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Em novembro de 1991 eu havia acabado de deixar da OM, organização missionária com a qual eu havia trabalhado desde janeiro de 1989. Uma vez que unir-me à OM tinha sido meu alvo desde 1984, eu estava encerrando um ciclo em minha vida e não estava bem certo do faria a seguir.

Naquele mesmo ano eu li Resistência e Submissão de Dietrich Bonhoeffer pela primeira vez. A leitura das cartas que Bonhoeffer escreveu da prisão antes de ser enforcado pelo regime nazista causou um profundo impacto em minha vida. Comecei a enxergar o Cristianismo mais com os “pés no chão”, um pouco mais relacionado com a vida terrena – e não apenas o celeste porvir – do que eu havia percebido até então.

Musicalmente, aquele também foi o ano em que eu rompia de vez com a separação na arte do sagrado vs. profano e começava a escutar a música da época em que eu estava vivendo independente do rótulo de “cristã” ou “secular”. A “revolução” grunge estava a caminho e logo camisas xadrez de flanela amarradas na cintura seriam a moda da juventude em todos os lugares. Bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice In Chains começavam a ganhar espaço nas rádios e na MTV. Guns ‘N Roses era a banda do momento. E os headbangers ainda estavam incertos se gostavam ou não do “black álbum” do Metallica.

Foi neste contexto que comprei Achtung Baby do U2, relançado esta semana em várias edições comemorativas de seu aniversário de 20 anos. Eu tinha “descoberto” o U2 há apenas quatro anos e a banda já estava se tornando a minha favorita. Comprei o LP e gravei uma fita cassete do mesmo para ouvir em meu walkman. Durante meses, este álbum foi meu companheiro muitas noites antes de dormir.

Confesso que à primeira ouvida, fiquei um pouco confuso. Aquela não parecia ser a mesma banda de The Unforgettable Fire (1984), The Joshua Tree (1987) e Rattle And Run (1988), os três álbuns do U2 com os quais eu tinha familiaridade até então. Se nestes álbuns o U2 expunha seu amor pela América, em Acthung Baby eles voltavam à realidade de seu continente natal, uma Europa em transição com a queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo. Achtung Baby é U2 abraçando definitivamente sua identidade européia.

Logo na primeira faixa, Zoo Station, a sonoridade já se mostrava completamente diferente. Um som mais sujo, distorcido, cheio de efeitos, a bateria soando como se fosse de lata e a voz do Bono como se ele estivesse cantando dentro do vagão de um trem. As coisas ficaram ainda mais confusas para mim com o ritmo dançante de Even Better Than The Real Thing. O que estava acontecendo com minha banda de rock? Electro techno e dance music eram tabús para meus ouvidos acostumados ao heavy metal. E a letra soava demais sensual. Onde estava aquela banda com consciência política e mensagens inspiradoras de esperança, paz e amor?

Foi somente na terceira faixa, One, que a banda soou um pouco mais “normal” para mim. Mas ainda assim, o clima era diferente, mais sombrio e melancólico. One reflete a tensão entre os membros da banda durante a transição sonora dos álbuns anteriores para Achtung Baby e também fala sobre o fracasso do casamento de The Edge e Aislinn. Apesar de seu título sugerir unidade, é uma música sobre diferenças e a complexidade dos relacionamentos humanos.

Quando alcancei a quarta faixa, percebi que estava diante de um álbum fenomenal. Until The End of The World foi a música de Acthung Baby que cativou minha atenção desde a primeira ouvida. A letra introspectiva sobre traição retrata um monólogo fictício de Judas para Jesus e foi inspirada pela leitura que Bono estava fazendo de Book of Judas do poeta irlandês Brendan Kennelly.

A partir daí Achtung Baby foi fazendo sentido como uma obra de arte. Semelhante à sua capa feita de colagens de fotos que parecem não terem conexão alguma umas com as outras, mas no final formam um todo, este é o conjunto mais coeso de canções que o U2 já produziu.

Stephan Catanzarite resume bem Achtung Baby ao dizer que “é um mergulho de cabeça na piscina do mistério (…), é um álbum que faz muito mais perguntas do que tenta respondê-las, uma obra de arte que é mais inspirada em suas meditações sobre as contradições, incertezas e confusão que florescem à sombra da Queda.”

