2010
Porque eu amo a Igreja
Eu amo a Igreja.
Ela é a Noiva de Cristo e seria um descaramento enorme de minha parte amar Jesus e não amar sua noiva.
Eu amo a Igreja porque Jesus a amou e deu Sua vida por Ela.
Eu amo a Igreja porque ela é constituída de gente como eu, pecadores salvos pela graça de Deus, mediante a fé em Cristo.
Eu amo a Igreja porque ela é portadora da Grande Comissão que leva esperança a todos os povos.
Eu amo a Igreja porque sou parte dela e não curto muito a ideia de masoquismo disfarçado de espiritualidade.
Eu simplesmente amo a Igreja.
Numa época em que virou moda falar mal da igreja e incentivar pessoas a abandonarem suas igrejas, num êxodo espiritual que Deus sabe lá para onde levará os que o seguirem, eu continuo afirmando meu amor por Cristo e Sua Igreja.
Foi por isso que comprei o livro recente de Kevin DeYoung e Ted Kluck. Aliás, este livro merece ser publicado em português e lido em conjunto com toda a literatura promovendo a nova instituição do cristianismo sem igreja. O título já é provacativo: Why We Love the Church: In Praise of Institutions and Organized Religion (Porque Nós Amamos a Igreja: Em Louvor de Instituições e Religião Organizada). DeYoung e Kluck, que já tinham sinalizado desvios no movimento de igreja emergente em seu livro anterior (Porque Não Somos Emergentes: Por dois caras que deveriam ser), apontam agora as distorções do cristianismo sem igreja. Segundo eles, seu livro poderia ter sido chamado de “tendências recentes em desmembramento”.
É preciso conhecer bem pouco da Bíblia e da História da Igreja para cair nessa crença de que tanto uma quanto a outra ensinam uma vida de cristianismo sem igreja. Por mais que os “advogados” do cristianismo sem igreja possam falar, não há nem nos ensinos de Jesus, nem no restante do NT, nem na história da Igreja, nenhuma ênfase a seguir Jesus sem participar da comunhão dos santos.
É evidente que no curso da história, pessoas quiseram influenciar o pensamento cristão com suas idéias e contestações. Muitas destas foram consideradas heresias e não prevaleceram. Albert Camus disse: “Todo revolucionário termina se tornando ou um opressor ou um herege.” A “Revolução” sem igreja tem mais chances de se tornar no último. Assim também a fuga do “Cristianismo Pagão” pode gerar mais pagãos no longo prazo, do que verdadeiros discípulos de Jesus, como pretendem seus autores.
A razão simples para isso é que as idéias propagadas por esses livros (e outros semelhantes a eles) poderiam até ser de alguma utilidade, não fosse a tremenda cara-de-pau expressa no messianismo disfarçado de seus autores, ao se colocarem como os “salvadores” da Igreja das garras malígnas da Instituição. Durante dois mil anos todo mundo esteve errado. Agora, graças a eles, finalmente poderemos enxergar a verdade sobre o Cristianismo. E a verdade que eles anunciam é essa: “Saia de sua igreja! Ela é a raiz de todos os seus problemas espirituais. Vá jogar golfe aos domingos, pois a verdadeira espiritualidade se encontra no campo de golfe… Vá tomar uma cervejinha no barzinho com amigos e filosofar sobre assuntos espirituais porque é aí que está a igreja verdadeira…” Corta essa meu!
Adiante o filme da história em 50 anos e veja se você consegue enxergar os efeitos dessa onda do cristianismo sem igreja:
1) Na pior das hipóteses, seu resultado será uma vitalidade espiritual semelhante a presente hoje no continente europeu. Não creio que nenhuma pessoa que ame Jesus de fato, deseje isso.
2) Ou então terá desaparecido, assim como outras ondas e modas surgidas no passado que, por não estarem em sintonia com o Espírito de Deus, não prevaleceram contra a Sua Igreja.
Se eu estiver errado em minha atitude para com a Igreja, não terei perdido nada com isso. Como já disse, eu amo a Igreja. Amo estar com meus irmãos para celebrar junto com eles a vida (ainda que, em certas estações da vida, esse encontro aconteça apenas uma ou duas vezes por semana), aprender o significado do amor, perdão, comunhão e incentivar uns aos outros na prática das boas obras e na proclamação da esperança do Evangelho.
De um modo pragmatico, vejo muito mais possibilidades de servir a Deus em conjunto com outros, do que isolado em meu canto, blogando de pijama (como diria Mark Driscoll) sobre os males da instituição, como se “a instituição” fosse um mal em si mesma.
John Michael Talbot diz o seguinte sobre Igreja e instituições: “Ainda que algumas instituições religiosas possam com freqüencia assemelhar-se mais a corporações seculares do que a comunidades voltadas para Deus (…) sempre há lugar nas igrejas para aquelas pessoas guiadas por um completo comprometimento espiritual.”
A Igreja prevalecerá contra todos os ventos de doutrina, não há dúvidas quanto a isso. A questão (e o que me preocupa) é quantos daqueles que estão trocando suas congregações por essa onda atrativa do cristianismo sem igreja estarão firmes na fé em Cristo daqui 5-10 anos…
2010
Doutrina Vs. Vida?

