Corpo

CorpoCristo
“Somos como as várias partes do corpo humano. Cada parte tem seu significado no corpo, visto como um todo, mas não o contrário. O corpo de que estamos falando é o corpo formado pelas pessoas escolhidas por Cristo. Cada um de nós encontra significado e função como parte desse corpo. Não podemos ser como um dedo decepado, que não tem valor. Então, desde que estejamos ligados às outras partes constituídas de maneira genial e funcionando maravilhosamente no corpo de Cristo, sejamos o que fomos feitos para ser, sem inveja ou sentimento de superioridade sobre os outros, sem tentar ser algo que não somos.
Se você prega, limite-se a pregar a Mensagem de Deus; se você ajuda, apenas ajude -, não tente assumir o comando; se você ensina, apegue-se ao ensino; se você tem a capacidade de encorajar, tome cuidado para não se tornar autoritário; se você recebeu alguma posição de responsabilidade, não manipule; se você foi chamado para ajudar gente em angústia, fique de olhos abertos e seja rápido em responder; se você trabalha com os desamparados, não se permita ficar irritado ou deprimido por causa deles. Mantenha o sorriso.”

(Paulo aos cristãos Romanos, capítulo 12 versos 4-8 – A Mensagem)

Entender esse texto é um libertação tremenda!
Me livra do pecado da inveja.
Me livra do erro da comparação.
Me livra da tentação do juízo alheio.
Me liberta do desejo de querer ser quem não fui feito para ser.
Me libera para ser e viver de acordo com o que Deus me fez.

A igreja é maior do que você pensa

(conversando com sacerdotes ortodoxos em Leningrado, 1990)

Nasci num lar cristão. A família de minha mãe havia tido uma experiência de conversão numa igreja evangélica, fazendo com que minhas lembranças mais antigas da casa de meus avós maternos estejam relacionadas a cultos domésticos e reuniões de oração. Lembro-me também de ir a cultos na igreja Assembléia de Deus onde meu avó era presbítero e, com cerca de quatro anos de idade, começar a ir com minha mãe e irmãos a uma igreja Adventista (da Promessa) que ela passou a frequentar durante aqueles anos.

A família de meu pai é de tradição católica, tipicamente nominal, como a maioria dos brasileiros descendentes de italianos. Meu pai, apesar de ter sido batizado na igreja evangélica para casar-se com minha mãe, nunca foi de frequentar nenhuma igreja.

Aos quatorze anos de idade, tive minha própria experiência de conversão numa igreja pentecostal. Naquele contexto, ainda que indiretamente, aprendi o seguinte sobre católicos: são todos idolátras e vão para o inferno, se não se converterem a Jesus em uma igreja evangélica (preferivelmente pentecostal, visto que os protestantes históricos são frios e, na melhor das hipóteses, crentes fracos); a igreja católica é a Babilônia e o papa é a Besta ou o Anticristo do Apocalipse.

Quando fui para o seminário teológico, minha visão estreita da fé cristã começou a ruir. Convivi com cristãos presbiterianos, metodistas, batistas, congregacionais, assim também com pentecostais como eu (embora meu pentecostalismo já começara a ficar abalado nessa época). Fiz estágio do curso de teologia numa cidade no sul de Minas, onde pretendíamos plantar uma igreja evangélica (as estatísticas diziam que não havia sequer um crente evangélico entre os cerca de seis mil habitantes daquela cidade). Durante esse tempo, conhecemos o padre da cidade, um sujeito muito mais amigável e humano do que a imagem do “inimigo” que, até então, eu trazia dos sacerdotes católicos. Esse padre nos surpreendeu, abrindo até mesmo as portas da igreja para que ensinássemos em algumas reuniões.

Após o seminário, me uni à Operação Mobilização (OM) e fui para a Europa servir no navio Logos II, que estava ancorado em Amsterdã, Holanda. Novamente, o ambiente na OM e à bordo do navio, além de internacional, colocando-me em convívio com pessoas de diversas culturas, era também diversificado em termos de tradição cristã. A essa altura, eu já não pensava mais que minha denominação ou experiência pentecostal era detentora exclusiva do poder de Deus para salvação. A Igreja começou a parecer muito maior do que, até então, eu pensava que era.

