por Osmar Ludovico

Pastores e lobos têm algo em comum: ambos se interessam e gostam de ovelhas, e vivem perto delas. Assim, muitas vezes, pastores e lobos nos deixam confusos para saber quem é quem. Isso porque lobos desenvolveram uma astuta técnica de se disfarçar em ovelhas interessadas no cuidado de outras ovelhas. Parecem ovelhas, mas são lobos.

No entanto, não é difícil distinguir entre pastores e lobos. Urge a cada um de nós exercitar o discernimento para descobrir quem é quem.

Pastores buscam o bem das ovelhas, lobos buscam os bens das ovelhas.

Pastores gostam de convívio, lobos gostam de reuniões.

Pastores vivem à sombra da cruz, lobos vivem à sombra de holofotes.

Pastores choram pelas suas ovelhas, lobos fazem suas ovelhas chorar.

Pastores têm autoridade espiritual, lobos são autoritários e dominadores.

Pastores têm esposas, lobos têm coadjuvantes.

Pastores têm fraquezas, lobos são poderosos.

Pastores olham nos olhos, lobos contam cabeças.

Pastores apaziguam as ovelhas, lobos intrigam as ovelhas.

Pastores têm senso de humor, lobos se levam a sério.

Pastores são ensináveis, lobos são donos da verdade.

Pastores têm amigos, lobos têm admiradores.

Pastores se extasiam com o mistério, lobos aplicam técnicas religiosas.

Pastores vivem o que pregam, lobos pregam o que não vivem.

Pastores vivem de salários, lobos enriquecem.

Pastores ensinam com a vida, lobos pretendem ensinar com discursos.

Pastores sabem orar no secreto, lobos só oram em público.

Pastores vivem para suas ovelhas, lobos se abastecem das ovelhas.

Pastores são pessoas humanas reais, lobos são personagens religiosos caricatos.

Pastores vão para o púlpito, lobos vão para o palco.

Pastores são apascentadores, lobos são marqueteiros.

Pastores são servos humildes, lobos são chefes orgulhosos.

Pastores se interessam pelo crescimento das ovelhas, lobos se interessam pelo crescimento das ofertas.

Pastores apontam para Cristo, lobos apontam para si mesmos e para a instituição.

Pastores são usados por Deus, lobos usam as ovelhas em nome de Deus.

Pastores falam da vida cotidiana, lobos discutem o sexo dos anjos.

Pastores se deixam conhecer, lobos se distanciam e ninguém chega perto.

Pastores sujam os pés nas estradas, lobos vivem em palácios e templos.

Pastores alimentam as ovelhas, lobos se alimentam das ovelhas.

Pastores buscam a discrição, lobos se autopromovem.

Pastores conhecem, vivem e pregam a graça, lobos vivem sem a lei e pregam a lei.

Pastores usam as Escrituras como texto, lobos usam as Escrituras como pretexto.

Pastores se comprometem com o projeto do Reino, lobos têm projetos pessoais.

Pastores vivem uma fé encarnada, lobos vivem uma fé espiritualizada.

Pastores ajudam as ovelhas a se tornarem adultas, lobos perpetuam a infantilização das ovelhas.

Pastores lidam com a complexidade da vida sem respostas prontas, lobos lidam com técnicas pragmáticas com jargão religioso.

Pastores confessam seus pecados, lobos expõem o pecado dos outros.

Pastores pregam o Evangelho, lobos fazem propaganda do Evangelho.

Pastores são simples e comuns, lobos são vaidosos e especiais.

Pastores tem dons e talentos, lobos tem cargos e títulos.

Pastores são transparentes, lobos têm agendas secretas.

Pastores dirigem igrejas-comunidades, lobos dirigem igrejas-empresas.

Pastores pastoreiam as ovelhas, lobos seduzem as ovelhas.

Pastores trabalham em equipe, lobos são prima-donas.

Pastores ajudam as ovelhas a seguir livremente a Cristo, lobos geram ovelhas dependentes e seguidoras deles.

Pastores constroem vínculos de interdependência, lobos aprisionam em vínculos de co-dependência.