Freqüentemente ouvimos pessoas dizendo que não é o que alguém crê e, sim, o que faz que tem importância. Trata-se de meia verdade, que, como acontece com as verdades apresentadas pela metade, chega a ser perigosa. É meia verdade porque, do ponto de vista cristão, o pensamento teológico não é nenhum fim em si mesmo. O cristianismo é doutrina que se propõe a ser vivida. Visa a resultar em ações. De forma que, se permanecer sempre como pensamento, torna-se algo até mesmo destituído de verdadeiro cristianismo e, portanto, fútil. Entretanto, acentue-se que se trata de meia verdade, pois, o que quer que o homem faça, tal comportamento estará em íntima correlação com o que pensa e com o que crê ser o valor último da existência. Sempre que o chamado homem prático se encontra diante de situações que lhe forçam a decidir quanto à melhor maneira de proceder, sente ser portador de alguma idéia implícita quanto ao que constitui um alvo a ser alcançado em tal circunstância, ou que valores se lhe impõem como devendo ser assegurados mediante o encontro das soluções cabíveis. Além disso, ele não poderá deixar de revelar algum conceito quanto aos meios mais recomendáveis pelos quais os valores serão alcançados. Tudo isso não passa de teologia, implícita ou explicitamente.
- William E. Hordeen em Teologia Contemporânea, Hagnos.
2010
Haiti nosso de cada dia

Há pouco mais de uma semana os olhos do mundo se voltaram para o Haiti, uma pequena ilha caribenha atingida por um terremoto devastador. Estima-se que 200 mil pessoas possam ter morrido, apesar de que o número exato de mortes demorará para ser computado.
Em meio a tragédia e sofrimento sem medida, temos assistido uma emergência de solidariedade imensa, vinda de todas as partes do mundo, para socorrer os soterrados, os feridos e mais de 1 milhão de desabrigados sedentos e famintos na Capital Porto Príncipe. Histórias emocionantes de resgate surgem a cada dia, como a de Anna Zizi, uma senhora de 70 anos, ou a de um bebê recêm-nascido de 23 dias, ambos resgatados com vida uma semana após o terremoto.
Tenho visto um grande número de cristãos respondendo nesta hora com paixão e urgência, o que é sem dúvida alguma animador. A maioria das respostas que vejo, no entanto, é de blogueiros e twiteros chamando pessoas para fazer doações (muitas vezes impensadas e que correm o risco de nunca alcançarem seu destino), denunciando as declarações tolas de Pat Robertson ou aproveitando o momento para falar mal de alguma pessoa, governo ou instituição.
Ainda assim, não conheço ninguém pessoalmente se manifestando no sentido de ir ao Haiti ajudar nas equipes de resgate (a maior necessidade logo após um terremoto), atender os feridos ou trabalhar na reconstrução que se seguirá nos próximos meses e anos. Estes são passos que exigem muito mais engajamento pessoal.
Entendo que nem todo mundo tenha condições de ir a Porto Príncipe. Mas não consigo deixar de pensar também nas tragédias negligenciadas no dia-a-dia, muitas delas bem próximas de cada um de nós. Fico pensando quantos blogueiros e twiteros que manifestam tanta paixão agora pelo Haiti, vivem suas vidas com a mesma paixão, entrega e abnegação no dia-a-dia? Quantos estão engajados em atividades missionais rotineiramente, de tal maneira que suas postagens sejam carregadas não somente de emoção politicamente correta, mas de autoridade de vida seguindo o Caminho de Jesus?
É trágico o que aconteceu no Haiti. Não tenho a intenção de minimizar a tragédia nem tampouco desencorajar os esforços humanitários neste momento de dor. O que gostaria, sinceramente, é que todos aqueles tocados agora, pudessem enxergar o Haiti nosso de cada dia e se envolver nele com a mesma intensidade quando as notícias deste terremoto se dissiparem como a névoa. Isso sim seria revolucionário…
2010
Pregar ou não pregar?
“Pregue o Evangelho o tempo todo. Se necessário use palavras.”
A frase acima é comumente atribuída a São Francisco de Assis e usada como um pretexto para o seguinte:
“Não é mais necessário pregar, basta viver o Evangelho e as pessoas entenderão quem é Jesus.”
Primeiramente, quero dizer que gosto de São Francisco. Tenho suas obras completas (Escritos e biografias de São Francisco de Assis, Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano), das quais li 1/3 aproximadamente, e sua vida muito me inspira. Um dos meus hinos favoritos é baseado em um cântico escrito por Francisco.
Em segundo lugar, apesar de ser reconhecidamente bem franciscana em seu espírito, tudo indica que a frase acima não é de São Franciso de Assis. Os mais eminentes estudiosos franciscanos pesquisaram todos os seus escritos e as biografias escritas até 200 anos após sua morte e não encontraram nelas tal frase. O mais próximo que chegaram foi a uma instrução que Francisco deu em sua Regra Não-Bulada dizendo que ninguém deveria pregar a menos que tivesse recebido permissão de seu ministro para fazê-lo. E acrescentou: “No entanto, todos os irmãos podem pregar pelas obras.” (RegNB 17.1 e 3)
Entretanto, uma vez que a frase é atribuída a São Francisco e usada para apoiar a atitude de cristãos pós-modernos de não pregar (visto que pregar é antiquado, ofensivo e politicamente incorreto), por que não olhar para a vida de São Francisco e ver se o modo como ele viveu sustenta essa teoria?
