Blog do revBaggio
Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

Crente boca suja

posted by Sandroin Emergente, discipuladoComments (33)

No domingo passado, ao falar sobre o desequilíbrio entre a verdade sem graça (legalismo) e a graça sem verdade (libertinagem), eu mencionei a tendência crescente entre muitos cristãos pós-modernos de soltar o verbo e liberar os palavrões como se fosse a coisa mais natural do mundo. Algumas pessoas me perguntaram se eu não estava caindo novamente no legalismo simplesmente por questionar isso. Vejamos.

Em primeiro lugar é preciso reconhecer que esta é uma questão mais complexa do muitos gostariam que fosse. Já conversei com várias pessoas sobre isso nos últimos anos e tenho a impressão de que muitos pensam que basta citar alguns versículos das Escrituras e assunto encerrado. Mas não é bem assim. O difícil é determinar quando uma palavra é torpe ou obscena uma vez que a linguagem é algo vivo e as palavras e seus significados mudam com o tempo. Algo que era considerado um palavrão nos dias de Jesus ou Paulo pode nem sequer ser utilizado hoje.

Sendo assim temos que lidar com questões sobre contexto, cultura, significado e eu entendo isso, não sou leigo no assunto e não estou tentando desprezar tais considerações.

Por outro lado, será que o valor de nossas palavras deveria ser determinado pelo meio em que vivemos? Se todos à nossa volta estão usando certas palavras, será que isso significa que nós devemos usá-las também?

Algumas pessoas dizem que o uso de palavrão se tornou natural em nossa cultura e que os únicos que ficam ofendidos são os “legalistas religiosos”. Realmente parece que cada vez mais pessoas estão usando palavrão como parte de seu vocabulário. Mas isso não torna o palavrão menos palavrão. De fato, as pessoas usam certas palavras justamente porque elas querem dizer algo para chocar, dar ênfase, ofender, etc. Ou seja, mesmo com o uso cada vez mais corriqueiro, certas palavras continuam sendo torpes e obscenas em nossa cultura.

O comediante americano George Carlin em seu show “Sete palavras que você nunca deve dizer na TV” demonstrou (mesmo que a contragosto) que há certas palavras que são inapropriadas. Bono que o diga. Por usar uma destas palavras na entrega do Globo de Ouro em 2003, ele criou problemas para a rede de TV norte-americana Fox.

Eu gosto da idéia de que se você não usaria uma determinada palavra numa conversa com sua mãe, numa reunião como igreja, numa entrevista de emprego ou para alguém que você acabou de conhecer, então essa palavra parece não ser apropriada para seu uso corriqueiro. Novamente, parece uma idéia simplista (e talvez seja), mas creio que é um começo.

Seria válido falar palavrão para se identificar com as pessoas que estamos tentando alcançar?

Eu me lembro de quando fazia visitas na antiga Casa de Detenção Carandirú em São Paulo. Os presos tinham um código de respeito para com os “crentes” que os visitavam. Não se falava palavrão perto deles. Percebi o mesmo com relação as prostitutas em alguns prostíbulos onde estive com os missionários do Projeto Toque. Quando alguma delas que não nos conhecia começava a baixar o nível das palavras, era logo censurada pelas companheiras. Fico imaginando o que essas pessoas pensariam ao ouvir um discípulo de Cristo falando as mesmas palavras que elas, apesar de usarem, reprovam. Será que elas veriam evidências de uma nova vida no falar deste discípulo?

Como eu disse em minha reflexão, precisamos rever nosso conceito de liberdade cristã. Para muitos, a nova versão de liberdade que eles estão aderindo é apenas uma revisão da velha escravidão que eles pensam ter deixado para trás.

Liberdade cristã não é liberdade para fazer o que quer que eu desejo. Liberdade cristã é liberdade para servir a Cristo e fazer o que Ele deseja. É liberdade para agradar a Deus. É liberdade no Espírito Santo. E o fruto do Espírito é amor, paz, bondade… domínio próprio.

Lutero colocou da seguinte forma em seu clássico texto Da Liberdade Cristã (1520): “Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém – pela fé. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos – pelo amor.”