Os lobos estão entre nós e é oportuno lembrar-nos do aviso de Jesus Cristo: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são devoradores (Mateus 7:15).


por Miroslav Volf

Num jantar em homenagem a um convidado de destaque que deve permanecer anônimo aqui, eu estava sentado ao lado de uma mulher muito inteligente, que trabalha para a CBS. O tsunami tinha acabado de atingir a costa da Sumatra, com toda a sua força destruidora, e nós estávamos falando sobre a magnitude da desolação, a condição das vítimas e a insanidade do evento. Ela sabia que eu era um teólogo, então abordou a questão de Deus, de uma forma nada delicada como poderia ser esperado numa ocasião social.

“Onde estava Deus?”

“Como alguém pode acreditar em um Deus bom diante de tamanho sofrimento?”

E foi então que eu cometi meu erro.

A coisa boa, suponho, é que o erro não foi tão ruim quanto poderia ter sido. Eu poderia ter tentado justificar Deus. Afinal, Deus estava sob ataque e eu era um teólogo, e um teólogo que acha Deus imensamente atraente, mesmo se, por vezes, totalmente desconcertante e muito perturbador. Mas lembrei-me do terremoto que destruiu Lisboa em 1755 e Cândido, de Voltaire, um ataque espirituoso e devastador no otimismo filosófico e teológico escrito, em parte, como resposta. Dois terços de Lisboa foram destruídos e cerca de 30.000 pessoas morreram, a maioria devido a uma onda gigantesca e aos incêndios após o terremoto. Era o Dia de Todos os Santos e “igrejas, com velas acesas, desmoronaram sobre multidões de adoradores.” A maioria dos bordéis foram poupados, como Voltaire prontamente notou.

Desde que li Cândido, não tento defender Deus contra a acusação de impotência ou falta de zelo para com os males terríveis. Eu certamente não poderia tornar plausível para mim mesmo que “o que quer que seja, é certo” ou que “mal parcial, é bem universal.” Não é tanto que eu passei a acreditar que tais argumentos devem estar errados. Talvez eu seja persuadido por eles quando a história tiver concluído seu curso e Deus trouxer a redenção e consumação, e eu for capaz de pensar com a cabeça limpa, a partir de um mundo todo restaurado. Isso é o que Martinho Lutero sugeriu que aconteceria em seu tratado sobre A Escravidão da Vontade. Mas aqui e agora, enredado como estou no mundo que empilha sofrimento sobre sofrimento no curso da história, acho tais argumentos implausíveis, falhos e até mesmo um tanto irritantes. O bem do todo parece terrivelmente abstrato e sem significado ou consolo para um ser humano atormentado pelo sofrimento. “Quando a morte coroa os males do homem que sofre, que belo consolo é ser comido pelos vermes!”, escreveu Voltaire com seu característico sarcasmo.

Eu não cometi o erro de tentar justificar Deus – em 2 minutos ou menos. Mas tentei algo quase tão complexo, ainda que mais plausível. Sugeri à minha parceira que o protesto contra Deus diante do mal pressupõe, na realidade, a existência de Deus. Por que estamos perturbados com a força bruta e cega de tsunamis que extinguem a vida de pessoas, incluindo crianças que foram atraídas, como se por algum plano sinistro, para as praias por peixes expostos porque as águas recuaram um pouco antes da chegada da onda gigante? Se o mundo é tudo que existe, e o mundo com placas tectônicas em movimento é onde vivemos, do que devemos reclamar? Podemos lamentar; perdemos algo terrivelmente querido. Mas não podemos reclamar, e certamente não podemos legitimamente protestar. A expectativa de que o mundo deveria ser um lugar hospitaleiro, sem percalços devastadores, está ligada à crença de que o mundo deveria ser constituído de uma certa maneira. E essa crença (distinta da crença de que o mundo é tudo que há) é, por si própria, ligada à noção de um Criador. E isso nos leva a Deus. É Deus quem torna possível protestar que o mal existe no mundo. E é contra Deus que protestamos. Deus é tanto a base do protesto quanto seu alvo. Quase que paradoxalmente, protestamos com Deus contra Deus. Como posso acreditar em Deus quando tsunamis atingem? Eu protesto, e, portanto, acredito.

