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Assistir a um show do U2 é uma experiência inesquecível. Não se trata apenas da música ao vivo, mas da energia contagiante de 90 mil pessoas que agitam, dançam e cantam em uníssono durante mais de 2 horas. Exatamente uma semana atrás, nesta hora, eu estava saindo do estádio Morumbi após mais uma dessas experiências, desta vez com minha esposa e filha (primeiro grande show assistido por ela).

Minha primeira impressão ao entrar no estádio naquela tarde foi a visão monumental de “A Garra” (apelido do palco criado para a turnê 360º). Eu esperava algo grande, mas não estava preparado para a monstruosidade do que vi. O topo da torre no centro do palco podia ser avistado até mesmo de fora do estádio. E, melhor ainda, os efeitos, a iluminação e o som não decepcionaram.

Muse, a banda de abertura, entrou pontualmente às 20h para um show rápido, debaixo de uma insistente garoa. Foi interessante ver a reação do público, a maioria não familiarizado com a banda, que parecia espantado com a qualidade musical e o peso apresentado por Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard. Como também sou fã de Muse, curti bastante o show.

Às 21:40 em ponto as luzes do estádio se apagaram, Space Oddity de David Bowie começou a tocar e mandou o recado para o público que entrava em delírio ao ver a imagem dos quatro músicos caminhando em direção ao palco sendo mostrada na gigante tela 360º (algo que eu podia ver de onde estava sem ter que olhar para a tela): “Check the ignition and may God’s love be with you.”

Com a banda no palco, a primeira música foi Even Better Than The Real Thing, segunda faixa daquele que eu considero o melhor álbum da banda, Achtung Baby. Em seguida vieram I Will Follow e Get On Your Boots, músicas para a galera dançar. What time is it in the world? foi pergunta que Bono fez (e repetiu muitas vezes durante o show) para introduzir Magnificent, possivelmente a faixa mais explicitamente cristã de todo repertório do U2. A galera cantou junto com Bono, que parecia estar, de fato, adorando Àquele a quem ele diz que nasceu para oferecer sua voz. Momento particularmente emocionante para mim.

Em seguida Mysterious Ways, outra faixa de Achtung Baby (ao todo foram quatro faixas deste disco) colocou a galera para dançar novamente e o clima continuou alto com Elevation, Until the End of the World e I Still Haven’t Found What I’m Looking For, oferecida a Julian Lennon, presente no Morumbi no dia de seu aniversário. Bono chegou até a conduzir o público a cantar Happy Birthday to You para Julian.

Stuck In A Moment, dedicada a Michael Hutchence, diminuiu o ritmo só por uns minutos, uma vez que Beautiful Day colocou todo mundo no alto de novo. Mesmo as canções mais lentas como In A Little While e Miss Sarajevo não diminuiram o ânimo do público que voltou a dançar com Vertigo, I Will Go Crazy e Sunday Blood Sunday (cuja introdução foi dedicada aos movimentos de revolução política contra ditaduras nos países do Norte da África e Oriente Médio).

Bono apresentou Walk On falando sobre a libertação de Aung San Suu Kyi e agradeceu aos fãs do U2 que junto com a Anistia Internacional desempenharam uma parte no processo de tornar a causa de Suu Kyi conhecida. Neste momento, lembrei que o U2 vem usando música com consciência política há quase 30 anos, colocando em seus encartes os endereços da Anistia Internacional e Greenpeace e incentivando seus fãs a se unirem a estas organizações. Ou seja, ninguém faz isso durante tanto tempo se não estiver convicto do que está fazendo. Não se trata meramente de estratégia de marketing para vender CDs, mas da consciência expressa por cada um dos membros da banda de que eles se sentem responsáveis pelo privilégio que sua arte lhes proporcionou. Prova desta consciência é a ONG ONE, fundada por Bono para combater a pobreza extrema.

One foi anunciada com o clip do Arcebispo Anglicano sul-africano Desmond Tutu, lembrando que juntos podemos fazer grandes coisas e, com amor, trabalharmos para construir um mundo Where the Streets Have No Name. Nada mais apropriado do que Bono ter cantado Help dos Beatles entre estas duas canções. Afinal, ajuda é o que ele mais tem pedido aos governantes das nações ricas na luta contra a pobreza endêmica, AIDs e malária nos países africanos. É impossível ouvir estas canções, apesar de tão conhecidas, e não ficar emocionado, sonhando com o Dia quando todos viverão como um onde as ruas não têm nome.

