas “venham até nós” não funciona mais. Mas aqui está o meu dilema – eu não vejo nenhuma evidência desta reivindicação.
Não faz muito tempo eu estava numa discussão com outros líderes de igrejas em uma grande cidade. Um defensor do modelo missional no grupo disse que os jovens daquela cidade não seriam mais atraídos por igrejas maiores e atrativas, dominadas pela pregação e pela música. O que esse líder falhou em reconhecer, no entanto, é que os jovens da cidade estavam indo a uma mega-igreja com arquitetura bacana – aos montes. Os cultos de adoração daquela igreja atraiam milhares com música rock/pop e pregação sólida. A igreja estima que metade desses jovens não eram cristãos antes de frequentarem suas reuniões.
Por outro lado, alguns membros de nossa igreja recentemente visitaram um igreja auto-intitulada como missional. Tinha 35 pessoas. Isso por si só não é um problema. Mas essa igreja tinha sido missional por dez anos, e não tinha crescido, multiplicado, ou plantado qualquer outra igreja numa cidade de milhões de pessoas. Isso era um problema.
Outro grande defensor do modelo de igreja nos lares enxerga esse modelo como sendo mais missional e coerente com a igreja primitiva. Mas sua igreja tem o mesmo problema. Após quinze anos não se multiplicou. É uma comunidade maravilhosa que serve aos sem-teto, mas não há evidências de que não-cristãos estejam se tornando seguidores de Jesus. Na mesma cidade, muitas mega-igrejas estão tendo conversões e discípulos amadurecendo.
Eu sei que evangelismo missional leva tempo, e que essas igrejas geralmente estão trabalhando em solo difícil. Não podemos esperar crescimento da noite para o dia.
Mas uma vez que seu histórico não comprova sua teoria, essas igrejas missionais deveriam ter cautela em criticar igrejas atrativas que estão fazendo um impactivo mensurável. Não, eu não sou uma pessoa de números. Eu não estou enamorado com quantas pessoas respondem a um apelo. De fato, eu sou um tanto cético. Mas sou apaixonado por ver discípulos de Jesus sendo formados. E, surpreendentemente, encontro que em muitas igrejas grandes e atrativas isto está acontecendo.
Sim, pessoas são atraídas pela música, pregação, trabalho com as crianças, mas talvez haja algo mais nessas igrejas grandes do que simplesmente programações. Há também pessoas sendo o Corpo de Cristo em suas comunidades. Quando esses discípulos constroem relacionamentos com não-cristãos, a evidência do Espírito em suas vidas é atrativa. A existência de programações e edifícios não significa que discípulos maduros não sejam uma razão significativa do crescimento dessas igrejas.
Há tantos que não entendem a alegria de se viver o Reino aqui na terra e a alegria futura da vida eterna. Esta alegria me motiva missionalmente, mas eu também não posso me esquecer dos horrores do inferno. Isso cria em mim um senso de urgência que me impulsiona além da teoria missional para ver o que Deus está fazendo nas igrejas – grandes e pequenas, atrativas ou missionais. Onde os discipulos estão crescendo de verdade? O que de fato está funcionando?
Eu espero que haja exemplos de igrejas missionais frutíferas que eu ainda não tenha conhecido. Espero que minha percepção baseada em meu relacionamento com o movimento msisional esteja errada. Mas por enquanto, eu prefiro ser parte de uma mega-igreja centrada em Cristo cheia de programações onde pessoas estão conhecendo Jesus como seu Salvador, do que ser parte de uma igreja de qualquer tamanho onde isso não está acontecendo.
- Dan Kimball é pastor da Vintage Faith Church em Santa Cruz, California e autor de vários livros, dentre eles, A Igreja Emergente, publicado recentemente no Brasil pela Editora Vida.
O texto acima em inglês você encontra aqui.
2008
A fé cristã precisa ser contracultural
Há alguns anos me deparei com os livros do Dr. James M. Houston sobre espiritualidade cristã. Eles logo se tornaram para mim uma fonte de águas frescas e profundas em tempos de aridez e superficialidade na maior parte da literatura cristã atual. Recentemente a Mundo Cristão publicou outro texto de Houston em português: Meu Legado Espiritual (Joyful Exiles). Ainda estou apenas no começo da leitura, mas já estou empolgado! Recomendo para todos que desejam ler algo que desafie o intelecto e aponte uma maneira de trilhar esse estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade. Segue um trecho do primeiro capítulo:
Cada vez mais, a fé cristã precisa ser contracultural. É possível que tenhamos que perder empregos, alguns amigos, até nossa liberdade, se quisermos nos manter fiéis às nossas convicções cristãs injetadas em nós pelo Espírito de Deus (…).