Foi um erro, no entanto, tentar fazer esse argumento naquele jantar. Não é que, nesse meio tempo, passei a acreditar que o argumento não seja bom. É um bom argumento, ainda que deixe a pessoa com uma fé que parece em desacordo consigo mesmo, com um Deus que é difícil de abandonar e, no entanto, duro de aceitar. Também não é que a minha interlocutora não tenha sido capaz de seguir o argumento, mesmo em forma tão condensada e oferecido entre a salada e o prato principal. Ela foi inteligente o suficiente para isso. No entanto, eu não deveria ter oferecido, não ali e naquele momento, e não como a primeira coisa a ser dita sobre Deus e tsunamis.

“Como alguém pode acreditar em um Deus bom diante de tamanho sofrimento?”

A resposta para esta questão depende, em parte, da outra pergunta que minha interlocutora me fez naquela noite: “Onde estava Deus?” O meu erro foi que eu tentei responder a primeira pergunta sem responder a segunda. Assim como Deus estava, de alguma forma misteriosa, no Crucificado, Deus estava no meio da carnificina causada pelo tsunami, ouvindo cada suspiro, recolhendo cada lágrima, ressoando o tremor de cada coração aflito. E assim como Deus estava no Ressuscitado, Deus também estava em cada mão auxiliadora, em cada decisão de sacrificar a própria vida para que outros pudessem viver. Deus sofreu e Deus ajudou.

Eu sei que, ao mesmo tempo, Deus também estava sentado em Seu trono celestial. Por que o Onipotente e Amoroso não fez algo sobre o tsunami antes que ele atingisse? Eu não sei. Se eu soubesse, poderia justificar Deus. Mas não posso. É por isso que estou perturbado, ainda, pelo Deus por quem sou tão imensamente atraído e que não me abandonará.

(Extraído de Against the Tide: Love in a Time of Petty Dreams and Persisting Enmities)


Há algum tempo tenho tentado alertar pessoas para o risco que o liberalismo teológico representa para a fé. Quando faço isso, muitos me acusam de conservador (na melhor das hipóteses) ou fundamentalista (caso queiram me ofender). Todavia, a história é um testemunho de como o liberalismo teológico tem minado a Igreja na Europa e na América do Norte. Não quero com isso dizer que este seja o objetivo dos liberais. Pelo contrário, o impulso inicial do liberalismo teológico foi um esforço para tornar a mensagem cristã mais aceitável para o homem moderno. Como disse C. S. Lewis, “os liberais são homens honestos e pregam sua versão de cristianismo, por acreditarem ser ela verdadeira.” Mas o resultado tem sido fatal (literalmente, gerando morte espiritual de pessoas e igrejas). O texto abaixo, de Michael Witmmer, aponta como o liberalismo teológico tem funcionado exatamente no sentido contrário àquele que se esperava:

Eis aqui o calcanhar de Aquiles do liberalismo teológico. A cultura pode inicialmente ficar atraída pelo evangelho liberal da razão humana e autonomia individual – finalmente temos um grupo de cristãos que entendem! – mas não demora muito para que as pessoas percebam que esta versão diluída do Cristianismo é simplesmente redundante. A maioria das pessoas pensa que elas são basicamente boas – certamente boas o bastante para merecer o céu, ainda que devam se esforçar um pouco mais para amarem o próximo. Esta é essencialmente a mensagem liberal, com um pouco de Jesus misturado para dar uma medida moralmente boa, mas não biblicamente sólida.
Eventualmente a cultura dominante percebe que as igrejas liberais não estão dizendo nada além do que já não tem sido dito centenas de vezes pela Oprah. Então por que sequer contar a “história de Jesus”? Elas logicamente perguntam, “Se Jesus não foi nada mais do que o modo como os cristãos falam sobre amor ao próximo, então porque não podemos simplesmente amar o próximo sem esse papo sobre Jesus?” É aí que as igrejas liberais começam a declinarem, porque as pessoas não irão fazer o esforço de sair de casa cedo para ir para igreja quando elas podem dormir até mais tarde e escutar a mesma mensagem moral e inspiradora na televisão [pela Oprah]. Como C. S. Lewis lembrou seu amigo, “Aliás, já conheceu alguém, ou ouviu falar de caso parecido, que tivesse se convertido do ceticismo para um cristianismo ‘liberal’ ou ‘demitologizado’? Acho que, quando os incrédulos se achegam, costumam ir muito mais além.”
(Michael Witmmer, Christ Alone, p. 59-60)