A biografia de São Francisco revela que ele foi um fervoroso missionário, viajou centenas de quilômetros para pregar (isso mesmo!) o Evangelho aos italianos, desejou muito alcançar os sarracenos (muçulmanos) chegando a enfrentar um naufrágio (na primeira tentativa de ir até a Síria) e enfermidade (quando se encontrava à caminho do Marrocos). Francisco era um pregador ao ar livre, falando nas feiras públicas, das escadarias das igrejas e das muretas nos pátios dos castelos. O livro St Francis of Assisi and the Conversion of Muslims por Frank Rega, narra o esforço de Francisco para converter Melek el-Khamil, sultão do Egito, durante a Quinta Cruzada (1219). Francisco esperava convertê-lo “não com armas, mas sim com palavras” diz o monge John Michael Talbot em seu livro Lições de São Francisco. Talbot cita Chesterton: “Francisco seguia esta máxima simples: É preferível criar cristãos a destruir muçulmanos.”
O capítulo 16 de sua Regra Não-Bulada trata dos que quiserem “ir para entre os sarracenos e outros infiéis.” Francisco dá a seguinte instrução: “Os irmãos que partirem [em viagem missionária] poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis: O primeiro modo consiste em abster-se de rixas e disputas… e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor.” (RegNB 16.6-8)
Não há dúvidas de que São Franciso pregava, de que ele acreditava na necessidade de conversão das pessoas e de que usava palavras para comunicar o Evangelho. De fato, São Francisco gostava tanto de pregar, que ele passou a pregar até mesmo para os pássaros e animais (sim, com palavras!) de acordo com algumas das lendas a seu respeito, surgidas após sua morte (a mais famosa delas é o Fioretti escrito no século 14).
Assim sendo, creio que o sentido da frase não é que não devemos usar palavras. É que sempre que necessário, devemos usar palavras. E palavras são necessárias quando se trata de explicar a razão de nosso amor, fé e esperança.
É simplesmente impossível conhecer Jesus sem a pregação. Como argumentou o apóstolo Paulo: “Como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?”
Sem a pregação as pessoas podem até ter uma idéia de que servimos a Deus, mas ficam sem saber quem/como Ele é. Seria esse Deus a natureza ao nosso redor? Seria uma energia cósmica? Uma força impessoal?
A frase deveria ser vista mais como uma advertência contra a hipocrisia daqueles que pregam, mas não vivem o que pregam, do que uma instrução para que se pare de pregar e ensinar o Evangelho de maneira clara e verbal.
Para o seguidor de Jesus, pregar e ensinar não são opcionais. São uma ordem. Jesus disse: “Vão e preguem o evangelho a todas as pessoas” e “vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os… ensinando-os a obedecer tudo o eu lhes ordenei.”
Se há algo claro nas Escrituras é que obras não salvam. Isso foi denunciado pelos profetas no VT, demonstrado por Jesus e ensinado pelos apóstolos no NT. Boas obras podem ser praticadas em abundância, mas elas não são suficientes para salvação. Qualquer crente fiel ao espírito das Escrituras sabe que não faz obras para ser salvo, mas faz porque foi salvo, faz porque ama Aquele que nos amou primeiro e nos ensinou o amor pelo próximo.
Boas obras feitas em nome de Jesus demonstram amor. Mas as pessoas só saberão que é o amor de Deus que nos constrange se nos dispusermos a falar isso a elas, respondendo a todos os que nos perguntarem a razão de nossa esperança. Caso contrário, elas podem até pensar que foi Kardec, Buda ou Maomé quem nos inspirou a fazer tais obras.
Ao mesmo tempo, creio que devemos nos questionar o que há de errado quando, ao viver nossas vidas em devoção profunda por Deus e demonstração de amor pelo próximo com a prática de boas obras, ninguém nunca nos pergunta a razão de nossa esperança, fé e amor.
Viva o Evangelho o tempo todo. Quando lhe perguntarem a razão, use palavras.
2010
Faça-me igual a seus seguidores?

Encontrei a história abaixo no livro ReJesus de Michael Frost e Alan Hirsh (pg. 79-80). Ela me fez lembrar das palavras de Paulo aos crentes em Corinto: “Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo.”
***
Tony Campolo conta a história de um bêbado que foi convertido miraculosamente no abrigo Bowery em Nova Iorque.
O bêbado chamado Joe era um homem abandonado sem esperança, vivendo com os dias contados. Mas após sua conversão, tudo mudou. Joe se tornou a pessoa mais carinhosa que qualquer pessoa associada ao abrigo já conheceu. Ele gastava seus dias e noites no local, não hesitando nem mesmo para as tarefas mais difíceis. Ele limpava os vômitos, a urina e os bêbados em qualquer estado que se encontrassem. Não havia nada que ele considerasse tão exigente de si mesmo.
Uma noite quando o diretor do abrigo estava compartilhando sua mensagem evangelística para os frequentadores regulares do local, homens mau-humorados e calados com suas cabeças baixas em penitência e cansaço, um homem ergueu-se e caminhou em direção ao altar, ajoelhando-se para orar e clamar para Deus ajudá-lo a mudar de vida.
O bêbado arrependido começou a gritar: “Oh Deus, faça-me igual ao Joe! Faça-me igual ao Joe! Faça-me igual ao Joe!”
O diretor do abrigo inclinou-se e disse ao homem: “Filho, penso que seria melhor se você orasse: “Faça-me igual a Jesus!”