O que a maioria das pessoas precisa não é mais conhecimento da fé, mas determinação espiritual para pôr em prática o que já conhece, não importando quais sejam as consequências. A verdade é uma questão de vida ou morte – por ela morremos, por ela vivemos. Pode alguma coisa expressar a verdade se essa coisa não for vivenciada? Será que a verdade flutua por aí como um conceito abstrato? Segundo Søren Kierkgaard, muita coisa que se divulga como cristianismo não passa de “poesia” – é o real que virou imaginário. O verdadeiro cristianismo é transformar o possível em real. É este o papel do profeta: desafiar-nos a obedecer à palavra do Senhor. É por isso que a vida cristã é uma vida subjuntiva. Nossos sentimentos e desejos precisam ser trocados e, na verdade, redimidos, para que possamos entrar na realidade indicativa ou profética da vida cristã. Faz tempo que as palavras de Moisés estão dentro do meu campo de visão: “Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta!” (Números 11.29).
2008
Na liberdade da obediência

“To obey is better than sacrifice
I don’t need your money, I want your life!
And I hear you say that I’m coming back soon,
but you act like I’ll never return…”
- Keith Green, letra completa aqui.
(Obedecer é melhor do que sacrificar, não preciso de seu dinheiro, quero sua vida! Ouço você dizer que eu estou voltando em breve, mas você age como se eu nunca voltarei…).
A obediência é o primeiro passo em direção a seguir a Cristo. Talvez por isso seja o mais difícil de dar. Não gostamos de obedecer, queremos mandar, queremos impressionar, queremos nos sentir no controle. Obedecer significa nos sujeitar, significa deixar a vontade de Cristo prevalecer sobre a nossa. Seguir Jesus significa seguir aquele que se humilhou e foi obediente até a morte (Filipenses 2.8). De fato, o texto da carta aos Hebreus diz que, como Filho, Ele aprendeu a obediência (Hebreus 5.8). Ou seja, é preciso se humilhar para obedecer e a obediência é uma característica de quem se reconhece como filho.
Para mim, o grande teste da humidade que se manifesta por meio da obediência é quando, no processo de obedecer a Cristo, tenho que me submeter as outras pessoas (principalmente àquelas que sou tentando a considerar como inferiores a mim). Tenho percebido que, a menos que eu aprenda a considerar os outros superiores a mim mesmo, não terei condições de ter a atitude de Cristo descrita em Filipenses 2. Se Cristo aparecesse diante de mim encarnado ou (melhor ainda) transfigurado, seria muito mais fácil obedecer-Lo. O difícil é enxergar Cristo no meu próximo e obedecer a Cristo no relacionamento com meu próximo. Eu posso dizer: “Eu não tenho problemas em obedecer a Cristo! Meu problema é obedecer aos homens.” Mas então encontro muitas exortações no Novo Testamento me apontando que minha obediência a Cristo – ao espírito de Cristo – muitas vezes é provada por minha obediência a pessoas com as quais me relaciono. Realmente, obedecer não é nada fácil; é bem mais fácil ofertar.
Acontece que só nos tornamos seguidores de Cristo se estivermos dispostos a obedecê-Lo. E só continuamos na trilha do discipulado se permanecermos obedecendo-O. A Grande Comissão diz: “Façam discípulos, ensinando-os a obedecer todas as coisas que eu lhes ordei…” Belas palavras, boas intenções, sonhos de revolucionar o mundo e salvar vidas não significam nada se não forem acompanhados da obediência ao que Cristo nos mandou. “Quem me ama”, disse Ele, “obedece os meus mandamentos.”