Quando leio passagens como Efésios 2.1-5 e 4.22, 1 Pedro 4.3, Tito 3.3, dentre outras, há uma indicação clara de que nossa vida antes de Cristo era marcada por certas coisas que já não devem mais persistir uma vez que estamos ligados à Cristo. Os verbos usados – éramos, andávamos, vivíamos – indicam uma condição passada. Mas agora, diz a Bíblia, somos novas criaturas e devemos despir (despojar) a velha condição. Me parece estranho que seguidores de Cristo queiram continuar na condição passada, exibindo os mesmos maus hábitos e caindo nos mesmos erros.

É neste contexto do novo homem que Paulo fala aos Efésios (4.29): “Não saia de vossa boca nenhuma palavra torpe.” (ARA)

O dicionário Houaiss define TORPE como:

  1. que contraria ou fere os bons costumes, a decência, a moral; que revela caráter vil; ignóbil, indecoroso, infame
  2. que contém ou revela obscenidade; indecente
  3. que causa repulsa; asqueroso, nojento
  4. que apresenta mácula; sujo

Ou seja, mesmo considerando as mudanças do vocabulário com o decorrer dos tempos, uma palavra torpe hoje continua sendo torpe.

Algumas pessoas argumentam que xingar é ser transparente e honesto. Todavia, o próprio bom senso nos diz que não devemos ser transparentes em tudo exatamente. Ainda que não exista nada em nossa vida que esteja oculto aos olhos de Deus – não há áreas privadas diante de Deus – há todavia, áreas e coisas que fazemos que não deveriam se tornar públicas. Por exemplo, o exercício de nossas necessidades físicas. Ninguém que tenha um bom senso ira advogar que, em nome da transparência, deve-se abaixar as calças em público e se aliviar na frente de todos. Isso seria indecoroso na maioria das culturas e sociedades do nosso mundo hoje. Ou seja, a tal de transparência neste caso me parece mais uma desculpa para obscenidade do que algo sincero.

Todd Hunter, presidente do Curso Alpha certa vez disse: “Como um discípulo de Jesus usa sua linguagem? O amor deve ser o árbitro de todo o falar.”

Quando você manda alguém ir se f**** ou chama uma pessoa de filho da p***, você está demonstrando amor? Você consegue ver a atitude de Cristo nisso? Imagino que não. Não importa o quão transparente você diga que está sendo, a única coisa que sua atitude transparente está demonstrando é a ira e falta de domínio próprio.

Então ouço pessoas apontando outros pecados, dizendo que alguém não xinga, mas odeia de qualquer maneira. Ora, um pecado não justifica o outro. Deus nos chamou para uma nova vida, com novas atitudes e novos hábitos.

Creio que xingar é um mal hábito e como todo mal hábito deve ser desencorajado, procurando livrar-se dele em busca de novos hábitos. Gosto do Bono como artista. Lendo uma de suas entrevistas certa vez, achei curioso que ele mesmo considera o falar palavrão como um mal hábito que ele possui. Mesmo gostando de sua arte, não significa que eu deva gostar ou adquirir seus maus hábitos.

Jesus elevou os padrões para os seus seguidores, em vez de diminuí-los como muitos aderentes da graça barata parecem pensar que Ele tenha feito. Tiago nos chama para um viver comprometido com os pobres e oprimidos ao mesmo tempo em que nos mantemos incontaminados com o mundo – inclusive no falar (1.26-27). Uma simples leitura a carta de Tiago revela que ele tinha muito a dizer sobre o Cristianismo prático e o uso da língua.

Por tudo isso e mais um pouco, creio que os seguidores de Cristo devem evitar ao máximo o uso de linguagem torpe/obscena, especialmente em público.

Que Deus nos ajude a viver não no legalismo nem na libertinagem, mas na verdadeira liberdade no Espírito.

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Arte: Svetlana Nikulina

U2 trezentos e sessenta graus

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 Após muita espera, começou hoje a turnê 360° da banda irlandesa U2. Os dois primeiros shows (hoje e quinta-feira, dia 02/07) são em Barcelona. Na era do YouTube, Flicker e Twitter, já é possível ver imagens gravadas do show de hoje, além de conferir fotos e o setlist do show.