Em agosto de 1990, com a abertura do Leste Europeu, navegamos para a Alemanha Oriental, Polônia, Rússia e países balticos. Em Dresden, participei de um encontro de jovens da igreja Luterana e percebi que as igrejas luteranas, diferente do que eu havia pensado, tinham esculturas e vitrais com gravuras dos Evangelhos (o que seria condenado por minha igreja local no Brasil). Na Polônia, a maior parte dos visitantes (e voluntários) ao navio, era de católicos. Na Rússia, fiquei comovido com os cristãos ortodoxos e sua sede pela Bíblia, após um período de 70 anos de repressão comunista.

Após essas experiências, ficou difícil de eu enxergar a legitimidade da fé cristã como uma exclusividade dos evangélicos pentecostais, como eu havia sido ensinado.

Durante os anos 90, tive várias experiências que continuaram abrindo minha mente para catolicidade da Igreja. Descobri escritores (Henri Nouwen, Brennan Manning, Jean Vanier, Anselm Grün, etc.) e teólogos (Hans Küng, Oscar Romero, Hans Urs von Balthasar e outros) católicos e ortodoxos que cativaram minha mente e coração. Aprendi a respeitar pessoas como o papa João Paulo II (e seus sucessores), em vez de considerá-los como anticristos. Reconheci a grandeza do trabalho de Madre Teresa em Calcutá e de outros missionários católicos que trabalham entre os pobres e necessitados ao redor do mundo. Abri as portas da igreja para bandas católicas, formando parceria com elas na proclamação da mensagem do Evangelho. Reconheci, finalmente, que a Cristandade é maior do que suas tradições e que Jesus não foi católico, protestante, anglicano, evangélico, pentecostal… nem mesmo cristão!

Isso não significa, de maneira alguma, que eu concorde com tudo que é dito e feito em todas as tradições e igrejas cristãs. Não significa que eu não possua uma confissão de fé e convicções doutrinárias. Não significa que eu abri mão de conceitos como sã doutrina, ortodoxia e heresia, e que esteja disposto a abraçar acriticamente tudo que traga o rótulo de cristão.

O que isso significa é que eu aprendi que a Igreja de Cristo é maior do que minha experiência local ou denominacional, e que o Espírito Santo não é refém de minha (e de qualquer outra) tradição.

Oração: O que é? Por que? Como?


“A pergunta é: Quanto dessa fé persistente o Filho do Homem vai encontrar na terra quando voltar.”

É impressão minha ou está se tornando comum hoje em dia dizer que não é preciso orar, que oração é tudo que fazemos, o tempo todo? É impressão minha ou a oração está desaparecendo da experiência cristã, principalmente entre os cristãos pensantes ou reflexivos?

Duas décadas atrás, Caio Fábio já sinalizava este fenômeno, chamando esta geração de “uma geração que desaprendeu a orar” em seu livro Oração Para Viver e Morrer. As causas para isto, apontadas por ele na época, eram: a sociedade moderna, a miséria de muitos, a dicotomia orar ou fazer, a teologia liberal e o pentecostalismo sem piedade.

Se ele estava certo (e, em minha opinião, estava), não é nenhuma surpresa que a oração esteja desaparecendo rapidamente da prática cristã atual.

Uma das razões que ouço pela qual pessoas se recusam a orar é que, segundo elas, a oração se tornou um ritual religioso. E esta é a geração que tem alergia a rituais e total desprezo por religiosidade. Toda a nossa vida deve ser uma oração, dizem eles. É verdade que o apóstolo Paulo falou sobre orar o tempo todo em espírito e certamente muito do que se chama de oração não reflete o ensinamento bíblico. Mas é preciso ser muito ignorante da Bíblia (ou rejeitá-la por completo) para assumir uma postura tão reducionista em relação a oração.