Estava lendo trechos do livro A Biblioteca de C.S.Lewis (Editora Mundo Cristão) e encontrei o parágrafo abaixo escrito por George MacDonald:
Adiar obedecer-lhe até encontrarmos uma teoria plausível a seu respeito é pôr de lado o remédio que sabiamente devemos tomar substituindo-o pelo estudo das várias escolas de medicina. Você sabe que aquilo que Cristo exige de você está certo – pelo menos grande parte de você julga certo, e seu dever é pô-lo me prática, tenha ele dito ou não Faça isto. Se você não puser em prática o que você conhece da verdade, não me admira que o busque intelectualmente, pois esse tipo de pesquisa pode muito bem ser, como representa Milton, um consolo até para os anjos decaídos. Mas não chame nada que se possa ganhar com isso de A Verdade. Como pode você, que não se preocupa em ser sincero, julgar a respeito daquele cuja vida foi praticar, exatamente por amor, as coisas que você confessa serem seu dever, mas não as pratica? Eu lhe digo: obedeça a verdade e deixe a teoria esperando. Da vida pode surgir a teoria, mas nunca da teoria a vida.
Falou e disse!
2008
Ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro

Apesar de já ser “notícia velha”, quero apenas reforçar aqui caso alguém não tenha visto. O Augustus Nicodemus, um dos escritores do blog O Tempora, O Mores!, teve uma série de reflexões suas sobre o movimento evangélico brasileiro públicadas pela editora Mundo Cristão sob o título de O Que Estão Fazendo Com A Igreja. Boa reflexão para os tempos pós-modernos.
Abaixo está o trecho de uma entrevista em que ele fala sobre as “novas” tendências teológicas vistas em alguns círculos do diálogo emergente:
Não se pode pensar em reforço da igreja quando instituições de ensino teológico, teólogos e pastores adotam a mesma teologia e os mesmos métodos liberais de interpretação da Bíblia que fecharam as igrejas da Europa. Se fecharam as igrejas da Europa, o que os faz pensar que não farão o mesmo aqui? Além disso, passando para o campo neo-pentecostal (já que liberais nunca fizeram a igreja crescer mesmo), lembro que expansão não é necessariamente sinal de saúde e vitalidade espiritual. Existe crescimento e inchaço. O primeiro é fruto da pregação, ensino e divulgação das verdades bíblicas. É aquele crescimento encontrado no livro de Atos, onde é freqüentemente igualado ao crescimento da Palavra (Atos 6:7; 12:24; 19:20). É o aumento da igreja mediante a conversão genuína de pessoas que acolheram a Jesus Cristo como único Senhor e Salvador, tendo reconhecido seu próprio estado de perdição e culpa. Já o inchaço, é um acréscimo de pessoas que vieram às igrejas por outros motivos, como receber uma bênção material, serem curadas, ter um emprego, resolver um problema amoroso, acabar com o azar na vida delas, serem libertas, etc. Multidões assim lotam as igrejas evangélicas todos os dias. Todavia, quase nunca são confrontadas com seu estado de pecado e rebelião contra Deus, quase nunca ouvem falar da necessidade de arrependimento e mudança de vida para terem a vida eterna, e raramente ouvem que a salvação e o perdão de pecados é pela graça, mediante a fé, sem as obras da lei e sem quaisquer outros sacrifícios. O que se tem hoje é uma religião das obras, dos sacrifícios, onde a graça é esquecida.
A entrevista completa com o Augustus Nicodemus se encontra aqui.
2008
Cristãos too sexy
No início da década de 1990 uma dupla careca britânica chamada Right Said Fred fez sucesso mundial com uma música que dizia assim: “I’m too sexy for your love, too sexy for my shirt, too sexy for your party, too sexy for my car, too sexy for my cat…”
Às vezes, observando a atitude de certas pessoas (e minha própria atitude), parece que estou ouvindo ecos daquela música. É aquele tipo de atitude que diz: “Eu sou bom demais para fazer isso, sou bom demais para frequentar essa igreja ou grupo, sou bom demais para servir naquele ministério, sou bom demais para frequentar aquele estudo bíblico ou culto de oração, sou bom demais para me relacionar com aquelas pessoas, sou bom demais para…”
Meu amigo David Pierce costuma contar a história de quando ele era missionário em Amsterdam e tinha que fazer evangelismo ao ar livre com uma equipe que ficava nas pontes sobre os canais da cidade cantando o que ele considerava stupid songs para transeuntes completamente apáticos. Ele achava tudo aquilo ridículo demais e detestava fazer parte daquela equipe. Mais tarde porém, ele percebeu que Deus estava tentando trabalhar em seu coração, pois sua atitude era arrogante (era too sexy) e ele precisava aprender a ser humilde e estar disposto a se humilhar quando necessário para ser usado verdadeiramente por Deus. O problema, como ele reconhece hoje, é que o arrogante quase nunca reconhece que é arrogante até que Deus faça algo dramático para despedaçar sua imagem too sexy.