O homem olhou para o diretor com uma expressão embaraçada em sua face e perguntou-lhe: “Ele é igual ao Joe?”
***
Quão diferente é isso daquela camiseta com as seguintes inscrições: “Jesus save me from your followers!” (Jesus, salve-me de seus seguidores!)?
Como seria se vivêssemos de tal maneira que as pessoas que buscam por Deus pudessem orar: “Senhor, faça-me igual aos seus seguidores”?
Como seria se pudesse ser dito a nosso respeito o que o fisósofo ateniense Aristides († 130), escrevendo possivelmente ao imperador Adriano César (117-138) disse acerca da vida dos primeiros cristãos?
“Os cristãos ó rei, vagando e buscando, acharam a verdade conforme pudemos achar em seus livros, estão mais próximos que os outros povos da verdade e do conhecimento certo, pois crêem no Deus criador do céu e da terra, naquele em quem tudo é e de quem tudo procede, que não tem outro Deus por companheiro e do qual eles mesmos receberam os preceitos que guardam no coração, com a esperança e expectativa do século futuro. Por isso, não cometem adultério, não praticam a fornicação, não levantam falso testemunho, não recusam devolver um depósito, não se apropriam do que não lhes pertence. Honram pai e mãe, fazem bem ao próximo e, quando em juízo, julgam com equidade. Não adoram os ídolos semelhantes aos homens. O que não desejam lhes façam os outros não o fazem também; não comem alimentos de sacrifícios idolátricos, pois são puros. Exortam os que os afligem, a fim de fazê-los amigos. Suas mulheres, ó rei, são puras como virgens, suas filhas são modestas. Seus homens se abstém de toda união ilegítima e da impureza, esperando a retribuição que terão no outro mundo. Aos escravos e escravas, bem como a seus filhos – se os têm – persuadem a tornar-se cristãos, em razão do amor que lhes dedicam, e quando se tornam, chamam-nos indistintamente irmãos. Não adoram a deuses estranhos e vivem com humildade e mansidão, sem qualquer mentira entre eles. Amam-se uns aos outros, não desprezam as viúvas. Protegem o órfão dos que os tratam com violência. Possuindo bens, dão sem inveja aos que nada possuem. Avistando o forasteiro, introduzem-no na própria casa e se alegram por ele, como se fora verdadeiro irmão: pois se dão o apelativo de irmãos, não segundo o corpo, mas segundo o espírito e em Deus. Se algum pobre passa deste mundo, alguém sabendo, encarrega-se – na medida de suas forças – de dar-lhe sepultura. Se conhecem um encarcerado ou oprimido por causa do nome do seu Cristo, ficam solícitos a seu respeito e se possível libertam-no. Quando um pobre ou necessitado surge entre eles e não possuem abundância de recursos para ajudá-lo, jejuam dois ou três dias para obter o necessário para o seu sustento. Guardam com diligência os preceitos do seu Cristo, vivem reta e modestamente – conforme lhes ordenou o Senhor Deus. Todas as manhãs e horas louvam e glorificam a Deus pelos benefícios recebidos, dando graças por seu alimento e bebida. Mesmo se acontece que um justo – entre eles – passa deste mundo, alegram-se e dão graças a Deus, ao acompanharem o cadáver, como se emigrasse de um lugar para outro. E assim como quando nasce um filho louvam a Deus, também se ele morre na infância glorificam a Deus, por quem atravessou o mundo sem pecados. Mas vendo alguém morrer na malícia e nos pecados, choram amargamente e gemem por ele, supondo-o ir ao castigo. Tal é, ó rei, a constituição da lei dos cristãos e tal a sua conduta”. (Apologia)
Foi pelo poder de testemunhos assim que o Evangelho se espalhou e conquistou cada vez mais adeptos, mesmo sob ferrenha perseguição, nos primeiros séculos da Era Cristã.
Eu sei que estou longe disso. Mas como disse George Verwer: “O primeiro passo nesta revolução [de amor e equilíbrio] é querê-la.”
E eu quero. Pela graça de Deus e no poder do Espírito Santo, eu quero. Ainda que leve toda a minha vida, de tropeços e confissões, de grandes sonhos e pequenas realizações, eu quero. Por isso, como peregrino no mundo, correndo a carreira da fé, oro: Senhor, faça-me como Jesus para que Jesus seja visto através de mim. Kyrie eleison. Christe eleison. Kyrie eleison.
“Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado… mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.”
2010
A entrevista

Há um ano foi publicada uma matéria na Revista da Folha falando sobre o Projeto 242, que provocou uma enxurrada de e-mails, comentários, pessoas elogiando, muitas criticando, etc. Tendo passado um ano, acho que posso publicar aqui no meu blog a entrevista original que eu dei para a revista por e-mail (a outra, foi um bate-papo informal com a jornalista e o fotógrafo junto com o Claudio Tiberius).
Passados um ano também, percebo que algumas coisas mudaram em relação a mim pessoalmente e ao Projeto 242. Creio que não nos encaixamos mais no rótulo de igreja emergente. O movimento emergente (principalmente o Emergent Village) tomou o rumo da teologia liberal e do evangelho social (e sendo sincero, eu respeito mais a “lógica espiritual” de um ateu do que a de um cristão liberal). O liberalismo teológico nunca produziu vida. Seus frutos podem ser observados na realidade espiritual do continente europeu. Então não me vejo mais carregando a bandeira da igreja emergente.