Osmar Ludovido em Meditatio reconhece a tensão e equilíbrio que existe entre a oração privada e pública, entre a vida comum na igreja e a vida interior do cristão. Segundo ele, a ênfase e valorização de apenas um desses aspectos em detrimento do outro conduz, inevitavelmente, ao empobrecimento da vida cristã. Ele diz: “Manter comunhão e orar com a igreja nos ajuda a crescer na fé, na esperança e no amor, mas nada substitui a necessidade irresistível do recolhimento para dialogar com Cristo na intimidade do coração.”

Jesus e a oração
Basta olhar para a vida de Jesus para entender o que é oração e como deve ser uma vida de oração. Jesus orava, muitas vezes sozinho, separado da agitação do cotidiano, outras vezes em público, na presença de seus discípulos e até das multidões que o seguiam.

Quando os discípulos vieram a Jesus e pediram-lhe: “Mestre, ensina-nos a orar”, Jesus não respondeu-lhes dizendo: “Orar? Pra que? Vocês  já estão orando quando estão conversando uns com os outros, quando estão apreciando a natureza, quando estão tirando uma soneca…” Em vez disso, Jesus deu-lhes instruções bem claras sobre como orar. Por meio de sua vida e seus ensinamentos, Jesus nos orienta quanto ao conteúdo de nossas orações, quanto a atitude com que devemos orar e com que frequência orar. Jesus nos manda orar (sim, ele dá uma ordem!). Dizer que está seguindo Jesus e, ao mesmo tempo, não se dedicar a prática da oração é um contrassenso.

Mas o que é oração? Por que orar? Como orar?

Oração é comunicação com Deus
O monge beneditino alemão Anselm Grün diz que a oração é um diálogo entre o homem e Deus. Grün fala da oração como um encontro: com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Gerardus van der Leeuw, teólogo holandês, diz que a oração é essencialmente um diálogo. Ambos parecem estar fazendo eco a Clemente de Alexandria que disse: “orar é manter companhia de Deus.”

Em seu livro sobre oração, Caio Fábio diz que a oração é “o único meio pelo qual se pode genuinamente desenvolver uma sadia visão de Deus, da Igreja, do mundo e da missão do povo de Deus na história. (…) Sem oração, a vivência da fé não passa de reflexão banal ou presunçosa ação. (…) A oração é a forma mais dramática de manifestar o desejo pela presença de Deus na vida. (…) A oração é o mais forte instrumento de afirmação do Ser. Quem ora, fala com o Ser dos seres e com Aquele que é a origem de todos os seres que sabem que existem.”

Se orar é tudo isso, por que não oramos, ou oramos tão pouco?

Talvez porque, como diz James Houston em Orar Com Deus, “se achamos difícil formar relacionamentos duradouros com nossos semelhantes, acharemos muito mais difícil nos relacionarmos em qualquer profundidade com Deus, ao qual não podemos ver.”

Se Deus sabe tudo, por que orar?
A Bíblia apresenta Deus como conhecedor de todas as coisas. A despeito do que especulam certos teólogos modernos, é impossível ler a Bíblia e não perceber Deus como Aquele que sabe tudo, diante de Quem não existe nada encoberto. Anselm Grün reconhece esta tensão entre o conhecimento de Deus e a oração ao dizer: “Deus certamente sabe tudo e não tem necessidade da minha oração, mas eu necessito dela.”

Caio Fábio diz: “Deve-se orar porque mediante sua prática o espírito humano explícita de     maneira verbal o seu desejo de Deus. Pela oração a alma confessa sua     fome da divindade. Pela oração o Ser humano diz a Deus o quanto o Criador e Redentor é objeto da satisfação dos anelos mais profundos da criatura redimida e consciente do seu criador.”

Deus não precisa da minha oração. Sou eu quem precisa dela. A oração me aproxima de Deus, revela minha dependência, minha fome e sede por Sua vontade, seu Reino, sua pessoa. A oração muda principalmente a mim – minha visão de Deus, do próximo, das circunstâncias. Esta foi a resposta dada por C.S. Lewis quando lhe questionaram sobre o por que ele orava em favor de sua esposa com câncer.