Em Apocalipse 3 encontramos um grupo de pessoas que se considerava too sexy – os crentes em Laodicéia. Eles se achavam bons demais até que receberam um carta ditada pelo próprio Senhor Jesus dizendo que, na verdade, eles não passavam de miseráveis, desgraçados, estavam cegos e nus.
Será que o mesmo não poderia ser dito de muitos de nós hoje em dia? Enquanto ficamos criticando e julgando a Igreja de longe, nos achando melhores do que Ela para fazer parte dela, tentando tirar-Lhe os ciscos quando temos verdadeiras toras em nossos próprios olhos? Ou quando cedemos a tentação de tentar tornar a Igreja (Noiva) mais sexy na esperança de ajudá-la a atrair o mundo?
Derek Webb tem uma música em seu CD She Must and Will Go Free que diz:
“A verdade nunca é sexy
Ela não se vende facilmente
Você pode vesti-la com a cultura
Que ela irá chocar as pessoas do mesmo modo
Ela não precisa de desculpas por ser quem ela é
Ela não precisa de sua ajuda para fazer inimigos…”
Nossa atitude too sexy não ajuda em absolutamente nada a Causa de Cristo. O Reino pertence aos pobres de espírito, aos humildes. Somente podemos ser úteis a Causa quando reconhecemos que nada somos, que nossa auto-justiça fede, que todo dom e talento é fruto da Graça e Bondade de Deus. O caminho da revolução parte da Cruz e conduz à Cruz. A Igreja é a comunidade do Crucificado e daqueles que carregam a cruz diariamente. Os que são too sexy sempre irão encontrar em Cristo e Sua Noiva uma pedra de tropeço. Que Deus nos ajude a nos despir de nossa atitude too sexy e nos revistir do Espírito de Cristo que é manso e humilde de coração.
2008
Infantilidade e Imaturidade na Igreja
Esse é um tema que tem me chamado a atenção nos últimos anos. É triste notar que a Igreja está cheia de puer aeternus espirituais, ou seja, eternas crianças espirituais, gente que parece não amadurecer nem um pouquinho a cada ano que passa. Até parece que a Igreja está vivendo aquele filme Feitiço do Tempo (Groundhog Day) com o Bill Murray e Andie MacDowell. É como se estivessem encalhados no tempo, vivendo sempre a mesma realidade espiritual. Passa ano e entra ano e cristãos continuam repetindo os mesmos erros, promovendo divisões, fazendo “biquinho”, se comportando como crianças ou, nas palavras de Paulo, como carnais. A primeira carta de Paulo aos Coríntios parece ter sido escrita para a Igreja de nossos dias (pelo menos do que observo ao meu redor). E o problema atinge a liderança cristã também. Há pastores imaturos, líderes imaturos, pregadores imaturos, missionários imaturos fazendo muito estrago por aí. Kyrie, Eleison, Christe, Eleison!
O Dr. Russel Shedd deu uma entrevista sobre esse assunto recentemente e, dentre outras coisas, disse o seguinte:
Imaturidade, segundo 1 Co 3.1-4 quer dizer pensar e agir carnalmente, como criança indisciplinada. Alguns líderes têm tropeçado mostrando carnalidade segundo a descrição de Gl 5.19-21 e 2 Co 2.17. As conseqüências da imaturidade são de espalhar as ovelhas, dividir a igreja, e de comunicar a mensagem que o que a Bíblia ensina sobre santidade e responsabilidade não tem importância. Imaturidade na liderança estraga os relacionamentos e transforma a igreja ou organização cristã numa igreja mundana (1 Co 3.3).
A entrevista completa você pode ler aqui.