Talvez seja esta sombra da Queda que faz com Achtung Baby tenha um elemento de confissão em seu conjuto. Confissão de fracasso, de confusão, de dúvida, de ceder à tentação e de hipocrisia. Bono começou a usar óculos escuros para cantar estas canções. Era como se ele precisasse se esconder por trás daqueles óculos para ser tão pessoal e aberto sobre sua humanidade caída. Em meio há tantas confissões, encontramos também confissão de dependência da Graça de Deus representada na Santa Ceia: “I’d break bread and wine if there was a church I could receive it, cause I need it now…” (eu partiria pão e vinho se houvesse uma igreja onde eu pudesse recebê-los, pois preciso disso agora).

As primeiras palavras de Achtung Baby são “I’m ready for the laughting gas, I’m ready for what’s next…” (estou pronto para o gás do riso, pronto para o que virá). Elas anunciam o clima de tumulto, manifestações, mudanças e incerteza com relação ao futuro. Este era o clima tanto da banda quando estava compondo estas canções, quanto do mundo naquele início da década de 1990. Era também o clima de minha vida naquele momento de transição.

Talvez seja por isto que me apaixonei por este disco. Ele funcionou para mim como um divã e através de suas canções eu conseguia expressar sentimentos secretos sem soar tão óbvio para as pessoas ao meu redor. Nesta época abracei o que Bonhoeffer havia dito em uma de suas cartas da prisão: “Ser cristão é ser homem. Não apenas um certo tipo de homem, mas o homem que Cristo cria em nós.” (18.07.1944)

Para ser este tipo de homem que reconhece-se pecador, mas não perde a esperança na Redenção, é preciso ser totalmente dependente da Graça de Deus. Em Mysterious Ways, onde a imagem do movimento misterioso feminino se funde ao mover misterioso do Espírito, Bono volta a falar sobre esta dependência: “If you wanna kiss the sky, better learn how to kneel” (se você quiser beijar o céu é melhor aprender a se ajoelhar).

Um álbum tão rico em imagens e sons, Achtung Baby não poderia deixar de ser considerado como o melhor trabalho do U2.


Devo confessar que Steve Curtis Chapman não está entre meus artistas favoritos. Seu estilo é muito country/pop/comercial para meu gosto. Mas há uma música (a única dele que escuto) que gosto muito. Estava relendo trechos grifados de meu velho exemplar (comprado em janeiro de 1988) do livro Discipulado de Dietrich Bonhoeffer e lembrei-me das palavras desta música. Abaixo está a letra traduzida (a original você encontra aqui).

Ninguém levantou-se para aplaudi-los
Então eles sabiam desde o início
Que esta estrada não seria para fama
Tudo que eles sabiam com certeza era que Jesus os tinha chamado
Ele disse “Vem e segue-me” e eles vieram
Sem medir as consequências eles vieram

Redes vazias deitadas às margens da água
Contam uma história que poucos acreditariam e ninguém poderia explicar
Como alguns pescadores malucos concordaram em ir onde Jesus os conduzisse
Sem pensar no que poderiam ganhar
Pois Jesus os chamou pelo nome e eles responderam
Nós abandonaremos tudo por amor ao chamado
Por nenhuma outra razão senão pelo amor ao chamado
Totalmente devotos a viver e morrer
Por amor ao chamado

Atraídos tal como os rios são atraídos pelo mar
Sem voltar atrás pois as águas só podem seguir seu fluxo
Uma vez que ouvimos o chamado do Salvador, seguiremos onde ele levar
Por causa do amor que Ele demonstrou
E porque ele nos chamou para ir, responderemos
Nós abandonaremos tudo por amor ao chamado
Por nenhuma outra razão senão pelo amor ao chamado
Totalmente devotos a viver e morrer

Não por amor a um credo ou uma causa
Não por um sonho ou uma promessa
Simplesmente porque é Jesus quem chama
E se acreditamos, obedeceremos

***

“O discipulado é comprometimento com Cristo; por existir Cristo, tem que existir discipulado.”
- Dietrich Bonhoeffer em Discipulado, 1937

Após minha conversão à Cristo, parecia impossível conciliar minha paixão pela música rock com minha fé cristã. Eu cheguei até a envolver-me com um ministério que era uma verdadeira caça às bruxas da música (principalmente do rock), tentando descobrir sinais ocultos nas capas, letras e até mesmo nas faixas tocadas ao contrário, que evidenciassem algum pacto satânico feito pelos artistas para controlar as almas de seus fãs. Me disseram que o rock era do diabo e, como eu não queria nenhum vínculo com o capeta, havia decidido não apenas ficar longe deste estilo de música, mas alertar outros de seus perigos. Até que, numa manhã de sábado do início de 1986, numa passagem de rotina pela livraria Betânia, descobri uma banda que iria revolucionar minha visão com relação a música rock: Petra.