Quanto ao Projeto 242, talvez a principal mudança da época destas entrevistas e matéria é que o ministério Sexxxchurch, que começou entre nós, seguiu seu próprio caminho e não possui mais nenhum vínculo conosco.
Bom, de qualquer modo, segue a entrevista.
****
Existem igrejas parecidas com o projeto 242 pelo mundo? Qual foi a precursora e as principais atualmente? Vocês mantém contato com essas igrejas?
Há muitas igrejas parecidas com o P242 pelo mundo, a maioria delas dentro de um movimento chamado Igreja Emergente. É difícil precisar com exatidão qual foi a precursora, mas com certeza esse movimento nasceu de verdade na Inglaterra na década passada com igrejas que começaram a oferecer cultos alternativos para a juventude. Algumas das principais igrejas emergentes na Inglaterra e nos EUA são: Ikon, Moot (UK) Mosaic, Mars Hill, Solomon’s Porch, Ecclesia (EUA).
Vocês se consideram evangélicos?
Nós preferimos dizer que buscamos seguir Jesus. Ele não era nem Católico, nem Evangélico. Dentre nós há pessoas que tem um background católico e outras (talvez a maioria) vem de uma tradição evangélica.
Como o dízimo é tratado no projeto 242?
Tem uma postagem no meu blog sobre isso, talvez você queira ler.
Gostaria que você descrevesse o momento (onde, quando, em quais circunstâncias) que você decidiu criar a igreja. Por alto você me disse que foi na casa de um amigo, é isso mesmo?
Eu servia na equipe pastoral de uma igreja no bairro do Ipiranga e tinha começado um trabalho chamado Refúgio do Rock, onde bandas de hard rock e metal pesado se apresentavam todas as sextas-feiras (isso tudo de 1993-1997). No passagem de ano de 1996 para 1997, eu estava na sala do pastor senior daquela igreja quando ele perguntou-me se eu gostaria de abrir uma nova igreja em SP. Minha esposa e eu estávamos pensando seriamente em ir para os EUA onde eu planejava fazer um mestrado em Teologia. Portanto minha resposta foi: “Não, já existem igrejas demais em SP, não tenho interesse nenhum em abrir mais uma.” Mas aquela pergunta me perseguiu nos meses seguintes e acabou gerando em mim e em algumas pessoas o desejo de iniciar algo novo. Nossa idéia era que, se fôssemos fazer isso, não tinha sentido algum ser uma cópia daquela igreja ou de outras tantas que conhecíamos. Durante o segundo semestre de 1997 esse grupo se reuniu num apartamento no bairro do Ipiranga para sonhar com essa nova igreja. Iniciamos oficialmente em janeiro de 1998, nos reunindo num flat na Alameda Ribeirão Preto, na Bela Vista. Dois anos e meio depois alugamos uma casa na Vila Mariana onde nos reunimos até o mês de julho deste ano, quando mudamos para a Rua da Glória. Tem uma postagem no meu blog sobre isso.
Qual é a tua profissão? Você nasceu católico, evangélico?
Atualmente sou pastor-missionário em tempo integral. Nasci num lar com mãe protestante e pai católico nominal.
Como o homossexualismo é visto no projeto 242? E o uso de drogas?
Esse é um tema bem complexo para se tratar de modo superficial e em poucas linhas. Mas se eu tiver que responder em poucas linhas, a resposta é a seguinte: Buscamos encorajar as pessoas a viver uma sexualidade que esteja de acordo com o que entendemos ser apresentado na Bíblia. Isso significa que o sexo seja a relação entre um homem e uma mulher dentro da aliança (pacto) do casamento. Tem uma postagem no meu blog sobre isso.
Em relação as drogas, entendemos que qualquer coisa que rouba a razão e liberdade das pessoas é maléfico. Sendo assim, a lista de “drogas” poderia ser imensa e incluir até a religião quando ela faz isso. De qualquer modo, tendo visto bem de perto o estrago que o abuso do álcool e outras substâncias pode causar nas pessoas, eu definitivamente não aconselho ninguém a usar drogas e abusar das bebidas.
Jesus é visto como um revolucionário pela igreja?
Jesus é visto como muito mais que um revolucionário para nós. Ele é a imagem visível do Deus invisível. Ele veio nos mostrar Deus como ele é, e o homem, como ele deve ser. Agora, sem dúvida, isso é uma revolução total, uma revolução de amor, pois Jesus disse que as coisas mais importantes da vida são amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Não é possível viver essa realidade sem revolução de vida, valores, conceitos, etc.
2010
Passando por cima das feridas
As vezes temos que “passar por cima” de nossa raiva, nosso ciúme ou nossos sentimentos de rejeição e seguir adiante. Somos tentados a ficar presos a nossas emoções negativas como se lá fosse nosso lugar. Então nos tornamos “o ofendido”, “o esquecido” ou “o rejeitado”. Sim, podemos nos vincular a essas identidades negativas e até mesmo ter um prazer mórbido com isso. Talvez seja uma boa idéia dar uma olhada nesses sentimentos obscuros e tentar descobrir de onde vêm. Mas então chega o momento de passar por eles, deixá-los para trás e seguir adiante em nossa viagem.
- Henri Nouwen, Pão para o Caminho, leitura do dia 9 de Janeiro.