U2 live in Barcelona

U2 ao vivo em Barcelona

Bono e Larry em Barcelona

O setlist deste primeiro show inclui músicas de 8 discos da banda: foram 7 faixas do novo disco No Line on the Horizon (Breathe, No Line On The Horizon, Get On Your Boots, Magnificent, I Will Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight, Unknown Caller e Moment of Surrender), 3 faixas de All That You Can’t Leave Behind (Beautiful Day, In A Little While e Walk On), 3 faixas de The Unforgettable Fire (The Unforgattable Fire, Pride e MLK), 3 faixas de The Joshua Tree (Still Haven’t Found What I’m Looking For, Where The Streets Have No Name e With Or Without You), 2 faixas de How to Dismantle an Atomic Bomb (Vertigo e City of Blinding Lights), 2 faixas de Achtung Baby (One e Ultra Violet), 1 faixa de War (Sunday Bloody Sunday) e  1 faixa de Rattle and Hum (Angel of Harlem). Por enquanto, nenhuma faixa de Boy, October, Zooropa e Pop. Será interessante acompanhar esse setlist no decorrer da turnê e ver quais músicas ficam e quais desaparecem dando lugar a outras.  A banda de abertura foi ninguém menos que a fantástica Snow Patrol e a música que ficou tocando no PA anunciando a entrada da banda foi Space Oddity de David Bowie. A banda fez também um link com a estação espacial internacional e conversou ao vivo com os astronautas. Surreal. Considerada a turnê mais cara da carreira da banda (algo em torno de 100 milhões de dólares), há ainda não há nenhuma previsão de que ela passará por aqui.  Informações completas sobre esta e outras turnês do U2 você encontra em U2Tour.

Quando perseverar é preciso

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Gosto de uma frase de Nietzsche no livro Além do Bem e do Mal: “A coisa essencial ‘no céu e na terra’ é… que haja uma longa obediência na mesma direção; assim resulta, e sempre resultou no final, algo que já fez a vida valer a pena.”
Esta frase inspirou o título do livro de Eugene Peterson sobre o discipulado cristão a partir dos Salmos de peregrinação, também chamados de cânticos dos degraus, que eram cantados durante a subida dos peregrinos para as festas na Cidade Santa. A idéia é que a jornada espiritual para ser como Jesus  (ou deixar que Cristo seja formado em nós) não é apenas longa, mas uma longa obediência: algo que exige empenho, dedicação e perseverança.
Tenho ouvido o novo CD do U2 quase que diariamente nas últimas 5 semanas e acabei percebendo essa mesma idéia na letra do Bono para a música mais comercial do álbum (possivelmente a mais comercial da carreira do U2). A letra da música I Will Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight diz o seguinte:

Oh, a change of heart comes slow
It’s not a hill, it’s a mountain
As you start out the climb
Do you believe me or are you doubting
We are gonna make it all the way to the light

(Oh, uma mudança de coração é devagar
Não é uma colina, é uma montanha
Quando você começa a escalar
Você acredita em mim ou está duvidando?
Nós chegaremos até alcançar a luz)

Penso como é relativamente fácil iniciar algo, quer seja um novo relacionamento, um empreendimento, um programa de exercícios físicos, uma longa caminhada, etc. Geralmente há muita empolgação no começo, muitos sonhos, promessas e grandes expectativas. É uma verdadeira lua-de-mel, tudo é maravilhoso. Aqueles que iniciam estão cheios de energia e sentem-se como se os possíveis desafios à frente fossem apenas uma colina, relativamente fácil de ser conquistada. Mas a realidade é que, para aquelas coisas que fazem a vida valer a pena, o que temos que enfrentar pela frente é mais parecido com um K2, uma Trango Tower ou um Everest.
Por isso mesmo, o teste de todas as coisas é o tempo – e a perseverança com o passar do tempo. Em seu livro The Dip (publicado no Brasil sob o título de O Melhor do Mundo), o guru do marketing Seth Godin diz que o vão é a longa e cansativa caminhada entre o início e a maestria… a diferença entre o conhecimento básico dos “iniciantes” e a técnica apurada dos “especialistas”, seja em que área da vida for. Em outras palavras, é o resultado que se alcança quando se segue uma longa obediência numa mesma direção. É a maturidade que só se alcança tendo atravessado grandes dificuldades com espírito resoluto, por saber que está indo na direção certa. Talvez seja isso que Jesus tenha falado quando comparou o custo do discipulado com a maneira que alguém deveria calcular o preço antes de se lançar num projeto de construção ou calcular suas forças antes de entrar numa guerra. Não será fácil, então é melhor pensar bem antes de iniciar, para não desistir quando a jornada ficar difícil, quando aparecer uma depressão (um vão – the dip) no meio do caminho e você sentir que, em vez de estar subindo, progredindo, alcançando o sucesso tão sonhado, está caindo em meio às dificuldades. Somente aqueles que atravessam o vão colhem os frutos da vida pela qual vale a pena viver. É preciso não somente combater o bom combate e completar a carreira, mas fazer isso sem perder a fé, sem perder a paixão e o prazer que fez você iniciar o jornada em primeiro lugar.
Quando percebemos que estamos no rumo errado, o mais certo é desistir e voltar atrás. Mas quando no fundo de nosso coração sabemos que este é o rumo certo, então perseverar é preciso.
Você acredita em mim ou está duvidando?