As músicas finais do show foram Hold Me Thrill Me Kiss Me Kill Me, With or Without You e Moment of Surrender, esta última sendo a canção escolhida para fechar todos os shows da turnê 360º até aqui. Curioso é que estas três últimas músicas falam sobre entrega. Que horas são no mundo? pergunta o Bono. Este é o momento da entrega, parece ser sua resposta.

Como disse, show do U2 é uma experiência inesquecível. O que não é tão legal é todo o esforço necessário para ver U2 ao vivo, desde o malabarismo para compra do ingresso, ao tempo dedicado para chegar cedo e conseguir um bom lugar, o assalto para estacionar o carro nas imediações do estádio, da demora para sair após o show e o trânsito caótico na volta. Tudo isso me faz pensar que talvez eu esteja ficando um pouco velho para este tipo de coisa. Mas para ver U2, vale a pena!

U2The Joshua Tree
Eu me lembro exatamente o dia em que o Haroldo, um aluno do seminário, me fez a seguinte pergunta: “Cara, você sabia que aquela banda de rock U2 é cristã?” Diante de minha expressão atônita, ele continuou: “Eu assisti um video deles e fala sobre um lugar onde as ruas não têm nome…  Cara, a música é sobre o céu!” Isto foi em março de 1988, um ano depois de The Joshua Tree ter sido lançado pela banda e se tornado um dos maiores discos de rock da história.

Com a curiosidade aguçada pelo comentário do Haroldo, comprei um cassete de The Joshua Tree na próxima vez que estive em São Paulo para visitar minha família. Naquela noite ouvi Where the Streets Have No Name, Still Haven’t Found What I’m Looking For e With or Without You pela primeira vez. Minha música favorita era o rock pesado e heavy metal, então a sonoridade do U2 não me cativou de imediato. Mas à medida em que escutava aquelas músicas, elas pareciam crescer em mim, mexiam com minhas emoções, expandiam meu horizonte musical e desafiavam meus conceitos sobre o que era “música cristã” (na época eu ainda separava a música entre cristã e não-cristã, sagrada e profana).

Afinal, eu poderia buscar vislumbres do céu em Where the Streets Have No Name (anos mais tarde eu entenderia que a frase fora inspirada na observação que Bono fez das ruas sem nome na Etiópia onde ele havia passado dois meses com sua esposa ajudando num campo de refugiados) ou interpretar With or Without You como se referindo a Deus (na verdade, era sobre o relacionamento entre Bono e sua esposa), mas francamente, não sabia o que fazer de Still Haven’t Found What I’m Looking For, uma letra que falava de dúvida (e não havia muito espaço para dúvida em minha teologia), ou outras faixas do disco que não tinham uma mensagem explicitamente “cristã”. Foi somente com o passar do tempo, ouvindo outros discos da banda e conhecendo um pouco mais de sua história que percebi o quanto das crenças cristãs abraçadas por Bono, Edge e Larry (Adam era o único “descrente” da banda) em sua adolescência encontravam ecos em suas músicas.

The Joshua Tree fez de mim um fã do U2. Comprei todos os discos anteriores e posteriores (e suas edições comemorativas remasterizadas quando saíram), os VHSs (e depois as edições em DVDs também), li uma dúzia de livros sobre a banda (dos quais considero Until the End of the World de Bill Flanagan como o melhor), assisti a banda ao vivo em 2005 e estou contando os dias para o show em São Paulo no próximo mês.

Hoje, 24 anos depois de ter sido lançado, The Joshua Tree é um dos meus discos favoritos. Graças a generosidade de uma amiga, ganhei o box da edição especial remasterizada em 2007. De vez em quando, pego-me voltando para suas melodias em busca de inspiração e para ser provocado novamente pelas idéias por trás de suas letras.

Para quem deseja conhecer mais sobre a fé expressa na música do U2, recomendo a leitura de Walk On – A Jornada Espiritual do U2 escrito por Steve Stockman.

john-lennon

Lembro-me do dia em que John Lennon morreu. A notícia chocou pessoas no mundo inteiro. No dia seguinte à sua morte, cancelaram as aulas na escola onde eu estudava. Eu via pessoas chorando e, sinceramente, não entendia como alguém podia chorar a morte de alguém tão distante. Não, eu não gostava dos Beatles, não estava interessado na sua música e, portanto, não via razões para chorar a morte de um de seus ex-integrantes. Evidentemente, o mundo não concordava comigo. E foi somente uma década após sua morte, que John Lennon começou a cativar minha atenção como artista.