2010
O que você pensa da Igreja?
Esta semana me enviaram um link de um video bonito e desafiador sobre a Igreja. Nele, pessoas diferentes, respondiam o que elas pensavam sobre a Igreja. Pelas respostas dava para ver que elas não tinham uma boa impressão.
O maior desafio deste video para mim é que ele nos chama como seguidores de Jesus a 1) buscar na Bíblia a definição de igreja e 2) viver essa definição em nosso dia-a-dia.
Por mais que eu dê valor (de um ponto de vista estratégico e missiológico) a esse tipo de entrevista para saber o que os outros pensam sobre a igreja, no final das contas, é preciso dirigir a pergunta a mim mesmo.
“Quem os homens dizem que eu sou?” perguntou Jesus a seus seguidores.
“E vocês, quem vocês dizem que eu sou?” perguntou ele uma segunda vez.
Fica claro do texto que a resposta dos discípulos à segunda pergunta tinha repercussões muito mais profundas do que a resposta dos outros à primeira. A segunda pergunta (e resposta) traz a reflexão para o campo pessoal que, no final das contas, é o que de fato interessa a Jesus e a nós.
É hora da Igreja voltar-se para as Escrituras e buscar agradar Aquele que a comprou com Seu Sangue.
É hora da Igreja ser Igreja de Cristo, Noiva de Cristo, Corpo de Cristo, comprometida com a Verdade do Evangelho.
“Vocês são o sal da terra e a luz do do mundo.”
A quem são dirigidas estas palavras?
Aos pobres de espírito (humildes),
Aos que choram (pelos seus próprios pecados, em arrependimento),
Aos mansos (que reconhecem não possuir nenhum direito e, portanto, tratam os outros como superiores a si mesmos),
Aos famintos e sedentos por justiça (em todos os seus aspectos – moral, legal e social),
Aos misericordiosos (aqueles que se tornam próximos dos caídos para auxiliar em sua restauração),
Aos puros de coração (sinceros diante de Deus e dos homens),
Aos pacificadores (ministros de reconciliação)
E aos perseguidos por causa de Jesus (justamente por viverem todas essas coisas, o mundo os odiará assim como odiou a Seu mestre).
A estes é dito:
“Brilhe a vossa luz diante dos homens para que eles vejas as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”
Esta é a Igreja e ela é portadora da Esperança do Mundo.
Como expressou Warren Wiersbe em seu livro Crise de Integridade, escrito logo após a onda escândalos dos televangelistas norte-americanos no fim da década de 1980:
“Prefiro ser um cristão em luta com os problemas de uma igreja imperfeita a ser um perfeito pecador fora dela.”
Ele ainda lembra o que um dos chamados Pais da Igreja disse, que ela é algo parecido com a Arca de Noé: se não fosse pelo julgamento de Deus contra os que estão de fora, seria impossível agüentar o cheiro lá de dentro.
“Integridade significa que a luz está brilhando no interior porque a pessoa (ou o grupo) possui um coração honesto, uma mente honesta e uma vontade honesta.
Hipocrisia significa que houve divisões e as trevas penetraram.
Duplicidade significa que a luz tornou-se trevas, o errado tornou-se certo e o pecado tornou-se aceitável.”
O Espírito diz à Igreja em Apocalipse: “Aqueles que são santos, santifiquem-se ainda mais.”
2009
Avatar o Reino
![]()
(Aviso: essa postagem pode conter spoilers para quem não assistiu o filme)
Fui ver Avatar no último sábado. Foi um dos melhores filmes que assisti em 2009. Vale a pena ser visto em 3D.
Apesar de ser um blockbuster com todos os clichês hollywoodianos (o que esperar do diretor de Exteminador do Futuro, Aliens e Titanic, dentre outros?) Avatar tem imagens belíssimas do fictício planeta Pandora e traz uma crítica contundente sobre o colonialismo e imperialismo cruéis que têm sido praticados por império após império na história da humanidade. Naturalmente, o que logo nos vem a mente ao ver o filme, é o imperialismo norte-americano recente da era Bush, que levou a nação americana à guerra não tanto para defender-se do terrorismo como Bush alegava, mas para defender seus interesses de exploração de certos recursos naturais em outra nação, como ficou evidente.
Uma cena do filme, após a destruição de uma árvore que parecia ser indestrutível e era simbólica para a população dos Na’vi, lembra o cenário de Nova Iorque coberta de pó e cinzas em 11 de setembro, quando as torres gêmeas que também pareciam indestrutíveis e eram símbolo do capitalismo ocidental ruiram. Seria uma forma de nos lembrar que o mal que não desejamos para nós, não devemos derramar sobre os outros?
Em sua mensagem principal, Avatar é A Missão* do século 21. O filme nos faz pensar seriamente sobre nossa relação com a natureza e com os outros seres humanos.
Ao ver Avatar e seu paradisíaco mundo de Pandora, onde havia uma conexão entre todos os seres vivos, gerando um respeito pelos animais, plantas e pela natureza viva, um profundo senso do sagrado e reverência pelo divino, fiquei imaginando como teria sido o Éden. De fato, Avatar me fez ansiar pelo novo céu e nova terra, quando tudo será restaurado, quando serão feitas novas todas as coisas.