2008
Viciados em Mediocridade

Eu estava no seminário em 1987 devorando tudo do filósofo cristão Francis Schaeffer, quando ouvi falar de um livro escrito pelo seu filho Franky sobre cristianismo e artes. O título do livro Addicted to Mediocrity me deixou ainda mais interessado na leitura. Decidi apelar para um americano e pedi que ele me trouxesse o livro quando retornasse de uma viagem aos EUA. Me lembro da sensação de felicidade ao recebê-lo, do impacto da capa e das figuras no interior e, finalmente, do seu texto bombástico. Fico feliz que este texto esteja finalmente disponível na língua portuguesa e espero que ele faça para os leitores de hoje o que fez por mim há 20 anos. Abaixo, um dos meus trechos favoritos do livro de Frank Schaeffer:
A vida cristã não é uma combinação de posturas teológicas marcadas pela culpa, reacionárias, panfletárias e displicentes. A vida cristã é repleta apreciação por Deus, pelos que estão ao nosso redor (salvos ou não) e seus talentos. A vida cristã exibe uma apreciação profunda por tudo aquilo que Deus criou, um anseio crescente de compreender e de desfrutar daquilo que nos cerca, e o desejo de se posicionar ao lado daqueles princípios de vida, beleza, verdade, prazer e justiça que nos são dados tão claramente na Bíblia.
Que cada um de nós possa, em sua área de atuação, aplicar a ampla e maravilhosa verdade do cristianismo àquilo que estamos fazendo, e que não nos tornemos meramente “úteis à causa”.
Que possamos ter a coragem de rejeitar e abandonar a mediocridade da igreja na atualidade e ficarmos sós, se necessário for.
Que possamos nos posicionar em favor da vida, da arte, do amor, da família, das crianças e da compaixão.
Que possamos viver a vida mais rica que nos é oferecida por meio de Cristo. Que o nosso cristianismo seja uma experiência libertadora, não um fardo ideológico. Que possamos experimentar a liberdade em relação aos sentimentos de culpa, uma disposição de assumir riscos, cometer erros mas, acima de tudo, viver com integridade a vida que Deus nos deu.
A vida cristã não nos chama a negarmos nossa natureza. A vida cristã não nos chama a negar a natureza criativa do próprio Deus. Devemos negar o pecado. De fato, devemos lutar contra o mal a todo instante. Mas devemos em todo o tempo afirmar a vida e a bondade!
Os cristãos afirmam ter grande interesse pela vida após a morte. É tempo de começarmos a mostrar algum interesse pela vida antes da morte.
Você está preparado?
(do livro Viciados em Mediocridade, Frank C. Schaeffer, W4 Editora)
Boa parte do que o Projeto 242 tem tentado viver e praticar é, em grande parte, fruto da influência que livros como este tiveram sobre minha vida e de outros que caminham ao meu lado nesta trilha do discipulado de Jesus. É evidente que como comunidade estamos anos-luz de nosso alvo, mas com a Graça prosseguiremos perseguindo-o até o dia final.
2008
Da estrada – os Jesusfreaks

Meu primeiro encontro com os Jesusfreaks se deu com a igreja deles de Berlin que estava reunida num acampamento cerca de 90 minutos ao sul da cidade. Saímos um pouco atrasados naquela manhã e o Benjamin, meu intérprete e motorista para essa parte da viagem, se perdeu no caminho (mesmo usando GPS como 90% dos motoristas alemães), o que atrasou ainda mais nossa chegada ao local. Logo que paramos o carro ouvimos o som de cânticos e seguimos as vozes até chegar a uma sala fechada. Quando entramos, me deparei com cerca de 25 pessoas, a maioria delas com o visual bem alternativo (quase hippie), que cantavam com profunda devoção ao som de um violão, baixo e violino. Me senti bem entre eles de imediato. As reuniões foram conduzidas pelo pessoal do Obadja (veja video deles no YouTube aqui), uma banda dos Jesusfreaks Berlin. Na hora do almoço, eles me falaram sobre as passagens da banda brasileira de grindcore Antidemon entre eles e conversamos bastante sobre o cenário musical no Brasil. Fiquei lá durante o sábado inteiro e compartilhei duas vezes, pela manhã e à noite quando fizeram um lounge de adoração, com bastante velas, incenso, almofadas, material para desenho e pintura e uma atmosfera bem relax (sem contar os cachorros que passeavam entre a gente, aparentemente curtindo tudo também).