Foi ouvindo um concerto do Midnight Oil em 1990, um show guerrilla (como eles mesmo definiram) num ato de protesto em frente ao prédio da Exxon em Manhattan, que prestei atenção pela primeira vez na música Instant Karma, cantada por eles em homenagem a Lennon que viveu e morreu em NY. A letra era perfeita para a ocasião. Uma declaração de consequências instantâneas para as ações impensadas dos magnatas do petróleo responsáveis pelo derramamento de óleo do Exxon Valdez no Alaska em 1989. Fez sentido também a frase cantada por Bono em God Part II: “Instant Karma’s gonna get him [Goldman], if I don’t get him first.”

A partir daí comecei a prestar atenção na música e arte, tanto dos Beatles, como de John Lennon. E descobri o artista em Lennon. Evidentemente que Lennon disse, fez e compôs coisas que não refletem o que creio, minha cosmovisão como cristão. Mas isso não diminui o fato de que ele era brilhante. Sua parceria com Paul McCartney nos Beatles rendeu algumas das canções mais memoráveis do quarteto de Liverpool.

Mas são as composições pós-Beatles que fizeram de Lennon um artista memorável, em minha opinião. Sua inquietação com o mundo, talvez fruto de uma infância marcada pela ausência do pai e, posteriormente da mãe, fez dele um rebelde que, aparentemente só com o passar dos anos, descobriria sua causa: a paz mundial. Essa rebeldia se tornou mais acentuada durante a guerra do Vietnam e os escândalos políticos norte-americanos no final da década de 1960 e início da década de 1970. Em meio a agitação dos movimentos estudantis, hippies drogados e desiludidos, Panteras Negras e ativistas religiosos, Lennon emergiu como uma voz clamando por uma chance para a paz e denunciando tudo e todos que ele acreditava estarem bloqueando o caminho.

Mas a paz que Lennon buscava não era apenas para o mundo ao seu redor. Sua vida revela que ele buscava paz interior, embora essa busca o tenha levado a lugares errantes. Durante a fase dos Beatles ele se envolveu com o misticismo oriental e as viagens das drogas e experimentalismo. O misticismo não satisfez sua alma e, mais tarde, ele passou a imaginar um mundo sem céu ou inferno e sem religião. Em God, Lennon confessou já não acreditar em nada (nem em Jesus, nem em Budha, nem em Mantra, nem em Gita, etc.) a não ser em si mesmo. Evidentemente ele havia se desiludido com a experiência religiosa anglicana de sua infância e das religiões orientais de seus anos com os Beatles.

Mas as drogas tampouco deram-lhe a paz que ele buscava. Sendo alguém que experimentou tudo quanto é tipo de drogas disponíveis em sua geração, Lennon sabia muito bem como era passar por um processo de desintoxicação. Cold Turkey narra essa experiência, denominada por ele como um verdadeiro inferno, de um viciado há 36 horas sem usar drogas.

Lennon compôs muitas canções amorosas sobre seu relacionamento com Yoko Ono. O relacionamento dos dois foi fruto de muita expeculação e controvérsia, mas evidentemente foi também uma fonte de inspiração para albums inteiros como John Lennon / Plastic Ono Band, Double Fantasy e Milk and Honey. Talvez uma das mais belas composições de Lennon foi para seu filho Sean, a singela música Beautiful Boy.

Tudo isto me mostrou Lennon como um artista, um ser humano caído com uma capacidade extraordinária de colocar em palavras e melodias suas próprias frustrações e sonhos. Ele cantou que só queria a verdade (Give Me Some Truth). Teria encontrado?

Em The Gospel According to the Beatles, Steve Turner (autor de Cristianismo Criativo?) narra sobre uma possível experiência de “novo nascimento” de Lennon. Mas não há como saber  se ele realmente teve um encontro com o Deus em quem dizia não crer e com Jesus Cristo, de quem pensou ser mais famoso. Só a eternidade revelará isso. E quando o Dia chegar,  o sonho de um mundo sem céu ou inferno também terá se acabado.