Avatar é uma palavra sanscrita que significa encarnação. No fime Avatar, o ator princípal encarna o corpo sintético-biológico de um nativo Na’vi por meio de uma tecnologia super-ultra-avançada (ficção ciêntifica pura), aprende sua língua, seus costumes, torna-se um deles, com o objetivo de transmitir-lhes uma mensagem (que, infelizmente, não eram boas notícias). Este aspecto do filme tem um apelo especial para mim porque encarnação é um de meus conceitos teológicos e missiológicos favoritos. Os Evangelhos são a narrativa do Deus que se fez carne e habitou entre nós, falando nossa língua e vivendo nossos costumes para nos transmitir a mensagem de boas notícias de salvação (e não de coerção e destruição) de maneira inequívoca.
Como Igreja, nossa missão neste mundo, enquanto aguardamos o novo céu e nova terra, é encarnar o Evangelho de tal maneira que nossas vidas sejam um reflexo neste mundo (ainda que pálido em comparação) de como será a vida no próximo.
Precisamos avatar o Reino no poder do Espírito Santo.
“Venha o Teu Reino, seja feita a Tua Vontade, na terra como nos céus. Amém.”
_____
* filme com Jeremy Irons e Robert DeNiro lançado em 1986.
2009
Teísmo(?) Aberto
Há 5 anos aconteceu o Tsunami da Ásia, uma catastrofe que tirou a vida de 230 mil pessoas e deixou mais de 1 milhão de desabrigados nos 11 países que sofreram a devastação causada por ondas gigantes.
Inconformados com a tragédia de proporções bíblicas, alguns pastores e teólogos brasileiros começaram a questionar se Deus poderia realmente estar no controle do mundo e, ao mesmo tempo, permitir tanta morte e sofrimento. A onda do Tsunami trouxe consigo uma outra onda para os cristãos brasileiros: o teísmo aberto.
O texto abaixo apesar de breve, dá uma noção sobre o que é o teísmo aberto, sua premissa básica e para onde, em última instância, ele conduz.
Denominei essa postagem de Teísmo seguido de um sinal de interrogação porque quanto mais leio textos daqueles que abraçaram essa visão sobre Deus e o homem, mais parece que estou lendo conceitos bem mais próximos do Deísmo do que do Teísmo propriamente dito.
****
Numa série de livros, Clark Pinnock e John Sanders tem promovido uma visão de um Deus finito e limitado em seu poder e conhecimento. Eles afirmam que se o homem tem livre-arbítrio de verdade, então Deus não pode ordenar nem conhecer os eventos que irão acontecer no futuro. O futuro está em aberto, no sentido de ser tanto criação do homem como de Deus. Como Pinnock escreve:
A idéia da responsabilidade moral exige que acreditemos que as ações não são determinadas, nem interna nem externamente. Uma importante implicação desta forte definição de livre-arbítrio é que a realidade permanece, em certa extensão, aberta, e não fechada. Isso significa que uma novidade genuína pode aparecer na história, que não pode ser prevista por ninguém, nem mesmo por Deus. (…) Tal conceito implica em que o futuro realmente está em aberto, e não disponível à exaustiva presciência nem mesmo da parte de Deus. Fica bem claro que a doutrina bíblica do livre-arbítrio humano exige de nós que reconsideremos a perspectiva convencional da onisciência de Deus.
Em outras palavras, o que se infere daí é que quase a totalidade da tradição cristã, incluindo aí o arminianismo clássico, desde o primeiro século até agora, tem afirmado uma noção equivocada quanto à natureza de Deus – mas, felizmente, no fim do século XX, Pinnock, Sanders e outros conseguiram finalmente entender a verdade! Que essa postura é inacreditável fica evidente, ao se observar que a Escritura é clara ao refutar tal ensino. (…) Um dos fatores que distingue o Deus verdadeiro de Israel dos falsos deuses é precisamente o fato de que Deus conhece o futuro absolutamente e, assim, é capaz de predizer o que acontecerá com certeza (Is 46.10). Os planos de Deus não são frustrados (Sl 33.10-11), porque ele faz tudo segundo o conselho da sua vontade (Ef 1.11).
O problema está no fato de que, ao definir o livre-arbítrio como uma causa totalmente indeterminada, Pinnock criou uma contradição que não existe na Bíblia. (…) A Bíblia põe a livre agência do ser humano e a providência de Deus lado a lado, sem a menor indicação de que haja contradição entre as duas. Isso porque a liberdade da Criação não implica sua autonomia diante do Criador, como Pinnock afirma. Além disso, já vimos que, ao contrário do que pensa Pinnock, a responsabilidade humana não está vinculada com a noção libertária do livre arbítrio. Isso é um conceito filosófico que é imposto ao texto bíblico, mas que não surge do texto em si.
Os problemas do teísmo aberto são muitos. Roger Nicole, numa resenha que escreveu sobre um dos principais textos deste movimento, The Openness of God, levanta vários problemas e perguntas a respeito do teísmo aberto.
Primeiro, ele nota que o teísmo aberto não é consistente com a existência de profecias detalhadas nas Escrituras. “Como Deus poderia saber que Judas trairia Jesus por 30 moedas de prata, quando o pagamento e aceitação de tal soma dependiam de decisões imprevisíveis dos principais sacerdotes e de Judas?” De fato, uma profecia, como a crucificação de Jesus, não exige apenas que Deus conheça o que acontecerá no futuro, mas que ele também tenha controle soberano sobre cada decisão livre de todos os agentes que participaram nos eventos, como de Pôncio Pilatos e dos soldados que lançaram sortes sobre a túnica de Jesus. Mas, como Nicole afirma, se Deus nem soubesse com certeza que Adão cairia em pecado, certamente ele não poderia “prever a morte de Cristo antes da fundação do mundo” (1 Pe 1.20; Ap 13.8; 17.8). A visão de Pinnock e Sanders, segundo Nicole, faz com que Simeão tivesse mais conhecimento do que Deus (Lc 2.35).