Richard Foster, que é famoso pelos seus livros sobre espiritualidade, diz que “a oração é a principal de todas as disciplinas espirituais” pois ela “nos leva ao agir mais profundo e elevado do espírito humano.” Segundo ele, “orar é mudar” e “a oração é a principal via usada por Deus para nos transformar”. Para Anselm Grün, mesmo a intercessão, a oração pelo próximo, transforma em primeiro lugar a mim mesmo. “Vejo o outro com novos olhos, não mais a partir da minha raiva ou da minha desilusão, e sim a partir de Deus.” A oração “torna possível uma nova comunhão.”

Como orar?
Tendo explorado o tema da oração como um encontro com Deus que, mesmo conhecendo tudo a nosso respeito, nos convida a falar com Ele para que sejamos transformados no processo, resta-nos considerar algumas sugestões de como orar, baseado na narrativa de Lucas 18.

Primeiro, proponho que devemos orar como alguém que entende sua total dependência de Deus. Os personagens na narrativa de Lucas 18 são totalmente dependentes de justiça (viúva), perdão (pecador), amor e cuidado (criança) e direção (cego).  A oração é uma forma de confissão de nossa insuficiência, de nossa limitação, de nossa incapacidade de lidar com os dramas e mistérios da vida.

Segundo, proponho que nossa oração deva ser caracterizada pela insistência (perseverança) da viúva, a contrição do pecador, a inocência da criança (sem formalismos) e a fé do cego.

Terceiro, proponho que a oração deve ser acompanha das Escrituras. P. T. Forsyth disse que “o estudo da Bíblia e a oração caminham de mãos dadas. O que recebemos pela mensagem da Bíblia, devolvemos a ele com interesse em oração. A oração é para nós, paradoxalmente, uma dádiva e uma conquista, uma graça e  um dever.” Precisamos recuperar a arte de aprender a orar com os Salmos, o livro de oração usado pelo próprio Senhor Jesus.

Finalmente, concluo com as palavras de Caio Fábio:

“Coincidentemente, os cristãos mais maduros que eu conheço são aqueles que mais oram. De fato, penso que há uma coincidência entre oração e maturidade humana. Ou seja: uma incide sobre a outra. O ser humano se torna mais humano quanto mais ele contemple o Criador.”

(esboço do sermão pregado no Projeto 242 em 01 de Maio de 2011)

No Sex… before marriage

Na década de 1990, em plena Amsterdã, conhecida como a cidade do sexo, no contexto mais liberal e pós-moderno do mundo, meu amigo David Pierce não se envergonhou em cantar uma música como essa: “No sex before marriage!” (nada de sexo antes do casamento).

Evidentemente, o David não estava muito preocupado com sua popularidade ou reputação. De uma maneira criativa e divertida, ele passava sua mensagem nos lugares e para as platéias mais improváveis possíveis.

Isso é bem diferente do que eu vejo acontecendo hoje em dia.

Muitos pastores, líderes, conselheiros e mentores cristãos, provavelmente sentindo a pressão de uma cultura cada vez mais obcecada com o sexo, e/ou desejosos de comunicar uma mensagem que não soe como “castradora da alegria” estão passando um recado de liberação sexual que não é bíblico e nem saudável.

Como escrevi no texto Free Love Is Neither, a revolução sexual mentiu. O mundo pós-revolução pelo amor livre não é mais feliz nem mais saudável. Pelo contrário, o que presenciamos são índices cada vez maiores de DSTs, depressão, ansiedade, filhos ilegítimos e divórcios (mesmo depois de tanta tentativa antes de se casar, parece que os casais de hoje estão acertando muito menos do que aqueles que não fizeram tentativa alguma).

Vez por outra alguém vem conversar comigo sobre sexo e solta a clássica desculpa: “Mas a Bíblia não diz que deve-se esperar até o casamento!”

Não, a Bíblia não diz isso dessa maneira.

O que a Bíblia diz, de muitas maneiras e de forma inequivoca, é que o contexto onde o sexo é visto como uma bênção e dádiva de Deus é a relação entre um homem e sua mulher na aliança de casamento.

Todas as outras circunstâncias do relacionamento sexual que não se enquadram neste contexto são descritas, na Bíblia, como pecado.

