Arquivos contendo o assunto: Missional

De tudo o que nos impele à obra missionária,
a maior motivação não é,
nem a obediência à Grande Comissão
(apesar de toda a sua importância),
nem o amor aos pecadores que estão alienados e perecendo
(por mais forte que seja este incentivo,
principalmente diante da ira de Deus…),
mas sim o zelo
- zelo ardente e cheio de paixão -
pela glória de Jesus Cristo.
Para dizer a verdade,
muitas “evangelizações” não passam de uma forma
levemente disfarçada
de imperialismo,
quando, ao realizá-las,
o que ambicionamos mesmo é
honrar a nação,
a igreja,
a organização
ou
a nós mesmos.
Contudo, só existe um imperialismo cristão,
e é aquele que visa a honra de Sua Majestade Imperial
Jesus Cristo,
bem como
a glória do seu império
ou reino.

- John Stott em Romanos, Editora ABU p. 55


Devo confessar que Steve Curtis Chapman não está entre meus artistas favoritos. Seu estilo é muito country/pop/comercial para meu gosto. Mas há uma música (a única dele que escuto) que gosto muito. Estava relendo trechos grifados de meu velho exemplar (comprado em janeiro de 1988) do livro Discipulado de Dietrich Bonhoeffer e lembrei-me das palavras desta música. Abaixo está a letra traduzida (a original você encontra aqui).

Ninguém levantou-se para aplaudi-los
Então eles sabiam desde o início
Que esta estrada não seria para fama
Tudo que eles sabiam com certeza era que Jesus os tinha chamado
Ele disse “Vem e segue-me” e eles vieram
Sem medir as consequências eles vieram

Redes vazias deitadas às margens da água
Contam uma história que poucos acreditariam e ninguém poderia explicar
Como alguns pescadores malucos concordaram em ir onde Jesus os conduzisse
Sem pensar no que poderiam ganhar
Pois Jesus os chamou pelo nome e eles responderam
Nós abandonaremos tudo por amor ao chamado
Por nenhuma outra razão senão pelo amor ao chamado
Totalmente devotos a viver e morrer
Por amor ao chamado

Atraídos tal como os rios são atraídos pelo mar
Sem voltar atrás pois as águas só podem seguir seu fluxo
Uma vez que ouvimos o chamado do Salvador, seguiremos onde ele levar
Por causa do amor que Ele demonstrou
E porque ele nos chamou para ir, responderemos
Nós abandonaremos tudo por amor ao chamado
Por nenhuma outra razão senão pelo amor ao chamado
Totalmente devotos a viver e morrer

Não por amor a um credo ou uma causa
Não por um sonho ou uma promessa
Simplesmente porque é Jesus quem chama
E se acreditamos, obedeceremos

***

“O discipulado é comprometimento com Cristo; por existir Cristo, tem que existir discipulado.”
- Dietrich Bonhoeffer em Discipulado, 1937

Com esta postagem iniciarei uma série  semanal nos próximos meses sobre artistas cujas músicas influenciaram bastante minha jornada cristã até aqui. Algumas destas músicas são como porto-seguro para minha alma – um local onde eu posso retornar de quando em quando e lembrar de coisas boas que alimentam minha esperança, minhas convicções e meu senso de vocação e chamado. Alguns destes artistas são brasileiros, outros de outras nacionalidades. A maioria são cristãos confessos, alguns não declaram publicamente sua fé.

Quero começar com o MILAD (sigla para Ministério de Louvor e Adoração), um grupo musical formado na década de 1980 por músicos profissionais que se lançaram num projeto missionário através da arte.

Foi em 1986 que ouvi o MILAD pela primeira vez, numa apresentação ao vivo do seu LP de estréia Água Viva (1985). Confesso que a música não me atraiu tanto. Naquela época,  a única música que me atraia era rock (quando mais pesado, melhor!). Por este motivo, o ritmo andino da primeira música “Todos os Que Procuram” não causou-me boa impressão e quase desisti de ouvir o restante. Ao mesmo tempo, letras sempre foram importantes para mim e as letras apresentadas pelo MILAD eram diferentes das que eu estava acostumado a ouvir nas igrejas (algo que se tornaria ainda mais evidente nos discos Retratos de Vida e Pra Cima Brasil). O que me cativou mesmo naquela noite foi a interpretação de “Pai Nosso” por João Alexandre. Quando o ouvi cantar, soube imediatamente que estava diante de um artista singular.

O MILAD lançou outros discos: Milad 1 (1986), Retratos de Vida (1987), Milad 2 (1988), Pra Cima Brasil (1990) e Milad 3 (1995). Estes discos trouxeram cânticos que foram cantados nas igrejas brasileiras por muito tempo, tais como Não Tenhas Sobre Ti, Água Viva, Conheci um Grande Amigo e Time de Deus.