Roger Nicole também está correto ao indicar a futilidade da oração, se o teísmo aberto fosse verdadeiro. “O que dá direito aos autores [da obra The Openness of God] a aconselharem Deus em suas orações? O que eles sabem que Deus não sabe?” E por que perder tempo pedindo que Deus intervenha para salvar pecadores? Já que Deus não interfere com o livre-arbítrio das pessoas, ele não poderá fazer nada para influenciar a pessoa para se tornar cristã. Sem conhecer o futuro, Deus nem pode saber como as pessoas reagiriam a qualquer influência colocada em seu caminho. Deus estaria completamente desamparado diante da autonomia do pecador.
Concordamos com a avaliação de Nicole. O caminho para aqueles que têm abraçado o teísmo aberto parece ser o completo abandono da fé cristã histórica. Uma por uma, as outras doutrinas centrais da fé cristã serão abandonadas, ou por estes autores, ou por seus discípulos, exatamente como já aconteceu no passado. O caminho para o liberalismo e, depois, para o naturalismo, começa com a doutrina da autonomia do homem. A conclusão dele está correta:
Não é muito difícil prever para onde estas pessoas se moverão, se elas seguirem a lógica de sua própria posição. Eles brevemente abandonarão a doutrina cristã do pecado original, porque ela será vista como incompatível com o livre-arbítrio de todo ser humano que entra neste mundo (conforme Pelágio). O passo lógico seguinte é renunciar a expiação substitutiva penal, como tem freqüentemente acontecido com o liberalismo e até mesmo no arminianismo. Quando a expiação se vai, não há nenhuma grande necessidade de se manter a deidade de Cristo, e, quando isto se vai, geralmente se descarta a doutrina da Trindade. Então, a pessoa estará em pé de igualdade com o socinismo, que é o último passo antes da total negação do cristianismo. Na outra direção, a sedução da teologia do processo, que os presentes autores são ávidos em repelir, indubitavelmente exercerá algum poder sobre suas mentes. Quando alguém lê este livro, tem a impressão de que muitas vezes algumas páginas foram escritas por John Hick.
Para concluir, precisamos notar que alguns defensores do teísmo aberto têm afirmado que este seria uma recuperação da cosmovisão judaica, afastando a fé cristã das influências da filosofia grega. Mas é necessário perguntar: que cosmovisão judaica? Ao se estudar a literatura judaica antiga, o que fica evidente, por um lado, é o desprezo completo destes pela cultura helênica e, por outro lado, a ênfase na onipotência absoluta de Deus. Basta um pouco de familiaridade com alguns textos de Efraim Urbach, Akiba, Tanchuma bar Abba, Hanima, Joshua ben Hananiah, entre outros, para perceber esta diferença. A idéia básica do antigo judaísmo é que Deus dirige todos os atos dos homens rumo ao fim que ele mesmo estabeleceu. E é nesse ponto que o judaísmo antigo foi mais acentuadamente contrastado com o paganismo. No fim, se descobre que não existe nada novo nas atuais posições dos defensores do teísmo aberto que não tenha sido ensinado no passado por Heráclito, por exemplo, ou, na atualidade, pelos adeptos da teologia do processo.
(Franklin Ferreira e Alan Myatt em Teologia Sistemática, Vida Nova, 2007)
-
-
- March 2010
- February 2010
- January 2010
- December 2009
- November 2009
- October 2009
- September 2009
- August 2009
- July 2009
- June 2009
- May 2009
- April 2009
- March 2009
- February 2009
- January 2009
- December 2008
- November 2008
- October 2008
- September 2008
- August 2008
- July 2008
- June 2008
- April 2008
- March 2008
- February 2008
- January 2008
-
Categories
-
recent posts
-
Recent Comments
LibraryThing
Tags
A Cabana amor arte Bíblia Bonhoeffer Bono Caio Fábio comunidade Cristianismo Deus disciplina discipulado Emergente espiritualidade fé George Verwer Graça Igreja Jesus justiça Keith Green liberdade livro Música ministério missão missões Missional obediência OM oração P242 Passion pastor Petra Projeto 242 relacionamentos revolução Rob Bell sexo tatuagem Teologia U2 verdade vidaArtistas que você precisa conhecer
Blogs em Português
- Bicho de Rondonia
- Blogosfera Cristã
- Claudio Tiberius
- Daniel Leite Guanaes
- Gustavo (K-fé)
- Hudson Parente
- Israel Belo de Azevedo
- J.
- Lelo
- Luis Fernando
- Nitrogenio
- O Tempora, O Mores!
- Paulo Brabo
- Paulo Costa – Portugal
- PavaBlog
- Praxis Cristã
- Projeto Toque
- Rabiscando as paredes do Sótão
- Thiago Bomfim
- Thiago Mendanha
- Vinnicius Almeida
- Volney Faustini
English Blogroll
Sites
-
Spam Blocked