Isso soa radical, careta, ultrapassado, repressivo, obscurantista?

Talvez.

Mas prefiro ficar com o conselho daquele que criou o sexo como algo bom, prazeiroso e construtivo, do que com todos os outros conselhos que já sabemos bem onde terminam.

“…no I’ll never be satisfied, untill it ends in tears…” (Living Colour)

A cruz e o eterno agora

O último disco da banda Metallica, lançado em 2008, chama-se Death Magnetic (algo como “morte magnética”). A capa e as artes no interior do encarte, retratam uma sepultura atraindo tudo à sua volta como se fosse um grande ímã. Parece que a banda está tentando nos lembrar a realidade da morte não apenas próxima, mas como algo que está atraindo lentamente a nossa vida. Em sua primeira carta aos cristãos de  Corinto, no capítulo 15, Paulo chama esta realidade de nossa mortalidade e corruptibilidade.

Num ensaio escrito para o livro What God Knows (O que Deus Sabe), entitulado Meeting the Cosmic God in the Existential Now (Encontrando o Deus Cósmico no Agora Existencial), o sociólogo cristão Tony Campolo trata da relação com um Deus que transcende o tempo. Abaixo estão alguns trechos do texto de Campolo:

Ao refletir sobre como o tempo é relativo ao movimento, quero declarar que acredito que Deus é capaz de experimentar o tempo na velocidade da luz. Para Deus, todo o tempo pode ser comprimido no que o teólogo Emil Brunner chamou de “o eterno agora.” Todas as coisas acontecem “agora” com Deus. Com Deus, mil anos são como um dia, e um dia é como mil anos (Salmo 90.4). O próprio nome de Deus implica esta realidade. O nome de Deus é “Eu Sou.” Deus nunca “era”, e Deus nunca “será”. Deus é sempre “agora”.

Jesus não foi apenas um homem que viveu, morreu e ressuscitou historicamente; Ele também é o Deus para quem todas as coisas estão no momento presente. É por isso que ele podia dizer aos fariseus: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8.58). Jesus não estava usando uma gramática pobre quando falou assim. Em vez disso, ele estava declarando sua divindade. Ele estava dizendo que o tempo antes que houvesse um Abraão é tempo presente para ele. Por causa de sua divindade, ele experimenta todos os eventos no tempo e na história, como se estivessem acontecendo para ele no presente.

Quando Jesus foi pendurado na cruz do Calvário cerca de dois mil anos atrás, sendo Deus, ele estava – e está – simultaneamente comigo aqui e agora. Agora mesmo, sou pego em seu eterno agora. Os séculos que me separam do sofrimento de Jesus no Gólgota são comprimidos, como se à velocidade da luz, de modo que do ponto de vista dele, ele está comigo neste exato momento. Isso significa que, agora, no sentido que Deus tem do tempo, enquanto ele está pendurado na cruz, ele é capaz de ter empatia por mim, e por meio de uma espécie de osmose espiritual, absorver em si todo o pecado e escuridão da minha vida.

Na cruz há dois mil anos, ele levou o castigo pelo meu pecado, mas agora mesmo, no seu eterno agora, ele é capaz de me alcançar daquela velha rude cruz. Como um ímã, ele pode tirar de mim todo o mal que faz parte do minha humanidade, como se fosse algumas limalhas de ferro.

Jesus, sendo Deus, pode purificar-nos hoje, porque ele é, nas palavras do teólogo existencialista dinamarquês, Søren Kierkegaard,”o eternamente crucificado.”

Toda vez que eu peco, naquele mesmo instante Jesus geme em agonia no Calvário. Mesmo enquanto peco hoje, ele experimenta a agonia de ingerir o meu pecado em si mesmo no seu eterno agora, pendurado com os braços abertos lá no madeiro. É por isso que diz em Hebreus 6.6 que, quando pecamos, estamos crucificando-o novamente. Em certo sentido, quando pecamos, o crucificamos agora mesmo.