Uma das canções mais marcantes e, provavelmente, a mais tocada em rádios cristãs que começaram a surgir no cenário brasileiro seria “Brasil”, composição de João Alexandre que se tornou um hino de uma geração de crentes despertando para realidades políticas e sociais do nosso país. O tempo se passou e ainda hoje esta música me comove quando a ouço:

Como será o futuro do nosso país?
Surge a pergunta no olhar e na alma do povo
Cada vez mais cresce a fome nas ruas, nos morros
Cada vez menos dinheiro pra sobreviver
Onde andará a justiça outrora perdida?

Some a resposta na voz e na vez de quem manda
Homens com tanto poder e nenhum coração
Gente que compra e que vende a moral da nação
Brasil olha pra cima

Existe uma chance de ser novamente feliz
Brasil há uma esperança!
Volta teus olhos pra Deus, o Justo Juiz

Mas foi “Retratos de Vida” lançado em 1987 que se tornou um dos clássicos em minha biblicoteca musical. Ainda hoje, passadas mais de duas décadas, este disco continua uma obra à parte na música cristã brasileira. Primeiro porque se trata de um disco conceitual, usando as ruas e a vida noturna de São Paulo como pano de fundo para sua poesia e melodia. Não me lembro de muitos álbuns conceituais na música cristã brasileira (tirando evidentemente as “cantatas”), portanto, isto já coloca “Retratos de Vida” num patamar destacado. Fora isto, a música é de excelente qualidade e totalmente contextualizada com o cenário apresentado por suas letras e temática. E tinha um rock paulista a la Titãs (Virada Radical) que escutei “até furar o disco”:

Tudo se inicia de maneira displicente
Sigo na rotina de uma vida dependente
Coisas pra queimar, lances pra cheirar
Um mundo colorido, mil mutretas pra inventar
Palavras repetidas dizem tudo novamente
Evidentemente de uma forma diferente
Minas, heroínas, transas coisa e tal
Eu precisava tanto uma virada radical

Em “Pobres ricos sem Jesus” o cenário muda para aqueles que dedicam sua existência na busca por riqueza somente para perceberem sua profunda pobreza interior que nenhum dinheiro acumulado e gasto com luxos e prazeres pode preencher:

Subiu na vida de avião, comprou até o que não quis
Cumpriu seus sonhos, sua paixão, daria tudo só pra ser feliz
Foi no horizonte procurar a fonte e o brilho do prazer
Na esperança de encontrar melhores dias pra viver
Mas como ser feliz? Onde encontrar a paz?
Coisas que tanto quis e não sentiu jamais
No coração

A faixa “Meninos de rua” chamava a atenção da Igreja Brasileira para os menores em situação de risco que começavam a crescer em número nas ruas das grandes cidades brasileiras:

Sua rua sua casa, sem carinho, os pés no chão
Olhos fundos, peso raso, nenhum pai, muitos irmãos
Desencontros e trombadas, desesperos, fantasias
Pesadelos quase sonhos, vida pobre às escondidas
De tão pobre a sem-vergonha, de criança a rejeitado
O coitado vagabundo que nem cuida do nariz
Sem escola, só na cola, tem consigo seus heróis
Camburões, faróis, algemas, desta vida que não quis
Sempre cada um na sua, sua rua seus caminhos
A procura de algo novo, bons motivos pra viver…

“Esquinas Cruéis” retrata a vida das mulheres que vendem seus corpos nas esquinas da cidade. As palavras desta música me vieram à mente muitas vezes ao sair com os missionários do Projeto Toque para ministrar nos prostíbulos no centro da cidade:

De longe se vê sua imagem, sua tatuagem, seu jeito de andar
Olhar de menina, corpo de mulher
pros homens um vício qualquer
Sem eira nem beira, de qualquer maneira
Se esconde entre brincos, colares e anéis
Escrava da sorte, esquinas cruéis
Conhece os normais e os doentes
de tão diferentes parecem iguais
Pois pagam seu preço, desfrutam seu corpo
confundem prazer com amor
No seu dia a dia a mesma agonia
vender pra ganhar pra chorar pra sofrer
Contrariando a vida pra aos poucos morrer
Você tem o preço mais alto e Deus lá do alto um dia já pagou…

As fotografias da vida urbana apresentadas em “Retratos de Vida” continuam sendo uma triste realidade e desafio tanto para a sociedade como para a Igreja. Como diz a frase na música “Meninos de Rua”: “Pois se Deus assim te ama é preciso a gente crer, que o amor de Deus é justo é há muito o que fazer…” Sem dúvida, há muito mesmo que fazer, sempre no espírito da oração: “Venha o Teu Reino, seja feita a Tua vontade, na terra como no céu.”