U2 3D finalmente aqui

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Ontem fui assistir U2 3D. Depois de meses esperando para ver o concerto em tela grande, no conforto de uma sala de cinema, finalmente chegou o momento. A primeira surpresa ao entrar na sala foi encontrar um público pequeno (aprox. apenas 1/4 da capacidade da sala estava tomado). O som, em minha opinião, estava bom, ou seja, alto o bastante para você sentir-se próximo ao um show de rock sem agressão aos seus ouvidos. O setlist eu já conhecia, então não havia surpresa alguma aí (ao contrário de um show ao vivo quando você realmente não sabe todas as músicas que a banda irá tocar). Os efeitos especiais na tela 3D é que fazem de U2 3D um show à parte. A chuva de letras durante The Fly é fantástica (quase psicodélica)! A próximidade que as cameras 3D trazem o Bono durante alguns momentos de Sunday Blood Sunday fez algumas fans gritarem de emoção no cinema (e o resto de nós rir!). A energia durante Where the Streets Have No Name é contagiante e emocionante! Ver a banda ao vivo é uma experiência incrível, com milhares de pessoas cantando em uníssono as músicas diante de um palco gigantesco. Mas por mais perto que você consiga chegar em um show ao vivo, nunca chegará tão perto como na apresentação em 3D (possivelmente o mais perto que a maioria de nós chegará do Bono, Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton). O 3D coloca você literalmente no palco junto com a banda em muitos momentos. Sabe aquele local bem perto que você gostaria de ter conseguido mas faltou grana ou então não tinha condições de acampar na frente do estádio durante dias para garantir seu espaço? O U2 3D coloca você lá! Eu curti e verei novamente no cinema um dias desses. Afinal de contas, ver U2 ao vivo em tela grande e tecnologia 3D não é um acontecimento rotineiro. Dica para quem ainda não assistiu e pretende fazê-lo: fique até o final dos créditos com seu óculos 3D…

Graça e Carma

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Bono  

No livro Bono: In Conversations with Michka Assayas (2005), o vocalista do U2 fala sobre a Graça e Carma:

  É um conceito espantoso que o Deus que criou o universo possa estar buscando companhia, um relacionamento verdadeiro com pessoas, mas o que me mantêm de joelhos é a diferença entre a Graça e Carma. Eu realmente creio que nós saímos da esfera do Carma para a da Graça… Você vê, no centro de todas as religiões está a idéia de Carma. Você sabe, o que você faz retorna para você: um olho por olho, um dente por dente, ou em física – nas leis da física – cada ação recebe uma reação igual ou oposta. Está claro para mim que Karma está no centro mesmo do universo. Tenho certeza disso. Entretanto, ao lado vem essa idéia chamada Graça para toda aquela coisa de “você colhe o que você planta”. A Graça desafia a lógica e razão. O amor interrompe, se você quiser, as consequências de suas ações, o que em meu caso, são boas novas de fato, porque eu fiz muita coisa tola… Eu estaria num grande problema se Carma fosse finalmente meu juíz. Eu estaria na m—. Não é uma desculpa pelos meus erros, mas eu estou me agarrando à Graça. Estou me agarrando que Jesus levou meus pecados na Cruz, porque eu sei quem sou, e espero não ter que depender de minha religiosidade. (p. 203-204)

Encontrei em um outro livro, desta vez de um brasileiro, o contraste entre a Graça e a lei do Carma:

 Quem crê na Cruz de Jesus não pode fazer confissão de fé de nenhuma teologia Moral de Causa e Efeito, pois, nesse caso, anular-se-ia a Graça de Deus e se instituiria a Lei do Carma! O problema é que ou é a Cruz ou é Carma! Ou é Graça ou é Lei. Ou é Verdade ou é Moral. Ou é Justiça ou é Imagem. – Caio Fábio em O Enigma da Graça (2002)