Eu estava em uma faculdade cristã, que é uma das nossas cidadelas de pureza evangélica, conversando com um aluno que estava um pouco preocupado com o fato de que ele era evangélico, mas estava transando com duas garotas. Disse a ele: “Como você concilia tudo isso com ser cristão? “Ele disse:” Bem, eu acredito que Jesus cuidou de tudo isso há muito tempo e bem longe “. Eu disse: “A próxima vez que você estiver cometendo fornicação, espero que você possa ouvir Jesus gritando de dor no fundo. Porque naquele exato momento ele está simultaneamente com você, absorvendo em seu próprio corpo, o pecado que você está cometendo”.

Não é à toa que Paulo diz que não ousemos pecar para que a graça abunde (Romanos 6.1) pois, enquanto pecamos, dois mil anos atrás na cruz, Jesus atravessa o tempo e o espaço, e atrai os pecados em seu próprio corpo perfeito, como se fossem limalhas de ferro e ele um ímã.

Em 1 João 1.9 nos diz o seguinte: se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo. Ele perdoará os nossos pecados e nos purificará. A teologia Reformada baseia o perdão sobre o que ele fez lá atrás, no Calvário. Mas alguma coisa tem que acontecer agora! Você tem que se render na quietude de Cristo na cruz e deixar que ele o purifique. E não venha me dizer que você não precisa ser purificado.

A resposta para o magnetismo da morte é o magnetismo da cruz. A resposta para a sensação de presença e atração da morte, é a certeza da presença atrativa de Jesus. A resposta para a mortalidade e corruptibilidade de nosso corpo é a ressurreição.

A morte é mesmo um inimigo mortal de todos nós. Todavia mesmo a morte não tem a palavra final diante de Jesus, aquele que venceu a morte com sua ressurreição. Como expressou Tony Campolo, sendo Deus, Jesus não é apenas alguém que viveu no passado, mas que vive no eterno agora e que pode ser encontrado por todos o que o buscam hoje. Ele disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá.”

O maltrapilho e a graça

“A maior causa do ateísmo hoje são cristãos, que reconhecem com seus lábios e negam com seu estilo de vida. Isso é algo que um mundo incrédulo simplesmente acha inacreditável.”

Brennan Manning morreu ontem. Seu legado continuará através dos muitos livros que ele escreveu, sendo o mais conhecido deles “O Evangelho Maltrapilho”.

Li Manning pela primeira vez em 1998. Eu estava viajando com o diretor de uma publicadora cristã, visitando editoras cristãs nos EUA, em busca de livros para publicar em português. Numa pequena cidade (aprox. 800 habitantes) no interior do estado do Oregon, chamada Sisters (por causa das lindas montanhas “irmãs” cobertas de neve), fomos à Multinomah, que havia publicado The Ragamuffin Gospel. O diretor brasileiro não estava interessado no livro (um pena), mas eu sim. Meu interesse por Manning e The Ragamuffin Gospel veio através da música. Artistas como Rich Mullins e Michael W. Smith estavam falando muito bem do livro. A frase acima havia sido usada na introdução de uma música do dcTalk no album Jesus Freak. Eu queria muito ler esse livro. Então, na cara-de-pau, pedi um exemplar para mim. Foi um dos livros que marcou minha jornada como cristão.

Em 2005 quase encontrei com o Manning numa conferência na Califórnia. Ele cancelou a participação na última hora porque sua cidade havia sido devastada pelo furacão Katrina.

Franciscano, Manning foi provavelmente um dos autores católicos mais lidos no meio evangélico nos últimos anos. Seu último livro foi sua autobiografia, All Is Grace: A Ragamuffin Memoir (publicado no Brasil com o título “Deus o ama do jeito que você é”, pela Mundo Cristão).

Alguns de meus amigos reformados não gostam muito de Manning. Acham seus escritos cheios de misticismo e cheirando a “graça barata”. Alguns cristãos pós-modernos, de fato, usam Manning para justificar seus desvios e viver, de fato, uma graça barata. Manning, com seu grande coração, acolheria a ambos para um diálogo amigo. E, provavelmente, rejeitaria a ideia de que seus escritos sobre a graça sejam uma justificativa para continuar pecando.

Espero conhecê-lo naquele Dia.