2008
Quando tomei a pílula vermelha
É difícil nomear um único livro na formação de meu pensamento até aqui. No entanto, se tivesse que destacar um só, muito provavelmente seria Resistência e Submissão (Widerstand und Ergebung) de Dietrich Bonhoeffer. O li pela primeira vez no carnaval de 1991. Para usar a expressão do filme Matrix (bem usada hoje em dia), foi então que eu tomei a pílula vermelha… e iniciei a jornada para descobrir quão profundo é a toca do coelho. Relendo aquela velha edição de 1980 e os trechos marcados já gastos pelo tempo, me deparei com as seguintes palavras que grifei do poema escrito pelo tradutor do livro para o português, Ernesto F. Bernhoeft:
Deus só vive para homem,
mas êste perdeu
a independência e a dignidade
para poder entendê-Lo.
O mundo sempre precisou da Igreja,
esta, porém, preocupou-se mais consigo mesma
do que com as necessidades do mundo,
ao qual deve servir.
O incrédulo sente um desejo ardente
de ser crente também,
mas o fanatismo, o orgulho e a falta de alegria
observadas nos crentes
impeliram-no para outros rumos,
aos quais se habituou muito bem.
Contudo é esta
a época do homem,
a oportunidade da Igreja,
o momento do “crente”.
2008
Free love is neither
Encontrei a frase acima meses atrás quando estava lendo U2’s Achtung Baby: Meditations on Love in the Shadow of the Fall de Stephen Catanzarite. O livro é uma análise das letras e música desse álbum fantástico lançado em novembro de 1991 (Achtung Baby é meu CD favorito do U2). A geração hippie das décadas de 1960 e início de 1970 sonhou com o amor livre (revolução sexual). A expressão desse sonho estava nos relacionamentos casuais, desinteressados, sem compromisso ou apego que prometiam uma sociedade mais feliz e saudável, libertando as pessoas do peso da culpa, dando-lhes a liberdade para experimentar antes de se comprometer. Os resultados décadas depois parecem ter tornado o sonho em pesadelo. O mundo pós-revolução pelo amor livre não é mais feliz nem mais saudável. Pelo contrário, que presenciamos são índices cada vez maiores de DSTs, depressão, ansiedade, filhos ilegítimos e divórcios (mesmo depois de tanta tentativa antes de se casar, parece que os casais de hoje estão acertando muito menos do que aqueles que não fizeram tentativa alguma). Como disse Catanzarite, “o amor livre não é nem amor nem livre.”
Enquanto refletia sobre isso, imaginei se os seguidores de Cristo hoje não estão sonhando com uma vida cristã que é semelhante ao sonho hippie do amor livre. Ou seja, uma vida cristã sem compromisso algum. Do mesmo modo que a geração do amor livre deseja sexo sem casamento, muitos seguidores de Cristo hoje em dia aparentam estar desejando as bênçãos de Deus sem compromisso de uma vida com Deus, sem o compromisso de submissão e obediência, sem o compromisso de mutualidade e prestação de contas. Fico pensando se tantos textos e comentários que colocam a graça de Deus quase como uma desculpa para se viver de maneira descompromissada não levarão muitos a uma verdadeira des-graça espiritual. O chamado ao discipulado feito por Jesus requer compromisso radical (negar a si mesmo… tomar a cruz… não voltar atrás). Jesus disse: “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama.” Amor não tem nada a ver com mandamentos e obediência… ou será que tem? Amar a Jesus de verdade envolve um compromisso com Ele e com o que Ele disse (Sua Palavra). E para que não haja dúvidas, isso envolve obediência (algo que os discípulos pós-modernos parecem não gostar muito – é só citar o termo obediência que já surgem objeções e acusações de legalismo, institucionalismo, autoritarismo, manipulação, hipocrisia… parece até papo dos hippies justificando suas atitudes “contra o sistema” na década de 1960). Como disse Bonhoeffer: “A resposta ao discipulado não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um ato de obediência.” O fato é que assim como amor livre não é amor nem livre, discípulo cristão sem compromisso não é nem discípulo nem cristão.
Creio que os hippies estavam procurando boas coisas, mas buscaram de maneira errada. Do mesmo modo, creio que essa geração de pessoas que está buscando mais de Jesus e menos de religião, está procurando uma boa coisa. Minha esperança é que ela não cometa o erro da geração free love.
2008
Graça barata
A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja… (…) Graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador. (…) A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. (…)
Bonhoeffer contrasta a graça barata com a graça preciosa, pela qual, segundo ele, devemos lutar:
A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quanto tem; a pérola preciosa, para adquirir a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga as suas redes e o segue. A graça preciosa é o Evangelho que há que se procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-lo sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – fostes comprados por preço – e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós. A graça preciosa é a encarnação de Deus.Desde a primeira leitura de Discipulado em 1986, Bonhoeffer se tornou meu teólogo favorito. Como ele, creio que existe a possibilidade de tornar algo tão precioso e belo como a graça de Deus em um conceito vazio, destituído de qualquer poder transformador, uma graça que justifica o pecado, e não o pecador.
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