Formada em 1972, a banda Petra gravou 23 discos (sendo dois deles ao vivo) até sua “aposentadoria” em 2005. Das suas quatro décadas em atividade, a década de 1980 foi sem dúvida seu período de maior sucesso, quando lançaram seus álbuns mais conhecidos: Never Say Die (1981), More Power to Ya (1982), Not of this World (1983), Beat the System (1984), Captured in Time and Space (1985), Back to the Streets (1986), This Means War (1988), On Fire (1989) e Petra Praise: The Rock Cries Out (1989).

No ano passado, Petra ressurgiu com a “formação clássica” dos anos 1982-1985: Greg X. Volz (vocais), Bob Hartman (guitarra) Mark Kelly (baixo), Louie Weaver (bateria) e John Lawry (tecladista que substituiu John Slick após as gravações de More Power to Ya e Not of this World).

Há muitas músicas do Petra que se tornaram companheiras de viagem em minha jornada de fé e já postei algumas delas aqui no blog. Mas foi Not of this World, meu primeiro encontro com a banda e minha reconciliação com o rock, que ficará marcado para sempre em minha história. Quando ouvi este disco pela primeira vez, queria saltar de alegria. Apesar de não conhecer nada sobre a banda (demoraria dois anos para que eu tivesse qualquer informação sobre quem eles eram) estava ali um disco de rock cujas letras eram claramente enraizadas na Bíblia.  Apesar dos temores de minha mãe e de irmãos da igreja preocupados com minha fé, eu sabia que o Petra era, de fato, uma banda cristã. Não havia dúvidas de que quem escrevesse canções como aquelas tinha de ser crente de verdade. Resultado: memorizei todas as letras. Hoje, 25 anos depois, ainda recordo boa parte delas.

Três faixas deste disco continuam me perseguindo durante todos estes anos, como se o Espírito Santo me fizesse lembrar delas, em momentos em que preciso recordar ou reafirmar suas verdades:

A primeira é a faixa título Not of this World que me lembra que sou peregrino aqui (Povo de Deus: povo missionário, povo peregrino):

Somos peregrinos numa terra estranha
Estamos bem distantes de nossa terra natal
A cada dia que passa fica mais claro
Este mundo nunca irá querer-nos aqui
Não somos bem vindos neste mundo do erro
Somos estrangeiros que não lhe pertencem
Somos estranhos, somos diferentes
Não somos deste mundo

Outra faixa que ficou em minha memória e que, de tempos em tempos, sou lembrado de suas palavras marcantes é Godpleaser:

Tantas vozes me dizendo para onde ir
Tantas escolhas vem daqueles que pensar saber
Há um caminho que parece certo ao homem
Mas apenas o conduz à morte
Quero seguir o caminho que conduz à vida
Até meu último respirar
Não quero agradar homens – quero agradar a Deus
Desejo apenas ter a sabedoria para discernir entre os dois
Não quero agradar homens – quero agradar a Deus
Desejo apenas fazer as coisas que agradam o coração do Pai

Grave Robber me cativou desde o início. Mas após a morte prematura de meu irmão mais velho aos 20 anos de idade em 1987, esta música se tornou uma canção que me faz lembrar da esperança de um dia nos encontrarmos novamente:

Há um passo que todos temos que dar sozinhos
Um encontro que temos com o grande desconhecido
Como vapor esta vida está aguardando para passar
Como flores que murcham, como a grama que seca
Mas a vida parece tão longa e a morte tão completa
E a sepultura uma poção difícil de enganar
Mas há Um que esteve lá e ainda vive para contar
Há Um que esteve tanto no céu como no inferno
E a sepultura se revelará vazia no dia
Jesus virá e nos roubará
Muitos ainda estão em luto e muitos ainda choram
Por seus amados que caíram no sono
Mas temos esta esperança,
ainda que nossos corações possam doer

Apenas um brado do alto e todos irão acordar
E na reunião de alegria veremos
A morte será engolida na doce vitória
Onde está o aguilhão, diga-me onde está a picada?
Quando o ladrão de sepultura vier como um ladrão na noite
Onde está a vitória, onde está a recompensa?
Quando o ladrão de sepultura vier
E a morte finalmente morrer

Todas as letra em em inglês se encontram aqui.