Como eu descobriria mais tarde, os Jesusfreaks estão passando por momentos de transição, tentando se encontrar em uma nova realidade e identidade. Eles até fizeram um Concílio para dialogar sobre isso e emitiram uma cartilha de suas crenças, valores, missão, etc. Mesmo um movimento cujo logo lembra o “A” de anarquia (na verdade é o Alpha e Ômega sobrepostos) está em busca de estrutura. Os Jesusfreaks começaram no início dos anos 1990 na Alemanha, e alcançaram projeção nacional e internacional em poucos anos. Martin Dreyer, líder do movimento, chegou a ser mencionado por uma revista não-cristã como um dos 25 líderes jovens mais influentes na Alemanha. Mas com o passar dos anos, os Jesusfreaks experimentaram duras perdas com quedas morais de seus líderes principais e divisões causadas por ventos de doutrina. Além disso, muitos dos jovens solteiros se casaram e constituíram famílias, o que torna a vida mais interessante, mas também apresenta novos desafios aos relacionamentos. Tive a oportunidade de conversar sobre essas dificuldades com quase todos os grupos dos Jesusfreaks que visitei.
Depois de Berlin, estive com os Jesusfreaks de Colônia. Eles se reunem num galpão que foi transformado para acomodar suas atividades. O grupo lá parecia mais velho que o de Berlin, tinha até alguns bikers de meia-idade, além de alguns punks e gente “comum”. No local de reunião, antes e depois do culto, a galera jogava ping-pong e pebolin. Havia também muita coisa velha, sucata, roupa para doação, etc., espalhada pelo local. Estava bem frio e como eles não tem sistema de aquecimento, cobertores estavam à disposição das pessoas que sentavam nas almofadas no chão ou em fileiras de sofás velhos de todos os tipos e modelos. No final, um dos bikers arrastou para o meio do salão um grande forno de barro sobre um gabinete com rodas para prover um pouco de calor.

Dias depois visitei uns 20 jovens em Bremen que formam parte do Jesusfreaks local. Eles se reúnem num prédio onde há várias salas de ensaio para bandas e músicos. Parte do que eles têm tentado fazer lá é servir a esses músicos para compartilhar com eles o amor de Deus. Estava frio naquela noite e ficamos congelando do lado de fora uns 30 minutos antes que alguém nos abrisse a porta. Eu ouvia uma banda de punk rock ensaiando e podia ver onde eles estavam pela pequena janela ao nível da rua. Estava com tanto frio que fiquei com vontade de chutar a janela para ver se eles nos abriam a porta, mas acabei deixando a idéia de lado para evitar confusão. No final foi a coisa certa a fazer, uma vez que essa banda não tinha nenhum relacionamento com os Jesusfreaks (eles ainda não estavam no local, pois estavam atrasados). Encontrei uma jovem brasileira chamada Marcela e seu marido Freddo que já esteve no Brasil fazendo trabalhos sociais em comunidades carentes. Diferente dos outros Jesusfreaks, esse grupo era em sua maioria de jovens profissionais e/ou estudantes. Um deles é piloto de avião e naquele dia recebeu a notícia de que tinha passado no teste da Lufthansa. A reunião foi bem à vontade, tomando chá para esquentar e cantando alguns cânticos antes de me darem a oportunidade para falar. Depois que compartilhei, tivemos um momento para perguntas e respostas e ficamos conversando um bom tempo. Era tarde quando cruzamos a cidade rumo a casa onde passaríamos a noite. Atravessando o canal e olhando as luzes na noite, me lembrei de quando lá estive em 1990 e acabei ficando bêbado após tomar uma cerveja doce (somente uma) com os amigos. Desta vez, decidi ficar longe de qualquer cerveja…


Meu último encontro com os Jesusfreaks se deu em Stuttgart e foi a maior igreja deles que visitei (tinha umas 80 pessoas no culto). O Cristian Faber estava comigo nesta reunião e encontramos outros conhecidos lá também. O louvor foi conduzido pela Sally que trabalhou com o Steiger Minneapolis e na Índia, onde conheceu seu marido. A Christa do NLM estava tocando violino e o Thomas da banda Wating for Steve (uma das melhores bandas que ouvi recentemente) tocou violão. Resultado: um momento lindo de cânticos e adoração. Tinha muitos bebes no local e muitos casais bem vestidos, formando um público que você encontraria em locais alternativos em São Paulo, Londres, Nova York ou Tóquio. Depois da reunião, novamente um tempo para comer e compartilhar vida.
Resumindo, minha experiência entre os Jesusfreaks fortaleceu minha crença no fato de que a igreja como organismo é algo que, quando saudável, cresce e passa por transformações constantes em seu processo de amadurecimento e relação com o mundo ao seu redor. Muitas vezes, assim como famílias, o crescimento e amadurecimento leva a um ponto de separação saudável e à formação de novas futuras famílias. Outras vezes, organismos chegam ao ponto de enfrentar a morte (preferivelmente depois de terem cumprido com seus propósitos em vida) para renascer para uma nova vida. Pelo que vi, os Jesusfreaks estão experimentando essas realidades como organismo e organização.
2008
Da estrada – rumo sul

Depois de quase um dia de viagem, cheguei a Karlsruhe na quinta-feira passada para a segunda parte de minha turnê no sul da Alemanha, o que tornou as coisas mais fáceis para mim, pois fiquei na base do Steiger. O Cristian Faber que está trabalhando como graphic designer lá me recebeu como hóspede em seu quarto. Só deu tempo para um banho rápido e já tive que sair de novo, desta vez para me encontrar com a Damaris Kofmehl e seu marido Demitri. A organização deles nos doou os imóveis que estamos usando para o P242 e Projeto Toque e meu encontro com eles foi para agradecer-lhes mais uma vez pela confiança e generosidade. O David Pierce acabou se unindo a nós durante esse tempo e nos divertimos um pouco com suas brincadeiras. Logo depois fui falar na Jesus Rockt, a igreja do Steiger em Karlshure. Apesar de já ter estado lá base em outras ocasiões, eu ainda não tinha tido oportunidade de participar de um momento de adoração comunitária com eles. O local onde eles se reunem é um antigo abrigo anti-aéreo do prédio do Steiger e o visual é bem “cavernoso” (enquanto eu estava lá pensei que aquele seria o local idéial para a Caverna de Adulão). No dia seguinte fui falar para um grupo de jovens que estão se reunindo na Associação Cristã de Moços de um pequena cidade chamada Kleinsteinbach. Mais uma vez fiquei impressionado como esse novo modo de ser igreja está cada vez mais globalizado. A reunião foi simples, a atmosfera do local convidativa e como parte de um momento congregacional cantamos músicas do United, Matt Redman, alguns hinos em alemão e “My Sacrifice” do Creed.

Sábado à noite fui para Göppingen participar de outra reunião de jovens chamada Hours of Power em uma igreja pentecostal. O David Pierce tinha estado lá duas semanas antes e havia uma certa expectativa no ar pela minha presença. Eles fizeram até um folheto sobre a gente (foto acima). O líder de jovens lá é um cara legal, tipo metaleiro dos anos 80 que gosta de inserir uns riffs to Metallica nas músicas durante o louvor. Afinal, como ele me disse repetindo as palavras de seu conterrâneo Lutero, por que o diabo deveria ter toda boa música? O período de cânticos demorou hora e meia, algo surpreendente para reuniões de igreja na Alemanha. Depois que eu terminei de compartilhar eles ainda cantaram mais uns 30 minutos! Logo após a reunião, o local onde nos reunimos foi transformado numa cantina com comida alemã e metal pesado como som ambiente. Domingo acordei bem cedo para enfrentar meu último dia na Alemanha. O tempo estava frio e chuvoso quando Maren, esposa do Michael Sengle, me chamou para a viagem até Pforzheim (o Michael estava viajando como intérprete do David). Além dos dois filhos deles, estavam conosco um novo cristão chamado Dirk e o Johannes, meu intérprete. Logo que cheguei lá, o Chris, responsável pelo culto naquela manhã, me chamou para orar e conversar sobre a reunião. Após a oração ele me disse que gostaria que eu estivesse à vontade para dar-lhes algo com profundidade teológica, pois é isso que eles estavam querendo. Tendo em vista que meu intérprete tem dois mestrados em estudos teológicos, quase sugeri que ele falasse em meu lugar… A igreja lá se reúne num dos locais mais style que já visitei. A maioria dos membros são jovens profissionais, gente com PhDs e tals e o local esbanja conforto e criatividade. O louvor foi bem alternativo e um tanto contemplativo também, misturando arte, simplicidade e devoção. Logo depois da reunião, fui almoçar com velhos conhecidos Ilja e Amélie em um restaurante italiano. Foi muito bom estar em Pforzheim, principalmente para rever esses irmãos e compartilhar com eles. No final do dia fui para Stuttgart compartilhar com os JesusFreaks de lá. No próximo post irei comentar sobre minha presença entre os freaks.
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